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Opinião

Mário Sant'Ana: formação profissional, os novos desafios de um velho problema

Mário Sant'Ana fala sobre os desafios da educação em artigo escrito para o A Notícia

03/08/2021 - 11h19 - Atualizada em: 03/08/2021 - 11h20

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Redação
Por Redação AN
Cedalion sobre os ombros de Orion
Cedalion sobre os ombros de Orion
(Foto: )

*Artigo por Mário Sant'Ana

Aos 27 anos, Hans Dieter Schmidt, então presidente da Fundição Tupy, criou a Escola Técnica Tupy (ETT).

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Nas décadas subsequentes, das salas de aula e dos laboratórios da instituição saiu a maior parte dos técnicos e técnicas que formaram a base para a construção em Joinville de um dos mais importantes polos dos setores metalmecânico e plástico da América Latina. Contudo, a busca por pessoas qualificadas sempre foi intensa.

Desde os anos 1970, as empresas de TIC (Tecnologias de Informação e Comunicação) se multiplicam na região. Ao longo desses quase 50 anos, proliferam também os cursos de vários níveis (inclusive na ETT) para atender à sempre crescente demanda por profissionais para esse setor.

No século 21, o desafio é o mesmo para quase todos os setores da economia catarinense, mas com novos fatores.

O mercado tem exigido dos negócios respostas vigorosas a uma velocidade sem precedentes. Isso tem levado ao aumento da intensidade tecnológica nos produtos e processos fabris, à diversificação das empresas de tecnologia para atender aos mais variados nichos, ao crescimento do setor de serviços e à automação cada vez maior em todos os sentidos.

As instituições de ensino em geral não são tão responsivas como o mercado de trabalho pede. A construção e a aplicação do conhecimento têm tempos diferentes. Podemos compará-las aos processos de cultivo e de colheita. O último é bem mais rápido que o primeiro.

Os modelos de ensino (como o da ETT) que trouxeram Joinville, Blumenau, Jaraguá do Sul, Florianópolis e várias outras cidades catarinenses ao invejável patamar de excelência em que se encontram não servem para guindar seus ecossistemas para o próximo nível. As melhores organizações de educação já entenderam isso e buscam mudar, mas não é simples.

VUCA e BANI são dois acrônimos em inglês que ajudam a explicar as adversidades do novo contexto.

VUCA significa “Volatilidade, Incerteza, Complexidade e Ambiguidade”. Assim se tornou o ambiente dos negócios. BANI quer dizer “Frágil, Ansioso, Não linear e Incompreensível”. Assim se tornou o ser humano.

De um modo geral, as empresas e as escolas tentam criar em um mundo VUCA ambientes de estabilidade e ordem, para que pessoas BANI produzam resultados mensuráveis e concretos. São contradições importantes de estruturas seculares que hoje se veem sob condições inéditas na experiência humana.

O problema é multifacetado, multissetorial, multigeracional, envolve as mais diversas visões de mundo, ideologias políticas e concepções de educação. De qualquer perspectiva que analisemos o cenário vemos gente... muita gente, o que eleva muito a complexidade da questão.

O sucesso das empesas depende da qualidade da educação. Por sua vez, o êxito da educação está sujeito às escolhas humanas, mas também a processos cognitivos influenciados por emoções, experiências e elementos biológicos que nem educandos nem educadores escolhem.

Amado ou odiado por muitos, Paulo Freire defendia que o educando compartilhasse com o educador o papel de sujeito no processo de educação. Faz sentido. Afinal, ninguém aprende por outrem. Mas aí reside uma contradiçãode um sistema que se organiza em Ensino Fundamental, Ensino Médio, Ensino Superior, Ensino Profissionalizante, Ensino à Distância e por aí vai. O verbo é ensinar e, portanto, o sujeito é, via de regra, o educador, não o educando.

Essa lógica precisa mudar. Crianças e adolescentes devem ir para a escola para aprenderem bem o que não podem aprender melhor em outros ambientes.

Para isso, não faltam opções, inclusive os virtuais. Grupos escoteiros, corais de igreja, equipes de competição, o trabalho produtivo, o convívio familiar, os grêmios, as sociedades culturais e a vida em comunidade são ativos importantes da sociedade que sempre proporcionaram vivências enriquecedoras. Entretanto, esses aprendizados não são captados nos boletins escolares, não fornecem diplomas e raramente são levados em conta nos processos de recrutamento ou promoção de funcionários.

Para integrar todos esses recursos da sociedade para o desenvolvimento de habilidades, devemos, entre outras coisas:

- Garantir a curadoria de experiências para as crianças e orientar os jovens para fazerem boas escolhas;

- Fortalecer as organizações e os fenômenos sociais que produzem boas experiências com potencial educativo;

- Combinar esses aprendizados com os adquiridos na escola, para que cada indivíduo componha seu Curriculum Vitae, expressão em latim que significa “trajetória de vida”.

A sociedade que souber promover e valorizar uma educação ampla dará saltos quânticos rumo ao melhor futuro que pode construir. Isso exigirá um esforço multissetorial pautado pela transparência, pela colaboração, pela coragem para experimentar e pela humildade.

Parafraseando Isaac Newton, creio que os catarinenses de hoje podem “ver mais longe porque estão sobre ombros de gigantes”.

A seguir o atualíssimo pensamento de um desses gigantes:

"O fato econômico é um fato humano, material e espiritual ao mesmo tempo, subordinado às normas éticas que nos informam a respeito da dignidade da pessoa, origem e fim da organização social." — Hans Dieter Schmidt (1932 – 1981).

Mário Sant'Ana escreve no AN às terças
Mário Sant'Ana escreve no AN às terças
(Foto: )

*Mário Sant’Ana é tradudor e intérprete, cofundador do Projeto Resgate, organização com ações para reduzir contrastes sociais, e co-idealizador do programa Think Tanks Projeto Resgate, para o desenvolvimento de habilidades de inovação intersetorial, soft skills e liderança não hierárquica. Escreve artigos para o A Notícia às terças-feiras. Contato: mario@projetoresgate.org.br

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