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    Médico de Joinville explica como funciona cirurgia robótica e quem pode se beneficiar  

    No último mês, SC recebeu o primeiro robô a realizar cirurgias 

    16/07/2019 - 19h35

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    Patrícia
    Por Patrícia Della Justina
    (Foto: )

    No último mês, Santa Catarina recebeu a primeira plataforma robótica a realizar cirurgias. O robô foi instalado no Hospital Santa Isabel, de Blumenau. Para saber como funciona esta técnica e quem pode se beneficiar o A Notícia conversou com o primeiro médico do Estado a conseguir a certificação para utilizar este tipo de equipamento em procedimentos, que atua em Joinville há mais de 11 anos. O médico urologista Fábio Lepper possui certificação pela Intuitive Surgical (EUA), e há mais de dois anos já vem realizando cirurgias robóticas em São Paulo nos hospitais Nove de Julho e Sírio-Libanês.

    AN: há quanto tempo existe esse procedimento?

    A cirurgia robótica não é uma novidade. É uma cirurgia cuja técnica já vem sendo desenvolvida há muitos anos, principalmente nos Estados Unidos. Lá começou no início dos anos 2000 e foi se estendendo pelo resto do mundo. O Brasil foi contemplado com a chegada do primeiro robô em 2008, em São Paulo, no Hospital Sírio-Libanês. Hoje nós temos cerca de 50 robôs espalhados pelo brasil.

    AN: em que consiste a técnica robótica?

    O procedimento é considerado como uma cirurgia laparoscópica, só que a gente denomina de cirurgia laparoscópica assistida por robô. O princípio é o mesmo, mas em vez de o braço do cirurgião estar segurando a pinça, é o braço do robô. A vantagem da pinça robótica é que ela é articulável e semelhante ao punho humano, ou seja, ela faz o mesmo movimento por meio de dois pontos de articulação, como os punhos e os dedos humanos. Ela vence as limitações da laparoscopia tradicional. O robô possui quatro "braços" que são controlados pelo cirurgião por meio de um console. Há um par de joysticks, para controle dos movimentos finos dos braços robóticos, um conjunto de sete pedais para movimentos da câmera e acionamento das fontes de energia térmica e um visor que oferece uma visão em 3 D com magnificação de 15 vezes.

    AN: o que diferencia a técnica robótica da tradicional?

    Por se ter um robô interpondo entre o cirurgião e o paciente, é possível trazer muito mais precisão àquela cirurgia. O cirurgião fica num console controlando os movimentos do robô por meio de joysticks, pedais e visor ótico em 3D _ que também tem capacidade de aumentar a imagem em 15 vezes. É importante ressaltar que o robô não tem nenhum tipo de autonomia. Ele apenas replica fielmente o que o cirurgião manda. Ele traz mais precisão, então você consegue, consequentemente, tornar o procedimento mais seguro, menos morbidade, com menos sangramento, além de fazer uma abordagem de áreas mais difíceis de acessar. Sem contar que o braço robótico não treme, já a mão do cirurgião treme. Além de ser uma técnica menos invasiva (não são feitos cortes, e sim furos), você consegue conferir ao paciente uma recuperação muito mais rápida e reintegrá-lo para as atividades do dia a dia com mais rapidez do que por uma técnica tradicional por cortes.

    AN: quais são as cirurgias que podem ser realizadas?

    A urologia é uma das especialidades que mais usam robôs. Eu diria que 60 ou 65% da demanda do robô, hoje, é da especialidade da urologia. Os outros 35% ou 40% estão espalhados entre as demais especialidades. Dentro da urologia, a cada 100 cirurgias realizadas, 90% são para próstata. Mas, claro, a cirurgia robótica não é feita só para urologia ou só para a próstata. Ela é uma técnica que existe e que pode ser realizada por várias especialidades médicas, como exemplos: ginecologia, cirurgia torácica, cirurgia cardíaca, cirurgia geral, cirurgia de próstata, rim e relacionadas a câncer de bexiga. Além disso, não são todas as patologias que são passíveis de serem operadas por meio do robô, mas sim as mais complexas, e em locais de mais difícil acesso. No caso da urologia, o câncer da próstata é o mais procurado porque o órgão está em um local muito difícil. Mesmo assim, dentro da própria urologia, há outras que nem sempre necessitam utilizar uma tecnologia desse porte. Para você ter uma ideia, a primeira cirurgia realizada pelo robô em Blumenau foi ginecológica, em uma paciente que sofria de endometriose.

    AN: por que a técnica é mais utilizada em cirurgias urológicas?

    Porque grande parte das patologias, com destaque ao câncer de próstata, que é uma das principais patalogias do homem, a parte mais difícil é o acesso à mão humana. A próstata fica na pelve, embaixo da bexiga, um pouco acima do reto. Então o robô veio facilitar esse acesso. Você consegue alcançar a região sem dificuldade, tem uma visão maravilhosa do que está fazendo. É possível trazer ao procedimento uma qualidade intraoperatória melhor e, claro, vai refletir no pós-operatório.

    AN: essas cirurgias costumam ser mais rápidas do que as tradicionais?

    O tempo não é o principal objetivo dessa técnica. Não podemos usar o tempo como uma barganha para dizer que a robótica é melhor porque ela é mais rápida. A técnica recai sobre a questão de qualidade de precisão e os demais já mencionados.

    AN: quem poderá realizá-las?

    Pacientes particulares e com alguns convênios mais diferenciados que dão direto à internação. Isso porque, como não há um código para o procedimento robótico em si na ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar), o convênio não é obrigado a cobrir o serviço robótico. O que a gente consegue fazer, muitas vezes, é internar o paciente cujo convênio permita um procedimento laparoscópico tradicional solicitando tal procedimento, aí ele paga um adicional ao hospital para migrar para o procedimento robótico. Isso é completamente legítimo e uma prática usual. Há poucos serviços de robôs instalados na rede pública, mas não é a realidade de Santa Catarina. A maior parte dos robôs, na realidade brasileira, está instalada em serviços privados. A ideia é oferecer essa opção a todos os catarinenses. Além disso, penso que os próprios pacientes podem se inteirar mais do assunto para conhecer mais sobre a tecnologia. Eu ainda acho que tem uma barreira muito grande, há um medo. As pessoas têm medo e pensam "como é que um robô vai me operar?". Acho que isso tem que ficar muito bem claro: não é um robô que opera, é um cirurgião capacitado, treinado e que vai dar comandos ao robô que, por sua vez, vai replicar tudo o que o médico faria se estivesse em pé ao lado do paciente, e com precisão.

    AN: há algum risco?

    Em qualquer procedimento cirúrgico há um risco imputado, desde o momento em que o paciente está começando a ser anestesiado. Só que todos os procedimentos que, hoje, a gente executa, nós seguimos protocolos, padrões, seguimos um roteiro. Para o cirurgião operar com robô é preciso ter um número determinado de treinamento.

    AN: quais são os treinamentos?

    Hoje o processo está mais curto do que quando eu fiz, há dois anos. Ao todo, levei em torno de seis meses. É preciso passar por, aproximadamente, 25 horas de treinamento em um simulador. Após isso, realizar uma prova prática chamada In Service, na qual o cirurgião manuseia o robô. Nesse meio tempo, são realizadas provas online da própria fabricante do robô. Depois de cumprir esses procedimentos e ser aprovado, o profissional vai aos EUA para a certificação final, que dura um dia inteiro, com provas teóricas e práticas. A certificação no Brasil ainda está em fase de implantação. A partir desse momento você está apto a sentar no console e executar uma cirurgia.

    AN: como funcionam as questões de valores e burocracias para se ter o equipamento?

    O equipamento tem um custo alto. Um robô desses está em torno de 3 milhões de dólares, ou seja, 12 milhões de reais. Fora o custo das pinças que têm vida útil, manutenção por cirurgia, manutenção mensal. Uma máquina dessas precisa estar bem planejada, inserida dentro de um serviço e pronta pra trabalhar sete dias por semana.

    AN: como você avalia SC nesse quesito?

    Blumenau está de parabéns, é uma equipe grande e engajada que está envolvida. Na região Sul do país, apenas SC não possuía. Agora temos uma plataforma robótica, mas acho que temos de pensar lá na frente, pensar em outras plataformas robóticas. Há estados que estão à nossa frente, e nós estamos falando de uma região que é rica, como é SC. Podemos respirar um pouco mais aliviados porque estávamos angustiados com a falta do equipamento, mas temos que ir em busca de novos. Então chegou a Blumenau, que não é nem a capital do estado, e agora precisamos buscar mais para que fiquemos cada vez mais inseridos no cenário atual. Hoje, em São Paulo, se o paciente tem um bom plano de saúde ou condições para ter acesso a um serviço de excelência em grandes hospitais, eles já chegam ao hospital com esse conhecimento e pedem por esse procedimento. Já Joinville tem que abrir os olhos sim com isso. Nós somos a maior cidade do estado e a terceira maior do Sul do país. Então fica a reflexão: vamos crescer em termos de curiosidade, conhecer novas tecnologias médicas que são muito interessantes e não vão nos deixar mais.

    AN: quais são as expectativas futuras?

    Esse é um caminho absolutamente sem volta, isso já está bem claro. A literatura médica tem mostrado isso a cada ano, comparando as técnicas, mesmo que ainda estejamos em processo de produção de dados e de resultados, e alavancando as suas qualidades. O grande salto foi no número de plataformas robóticas foi nos últimos quatro anos, agora, a perspectiva para 2020 é ter de 90 a 100 robôs no brasil. Hoje, em território nacional, nós temos em torno de 50 robôs. Nos eua são 3 mil plataformas robóticas instaladas. Na realidade norte-americana, a laparoscopia tradicional está cada vez mais em desuso já que o acesso do paciente ao serviço que tem o robô é tão fácil que o paciente acaba sendo operado por essa técnica. Essa é uma tecnologia que vai se tornar cada vez mais comum. Arrisco a dizer que, daqui a dez anos, as pessoas não vão querer realizar procedimentos cirúrgicos que não sejam feitos com robôs. Só nos EUA, a adesão à técnica é de 94%.

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