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'A Nossa Música'

Iriê e John Bala Jones voltam ao palco com suas formações originais

As bandas, que marcaram o cenário musical catarinense no início dos anos 2000, participam de evento com todos os seus membros fundadores

26/12/2019 - 12h43 - Atualizada em: 28/01/2020 - 13h24

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Marina
Por Marina Martini Lopes
A banda Iriê, com sua formação original
A banda Iriê, com sua formação original
(Foto: )

Quem acompanhava o cenário musical catarinense entre o final dos anos 1990 e o começo dos anos 2010 certamente reconhece estes versos: "Ei, moleque aonde você vai? / Por este lado cê ta perdido / Cadê tua mãe? Quem é teu pai? / Nesse mundo cruel, nesse mundo bandido." Ou quem sabe estes: "Num domingo desse eu passo pela sua casa / Com meu violão montado numa bicicleta / Te boto na garupa e vamos sem destino / Vamos passear."

As bandas que assinam as músicas Ei Moleque e Vamos Passear de Bicicleta, respectivamente, são o John Bala Jones e o Iriê - grupos que ganharam projeção em todo o sul do Brasil, e mesmo nacionalmente, na virada do século XXI. Se relembrar essas canções deixou você nostálgico, pode comemorar: no dia 28 de dezembro, John Bala Jones e Iriê sobem ao palco com suas formações originais, como parte do evento A Nossa Música, que celebra justamente a música autoral catarinense.

Nenhuma das duas bandas estava completamente inativa de alguns anos para cá - mas o John Bala, como chamam os próprios integrantes, hoje funciona em ritmo muito menos acelerado. Fernando Pereira, guitarrista e um dos membros fundadores do grupo, conta que os integrantes remanescentes ainda tocam em eventos, mas que a coisa "não é exatamente como era antigamente. Até porque o mercado mudou bastante, a estrutura das casas em Floripa mudou bastante, outros estilos de música ganharam mais espaço nos últimos anos. Poucas casas são dedicadas a rock, a rap; muitas dão espaço para sertanejo, funk. Isso não aconteceu só com o John Bala, mas com várias outras bandas que não tinham projeção nacional, mas que faziam bastante sucesso aqui na região."

Fernando relata que, em algum momento, todos os integrantes precisaram procurar outros trabalhos, ou mesmo outros projetos musicais, para conseguir um maior retorno financeiro. "O Giulio [Giulio Franco, percussionista] também tem um hostel; o Mateo [Mateo Troncoso, baixista] é um baita fotógrafo - é uma coisa que já vem de família; o pai dele, o Pedro Troncoso, era um fotógrafo bem conceituado. Eu toco em outras quatro bandas, porque a música é minha paixão. O Jeco [Jeco Thompson, guitarrista] hoje mora em Portugal, e é um DJ muito requisitado por lá."

Em estúdio, o John Bala Jones não entrou mais: "Não produzimos mais nada; mesmo tendo bastante a produzir", relata Fernando. Nós teríamos músicas para lançar uns três álbuns, se quiséssemos. Temos composições antigas, que não foram usadas em discos já lançados; e outras que surgiram agora. Nosso principal compositor, o Giulio, tem muito essa coisa na veia; então ele nunca parou de escrever. O que acontece é que gravar um disco exige muito investimento. Nossa moeda sempre foram as apresentações ao vivo, mesmo na época em que estávamos mais ativos."

No dia 28, o John Bala Jones sobe completo ao palco, com Guilherme Ribeiro nos vocais, Fernando Pereira na guitarra, Jacques Blasseti na bateria, Giulio Franco na percussão, Jeco Thompson na guitarra, Mateo Troncoso no baixo, e participações do baterista Fábio Barreto e do baixista Tito Brito. Da mesma forma, o Iriê também chega com sua formação clássica: Rô Conceição nos vocais, Cléo Borges no baixo, Daniel Gafa na bateria, Daniel da Luz na percussão, Christian Feel na guitarra e no violino e Sérgio Santana no teclado. Embora o Iriê sempre tenha se mantido na ativa, a novidade são os retornos de Rô, que deixou a banda em 2016, e de Christian, que saiu do grupo há nada menos que dez anos.

O John Bala Jones, reunido para o show
O John Bala Jones, reunido para o show
(Foto: )

A saía de Christian Feel aconteceu em meio a um desentendimento com os outros integrantes, durante as gravações do álbum Melhor do Que Eu Sou. Rô Conceição narra: "Em uma reunião, estávamos apertando alguns parafusos a respeito da postura de um, de outro, que era uma coisa que sempre fazíamos - mas nesse dia falamos para o Chris algumas coisas com as quais não concordávamos, e ele não gostou da maneira como falamos. A gente nunca mais se falou depois disso. Talvez ele tenha ficado esperando um contato nosso, nós ficamos esperando um contato dele; e nisso se passaram dez anos." Christian também diz que, na época, "estava precisando reciclar as ideias e aprender coisas novas, explorar outras áreas da música. A música é muito ampla, o violino é um instrumento que se insere em diversos estilos, e há muito tempo eu estava trabalhando só com o reggae."

Rô Conceição diz que, na sua vez de deixar o Iriê, o que mais pesou foi o momento familiar: "Eu e minha namorada decidimos ter filho", explica. "Eu já tinha uma filha bem mais velha, mas quando ela era novinha a banda estava super ativa, e eu passei muito tempo longe, então não queria que isso acontecesse dessa vez." O vocalista também confessa que queria "fazer uma coisa mais autoral, mais de acordo com as minhas ideias; sem aquela coisa de banda, em que volta e meia a gente é voto vencido."

Nenhum dos dois, porém, deixou de trabalhar com música: Christian Feel voltou a se dedicar mais à música clássica, e também estudou e aprendeu produção musical. Ele expandiu sua área de atuação, sempre com o instrumento favorito: criou um projeto que combina música eletrônica e violino, tocou em um grupo de tango com artistas argentinos, e também toca com uma banda de música celta medieval de Porto Alegre (RS), a Bando Celta. Rô Conceição continuou se apresentando na noite de Floripa e em eventos, agora em formato solo e ao lado de outros artistas que sempre admirou.

"Para mim, a coisa mais legal desse reencontro foi voltar a se falar, voltar a ter convívio com pessoas com quem trabalhei por tanto tempo e depois, por uma coisa boba, perdi contato", diz Rô. "A gente não chegou a conversar sobre o que aconteceu, não foi uma coisa terapêutica, assim [risos]; mas cada um respeitou o ponto de vista do outro." Christian concorda: "Está sendo muito bacana reencontrar o pessoal. Nós ainda temos muitas histórias pra botar em dia. Os ensaios estão super fluindo - dá a impressão de que não fazia nem um mês que a gente estava sem ensaiar."

O baixista Cléo Borges, que permaneceu no grupo ao longo de todo esse tempo, conta que, no início, todos os integrantes do Iriê viviam só da banda. "De uns dez, oito anos para cá, cada um passou a ter seu trabalho paralelo", diz. "O baterista trabalha num bar; eu tenho um estúdio, produzo outras bandas - vivo da música, mas não só do Iriê. O percussionista dá aula de capoeira e também tem um estúdio; o tecladista dá aula de música..." Assim como no caso do John Bala Jones, ele cita as mudanças no mercado musical e no cenário local como possíveis motivos pelos quais as bandas da região não se mantiveram tão em alta quanto no início dos anos 2000: "O Iriê demorou muito para se adaptar à internet", afirma. "Somos uma banda mais velha; é difícil acompanhar a gurizada. [risos] Além disso, quando nós fomos morar no Rio e depois voltamos, nós vimos que estava tudo diferente. A ilha sempre foi muito reggae, né? E, quando nós voltamos, não estava mais: era bastante sertanejo, bastante pagode."

Apesar disso, ele acha que o público do reggae, o gênero musical do Iriê, é bastante fiel: "O reggae tem uma coisa quase de religião", opina. "O grande lance são os temas que tu aborda, o que tu fala nas músicas. Se a letra fala de putaria, de bebida, é uma coisa que entra por um ouvido e sai pelo outro. Não deixa uma mensagem. O reggae tem muito da mensagem; apesar de ainda existir na sociedade esse preconceito de que reggae só fala de maconha. Os temas do reggae sempre são políticos, sempre são sociais."

O padrinho desses reencontros foi Moriel Adriano da Costa, do Dazaranha, responsável por selecionar e entrar em contato com as bandas que vão participar do evento - o Dazaranha, é claro, também vai se apresentar, com as músicas do disco mais recente do grupo, Catarina. Moriel faz questão de frisar: "É claro que, quando se fala em música autoral catarinense, muita gente já vai perguntar: 'E o Engenho? E o Stonkas e Congas? E o Tubarão?' Primavera nos Dentes, Tijuquera, Luiz Meira, Ave de Rapina... Tem um monte de gente boa em Santa Catarina, inclusive uma gurizada nova, que a gente não consegue abraçar agora. Precisaríamos fazer um festival de dois, três dias. O que vamos apresentar é uma amostra do que se produz em Santa Catarina: uma amostra relevante e significativa, mas ainda assim uma amostra."

Rô Conceição faz coro: "Estamos super honrados por fazer parte dessa festa, e também sabemos que estamos representando uma coisa muito maior: por mais que haja músicos incríveis ali, nós estamos só representando uma porrada de gente boa, que inclusive influenciou muito a gente, e que não vai poder estar presente."

E quem sabe o que pode acontecer depois do show? "O Moriel foi fundamental para que acreditássemos que há espaço para voltarmos a trabalhar regularmente e nos engajarmos em novos projetos", diz Fernando Pereira, do John Bala Jones. "Acho bem provável que o grupo continue mais ativo agora. É um novo ciclo para a banda. Se continuar essa energia de novos shows, talvez a gente consiga pensar em lançar alguma coisa; quem sabe um clipe, um DVD."

Cléo Borges, do Iriê, ressalta que nada disso foi conversado com a banda até agora, mas que sente que "é essa formação que tem realmente a energia Iriê. É a melhor formação da banda, a que mais teve sucesso, a que mais ficou na memória do público. Eu tenho visto nas redes sociais o pessoal muito feliz com essa reunião." Rô Conceição é mais cauteloso: "Ainda não falamos sobre isso, mas eu até acho que tratar o show como uma exceção valoriza o evento: é uma celebração, uma festa. Estamos vivendo a experiência na plenitude de ser uma coisa única."

O show vai contar também com as presenças de Expresso Rural, Camerata Florianópolis, Nós Naldeia, Eltin e Reis do Nada. O evento acontece neste sábado, 28 de dezembro, a partir das 19h, na Arena Petry, em São José. Ingressos no site Minha Entrada. É possível optar pelo Ingresso Solidário: levando 1kg de alimento não perecível para doação, a entrada sai pela metade do preço.

A Nossa Música: encontro da música autoral catarinense

Quando: Dia 28 de dezembro, sábado, a partir das 19h

Onde: Arena Petry (SC-281, 4000, São José)

Ingressos no site Minha Entrada, por R$ 44 com opção de meia-entrada e Ingresso Solidário por R$ 22.

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