nsc
an

Artigo

Mário Sant'Ana: "Os muitos ganhos que a arte nos traz"

Escritor fala sobre a importância econômica e social da cultura

21/09/2021 - 13h54 - Atualizada em: 23/09/2021 - 08h48

Compartilhe

Por Redação NSC
conexão
Mario Sant'Ana destaca os efeitos positivos da arte
(Foto: )

*Artigo por Mário Sant'Ana

“Vamos promover um concurso de arte!” Em plena pandemia?!?

Foi o que fizeram os florentinos, em 1401, em reação a mais uma onda da pandemia de peste bubônica, que ceifara, mais uma vez, grande número de vidas naquela cidade. O vencedor do certame, o escultor Lorenzo Ghiberti, recebeu como prêmio um contrato para executar os painéis de bronze da porta do Batistério de São João, naquela cidade.

​> Acesse para receber notícias de Joinville e região pelo WhatsApp

O que a porta de uma igreja tem a ver com o combate ao bacilo? Nada. A comuna tutelada pela Casa de Medici recorreu à arte, à beleza e aos simbolismos de sua fé para minorar a dor dos sobreviventes, 262 anos antes de um bacteriologista suíço descobrir a causa da doença.

Honraram o que cultivavam. A capital toscana é a cidade natal de Boccaccio, Dante Alighieri, Rafael, Botticelli, Leonardo da Vinci, Michelangelo e, claro, de Lorenzo Ghiberti — alguns dos muitos protagonistas da perpétua história de amor e lucro envolvendo a arte e os florentinos.

Sim. Muito lucro. Os investimentos feitos no setor há vários séculos ainda produzem, além de alento e inspiração, riquezas para Florença, que hoje conta 383 mil habitantes. O turismo cultural rende para a cidade cerca de R$ 15,5 bilhões por ano, 1/5 da sua economia.

Milão é outra cidade italiana que tem na Economia Criativa uma importante fonte de divisas. Só o setor da moda rendeu para os milaneses R$ 117 bilhões em 2018. Se o mesmo acontecesse em Joinville, quase quintuplicaria o produto interno bruto da cidade.

Em 2017, nos EUA, a combinação de capital intelectual, cultural e a criatividade rendeu US$ 877,8 bilhões. Só a Netflix faturou, em 2020, US$ 25 bilhões; mais do que o PIB de dez estados brasileiros.

O potencial é incalculável e não é limitado pela geografia. Até as primeiras décadas do século 19, o nascimento de Jesus Cristo mal era celebrado. Em 1843 isso começou a mudar. Em sintonia com as reformas promovidas pela recém entronada Rainha Vitória, Charles Dickens escreveu Um Conto de Natal. Todos os seis mil exemplares da primeira edição do livro foram vendidos em duas semanas.

Além de levar os leitores a refletir sobre a data e seu verdadeiro sentido, a forma de celebração descrita no último capítulo do clássico passou a ser copiada ao redor do mundo. Ceias fartas, famílias reunidas e ações de caridade se tornaram, a partir de então, indispensáveis nos festejos que rapidamente ganharam tradição. Em pouco tempo, os presentes deixaram de ser dados somente aos mais pobres, para também serem trocados entre familiares e amigos.

Portanto, a forma como hoje celebramos o nascimento do Cristo e seus respectivos ganhos econômicos têm suas raízes em uma obra literária, escrita por uma única pessoa, em seis semanas.

O valor da arte e da cultura não se mede apenas em cifras. Segundo um estudo feito pela OMS, “as várias formas de arte contribuem para os principais determinantes da saúde”. A pesquisa apontou que atividades artísticas ajudam a evitar doenças mentais e o declínio físico relacionado à idade.

A diretora regional da OMS para a Europa, Piroska Östlin, destaca que "trazer arte para a vida das pessoas por meio de atividades como dançar, cantar e ir a museus e shows oferece uma dimensão adicional” nos esforços para melhorar a saúde física e mental.

Não devemos, contudo, ser utilitários ao pensarmos na arte, ou a castraremos. Como ensinou Fernando Pessoa, “A literatura, como toda a arte, é uma confissão de que a vida não basta.” Saber ler e escrever não é suficiente. É preciso termos sobre o que ler e escrever. E é com isso que nos brindam os artistas.

A capacidade de produzir ou sorver qualquer forma de arte é uma dádiva a ser honrada e, por isso, cultivada, enquanto indivíduos e sociedade. Os museus de Joinville, espaços como o Instituto Juarez Machado, o Instituto Core, a Casa da Cultura e eventos como o Pianístico, o Festival de Dança e a Feira do Livro são oportunidades de nos aproximarmos do que devemos ser.

escritor
Mário Sant'Ana escreve no AN às terças
(Foto: )

*Mário Sant’Ana é tradudor e intérprete, cofundador do Projeto Resgate, organização com ações para reduzir contrastes sociais, e co-idealizador do programa Think Tanks Projeto Resgate, para o desenvolvimento de habilidades de inovação intersetorial, soft skills e liderança não hierárquica. Escreve artigos para o A Notícia às terças-feiras. Contato: mario@projetoresgate.org.br

Leia também

> Laudo sobre morte de bebê em Garuva pode descartar agressões físicas; entenda o caso​

> Jovem é preso suspeito de estuprar a irmã de 6 anos em Rio Negrinho​​

> JEC quer torcida na Arena para enfrentar o Uberlândia pela Série D

Colunistas