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Há 34 anos, Grupo Caminhando ajudava a mudar o teatro em Joinville

Dois anos após sua criação, em um momento em que a cidade não tinha nenhuma companhia teatral, 17 novos grupos já haviam nascido

14/05/2016 - 04h02

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Por Redação NSC
O primeiro espetáculo foi 'Dibidi à Procura de Amigos', musical que rodou por escolas, centros sociais e culturais
O primeiro espetáculo foi 'Dibidi à Procura de Amigos', musical que rodou por escolas, centros sociais e culturais
(Foto: )

Tal qual um conto de fadas, este poderia começar com o clichê "era uma vez...". Era uma vez uma cidade no Sul do Brasil onde a arte teatral engatinhava, sobrevivendo de uns tantos abnegados e raras apresentações. Isso numa sociedade plenamente voltada ao trabalho, como se mostrava Joinville no começo dos anos 1980.

Mas eis que surge, das rodas de teoria, um grupo chamado Caminhando, determinando a ida imediata ao encontro do povo e a produção em série, tocando fogo na pólvora já espalhada pelo chão. Mas essa história não possui final feliz, simplesmente porque ela ainda não terminou. Exatos 34 anos depois de surgir, o Caminhando continua na ativa, e, do front, observa o legado que deixou.

Essa trajetória salpicada de avanços remonta ao alvorecer de 1982, quando o ator Jairo Maciel (nascido em Araranguá) chegou a Joinville, morada de sua família. Vindo do fazer teatral em São Paulo, era natural que procurasse aqui pares que o mantivessem na lida artística. Encontrou Dionisio Maçaneiro, que dava aulas de teatro na Casa da Cultura, e outros artistas locais, como Luis Alberto Corrêa, o Poeta.

- Nessa época, o teatro era pouco, incipiente e irrelevante na cidade - lembra.

Assim, um mês depois de sua chegada, Maciel já ministrava uma oficina de teatro na antiga sede do PT, na rua Brasil, e foi nela que surgiu o núcleo do Grupo Caminhando, oficializado em ata no dia 15 de maio de 1982. Incentivado pelo então secretário de Cultura, Miraci Dereti, ele escreveu seu primeiro texto infantil, com o qual a companhia estreou: Dibidi à Procura de Amigos, musical que rodou por escolas e centros sociais e passou pela Biblioteca Municipal e a Sociedade Harmonia-Lyra.

Não demorou para vir o segundo espetáculo, Um Lugar Ideal, com trilha sonora executada ao vivo por músicos da Casa da Cultura. Mas o grande hit do Caminhando foi Trem da Imaginação, um projeto realizado por meio da Secretaria de Cultura e a antiga 5a Ucre. Com jogos dramáticos e música ao vivo, a peça ficou 16 anos em cartaz e chegou a 60 mil pessoas.

Motivador ou não, fato é que em 1984 a cidade já contava com 17 grupos de teatro, divididos em dois polos de ensaio e criação: o do Sesi (onde o Caminhando ensaiava) e o da Casa da Cultura. Com tal efervescência, era normal que atores e diretores atuassem em vários núcleos. Silvestre Ferreira, por exemplo, fazia parte do Cheiro de Vida, que viajou por dois anos com O Boi de Mamão, um dos espetáculos mais vistos no País entre 1985 e 1986.

- A época era de engajamento artístico. As eleições diretas e o fim do regime militar eram bandeiras de luta. Os dois núcleos, Casa da Cultura (com o Borges de Garuva) e Sesi, com o Jairo Maciel, protagonizaram o movimento - conta Silvestre, que anos mais tarde criaria a Dionisos Teatro.

Esse espírito guerrilheiro citado por Ferreira transpareceu em A Feira, espetáculo de rua que Maciel escreveu depois da experiência com teatro infantil. A encenação, porém, foi proibida.

- Chamávamos a plateia para queimar os cenários, em protesto. Claro que não era o nosso cenário de fato, mas era uma forma de chamar a atenção para a ocupação do espaço público - Maciel recorda.

Mudança para São Paulo

Após cinco peças infanto-juvenis com o Caminhando e trabalhos com outros grupos, em 1988, Jairo Maciel se desligou do Sesi, onde trabalhava, e voltou para São Paulo. Lá, reformou o Caminhando ao lado de Lucimar de Oliveira e outros atores. Com ele também foi o sucesso O Trem da Imaginação, que continuou no portfólio da companhia.

Porém, a nova fase trouxe diversidade temática e estilística ao grupo, que só interrompeu as atividades entre 1990 e 1995, quando Maciel morou em Nova York. Longe de Joinville, já são nove peças produzidas.

Um desses trabalhos é Dona Maria a Louca, espetáculo desde 2002 em cartaz que conta com Maria Hipólita, primeira atriz cega formada em escola de teatro no Brasil. Nos últimos tempos, o Caminhando se aproximou da linguagem do grotesco, por sinal, tema do pós-doutorado de Maciel.

A última vez que o Caminhando esteve em Joinville foi no final dos anos 1990, quando ficou uma semana na cidade apresentando Os Palhaços, de Timochenko Webhi, em lugares como a Univille, Tupy, Colégio Bom Jesus e Shopping Mueller. Foi o reencontro de Jairo com o berço do grupo que comanda até hoje.

- Falar de teatro em Joinville sem falar no Caminhando é uma injustiça. O grupo teve uma relevância incrível. Ele representou o fortalecimento da filosofia do teatro e da formação de novos grupos na cidade - afirma o diretor, também presidente da Federação Catarinense de Teatro (Fecate) de 1984 a 1986.

Depoimento de Borges de Garuva, ator, diretor e escritor.

"Quando voltei a Joinville em 1983, depois de quatro anos estudando em Curitiba, Jairo Maciel tinha constituído aqui um núcleo de produção cênica bem interessante. Eu vinha para trabalhar na Casa da Cultura, a convite da Fundação Cultural. Ele atuava na Univille e, depois, no Sesi, já com o Grupo Caminhando. Mesmo havendo alguma tensão entre nossas abordagens, creio que nossos trabalhos se encontravam e se articulavam em torno do movimento teatral joinvilense e catarinense, cujo ímpeto naquele momento deveu-se muito ao Jairo.

Nossas oficinas e espetáculos tinham um cunho especialmente didático, porque a prática teatral em Joinville vinha passando por um grande silêncio desde que se calaram as vozes nos anos 1970, e estávamos sempre preocupados com a formação de público.

Todos trabalhávamos em condições precaríssimas. Não havia espaços adequados para a prática da cena; não havia recursos públicos (a não ser migalhas arrancadas com muita sola gasta nos corredores do governo e das empresas); o público, quando aparecia, não sabia ainda muito bem a que vinha, pois o que se esperava ver no palco era sempre alguma coisa que lembrasse a televisão.

O trabalho quase apostólico desses grupos reuniu entre 1982 e 1988, mais ou menos, uma pequena multidão de gente apaixonada por teatro. Os grupos e o movimento teatral eram espaços de convivência e desenvolvimento pessoal, mas também foram importantes espaços de resistência e de militância contra o vazio de pensamento que a ditadura havia criado por aqui."

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