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Lançamento do cinema

Leitor do Diário Catarinense faz crítica sobre o filme brasileiro Serra Pelada

Dirigido por Heitor Dahlia, produção estreou nos cinemas de Santa Catarina nesta sexta-feira

25/10/2013 - 19h11

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Por Redação NSC
(Foto: )

Serra Pelada - o filme, o Brasil

Em 1980 dois amigos de infância, já adultos, partem de São Paulo rumo ao Norte do país, atraídos por uma fantasia alimentada de boca em boca e que repentinamente se tornaria assunto diário nos telejornais. Não fosse pelo fato de um deles deixar a mulher grávida em casa, estariam em situações bem semelhantes: Joaquim (Júlio Andrade) fora demitido do cargo de professor de escola, Juliano (Juliano Cazarré) tinha um agiota fungando-lhe o cangote.

O destino é Serra Pelada, cadeia de montanhas que também dá nome ao filme de Heitor Dahlia, com suas promessas de fartura de ouro e enriquecimento em um Brasil que vivia os últimos anos da ditadura cívico-militar e os primeiros da década perdida, com inflação galopante e poucas oportunidades.

Brasil profundo, com todas as suas asperezas, Serra Pelada foi um marco do fim de uma era, último suspiro (antes do pré-sal) da crença no Brasil das riquezas infinitas. Um faroeste com todos os ingredientes: gente estropiada, pistoleiros, gângsteres bem vestidos, negociatas, álcool e mulheres supostamente à disposição. Conta-se que houve quem trocasse todos os dentes por peças feitas em ouro, que prostitutas ficaram ricas, que a Aids encontrou solo fértil no formigueiro humano que subia e descia a montanha: multidão migrante imortalizada por Sebastião Salgado e que surge no filme em imagens às vezes granuladas ou simulando o tecnicolor dos anos 1980.

"Eu gostei de matar", diz Juliano, depois da primeira estocada no estômago de um rival. Logo a faca vai sendo trocada por armas de fogo cada vez mais potentes, divisor de águas da maquinaria de poder que o fascina e o torna um rival à altura de Coronel Carvalho (Mateus Nachtergaele) e Lindo Rico (Wagner Moura). Maquinaria que inevitavelmente o afasta de Joaquim, sócio reduzido a um "formiga" depois de conflagrar-se com Juliano. Então, as condições para a vingança estão postas, neste lugar que o "Professor" insiste em dizer que "piora as pessoas" e que por isso, depois de achada a pepita sonhada, quer abandonar. Mas não será fácil deixar o mar de lama e sangue, onde a todo momento se namora com a morte. A montanha que viria abaixo, como uma "pirâmide ao contrário" traga a amizade, assim como será palco da reconciliação possível.

Com narrativa semelhante a dois clássicos filmes de Martin Scorsese, Os bons companheiros e Cassino, o filme se segura com ótimos atores, aos quais se soma a linda Sophie Charlotte, como a ex-prostituta Tereza. Os personagens, no entanto, à exceção do de Juliano Cazarré e até certo ponto do de Wagner Moura, parecem às vezes esquemáticos, sem a complexidade que o tema oferece. Bem realizado, ainda que com roteiro (de Vera Egito e do próprio Dhalia) linear e um tanto previsível, o filme merece ser visto. É a expressão ficcional de um episódio dos mais importantes para o Brasil da segunda metade do século vinte, feito com capricho cenográfico e ritmo vibrante, mostrando uma experiência que levou muitos ao limite do sonho e da frustração, quando não à morte - e ao gosto por ela.

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