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    Com a Palavra

    José Galló: "No RS, vejo egos, debates que não levam para lugar nenhum"

    Presidente das Lojas Renner comenta a crise financeira do Estado

    28/03/2015 - 08h03 - Atualizada em: 28/03/2015 - 09h59

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    Por Redação NSC
    Gallo chegou à empresa em 1991
    Gallo chegou à empresa em 1991
    (Foto: )

    Em meio ao expediente, um brinde com espumante. Diretores e gerentes da Lojas Renner celebraram com o presidente da companhia, José Galló, mais uma marca para deixar os acionistas felizes. As ações da empresa, que têm se valorizado em média 30% ao ano, ultrapassavam a barreira dos R$ 80.

    Boa parte deste desempenho é atribuído a Galló. Quando chegou à Renner, em 1991, liderou a mudança de perfil da empresa, que deixou de ser uma rede de departamentos para se especializar em moda. Em 2005, passou a ser a primeira companhia a ter o capital pulverizado na Bovespa - ou seja, uma empresa sem dono. Com um faturamento de R$ 4,6 bilhões, desde o ano passado com lojas em todos os Estados e líder no varejo de vestuário no país, a Renner não teme a crise econômica nem os seus reflexos para o varejo.

    Galló concedeu entrevista, dividida em três partes, semanas atrás. No trecho da conversa reproduzido abaixo, Galló fala sobre a crise financeira no Rio Grande do Sul e o flagrante de trabalho escravo de um fornecedor:

    Como o senhor analisa a situação financeira do Estado?

    Se o Rio Grande do Sul fosse uma empresa, estaria em situação pré-falimentar. Quando se chega a uma situação dessas em uma empresa, as pessoas se unem e acham uma solução, inclusive com grandes sacrifícios, com redução de despesas. Você tem união. Deixa picuinha de lado para salvar uma empresa. Se uma empresa falir, todo mundo vai junto. Infelizmente, não temos isso no Estado. Talvez tenha de piorar um pouco mais para chegarmos a ter esse espírito. Vejo discussões inúteis, egos, que não levam a lugar algum.

    Por exemplo?

    A busca de soluções ilusórias, artificiais, como se endividar mais. A realidade é a seguinte: as despesas estão crescendo mais do que as receitas. Lógico que esta história não vai acabar bem. Não sei se a renegociação da dívida vai ser uma solução para o Estado. As pessoas têm de se conscientizar de que a única forma de conseguir recursos é via impostos, com negócios e desenvolvimento, uma vez que já usamos e abusamos dos empréstimos. Já temos tanto endividamento que não conseguimos mais pagá-lo. O Estado não é criador de recuros, ele é gerenciador. Então, a única forma é reduzir despesas e acrescentar receitas.

    Confira outros trechos da entrevista

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    "A Renner sempre cresceu em momentos de crise"

    Se fosse presidente de uma empresa chamada Rio Grande do Sul, o que o senhor faria?

    A primeira coisa é saber a situação real, qual é a receita e a despesa, quanto tempo vamos resistir a isso. Se não se projetar isso, é óbvio que não vai se chegar a um final feliz. Ou nos juntamos e fazemos sacrifícios e achamos uma solução em conjunto ou... O Rio Grande do Sul é uma empresa que a cada quatro anos muda todos os diretores e os gerentes. Só isso é um negócio muito complicado. Respeito a democracia, a política partidária, mas também respeito a eficiência em gestão. Isso tem de ser compatibilizado.

    É verdade que o senhor se veste apenas com roupas da Renner?

    Também faço test drive na concorrência. Há uma regra interessante do Sun Tzu (chinês autor do livro A Arte da Guerra): se quiser vencer todas as batalhas, tem de conhecer a si próprio e a seus inimigos. Faço compras, uso as roupas e, quando acho algo melhor, trago aqui, digo que tem gente fazendo algo mais e que precisamos nos aprimorar.

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    No ano passado, a Renner foi envolvida em um epísódio constrangedor quando um fornecedor foi flagrado com trabalhadores bolivianos em situação análoga à escravidão em São Paulo. Como a empresa agiu para que isso não se repita?

    Somos o último da fila. Todos os nossos concorrentes já entraram nessa. Mas isso não nos interessa. Isso é fruto do que é a indústria brasileira de vestuário: um pavilhão que corta o tecido e o coloca em oficinas. Temos cerca de cem fornecedores principais e 2,5 mil oficinas. Temos contrato que deixa claro para o fornecedor que não toleramos trabalho escravo, infantil e que encargos não sejam pagos. Auditamos esses cem fornecedores. Só que eles se desdobram em 2,5 mil pequenas oficinas, subcontratadas. Você vai, audita, no dia seguinte acabou, se foi tudo. Vivemos com uma espada sobre a cabeça. Nós e todo o varejo brasileiro. Direcionamos esforços e recursos para melhorar o ambiente dessas oficinas. Mas por que estão surgindo esses casos de imigrantes bolivianos? Porque não se acham mais costureiras brasileiras. Fazemos todos os esforços. Pode acontecer de novo? Sim. Por quê? Porque o sistema tributário brasileiro é tão cruel que leva a isso.

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