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    Médicos prescreveram muito antibiótico no início da pandemia

    Nas últimas semanas, médicos, pesquisadores e especialistas em saúde pública tentam transformar a pandemia em um momento de aprendizado

    16/06/2020 - 17h28

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    Por The New York Times
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    *Por Andrew Jacobs

    Os pacientes desesperadamente doentes que inundaram o pronto-socorro do Centro Médico de Detroit em março e abril apresentavam os sintomas do coronavírus: febre alta e pulmões cheios de infecção, o que os deixava ofegantes.

    Com poucas opções de tratamento, os médicos recorreram a uma intervenção conhecida: antibióticos de amplo espectro, medicamentos frequentemente usados contra infecções bacterianas que não são imediatamente identificadas. Eles sabiam que os antibióticos não são eficazes contra vírus, mas estavam desesperados e temiam que os pacientes também pudessem ser vulneráveis a infecções bacterianas secundárias, que poderiam colocar sua vida em risco.

    "Durante o pico, nosso uso de antibióticos foi enorme. Em certo momento, tivemos medo de que acabasse", disse a dra. Teena Chopra, diretora de epidemiologia e administração de antibióticos do hospital, que estimou que mais de 80 por cento dos pacientes receberam medicamentos antimicrobianos.

    Chopra afirmou que os médicos, e outros em todo o país que liberalmente distribuíram antibióticos nas primeiras semanas da pandemia, logo perceberam seu erro: "Muitos médicos estavam dando antibióticos de maneira inadequada porque, honestamente, as escolhas eram limitadas."

    Agora que a leva inicial e aterrorizante de pacientes em cidades duramente atingidas diminuiu, os médicos em todos os Estados Unidos procuram tirar lições de seu uso excessivo de antibióticos, uma prática que pode estimular mutações nas bactérias, tornando-as resistentes às drogas que salvam vidas.

    Muitos pacientes gravemente doentes em respiradores desenvolveram infecções secundárias graves. Mas os temores generalizados de que as pessoas com coronavírus fossem especialmente suscetíveis a infecções resistentes a medicamentos – uma preocupação descrita pela primeira vez em estudos da China – parecem ter sido equivocados, de acordo com entrevistas com pesquisadores e com mais de uma dúzia de médicos que tratam pacientes com Covid-19.

    "O medo acabou sendo exagerado", observou o dr. Bruce Farber, chefe de doenças infecciosas da Northwell Health, que cuidou de milhares de pacientes com coronavírus em seus 23 hospitais em Nova York.

    Para muitos médicos, a pandemia não só fornece lições sobre o uso criterioso de antibióticos, mas também destaca outra ameaça global à saúde que vem acontecendo em câmera lenta: a crescente resistência antimicrobiana que ceifa anualmente 700 mil vidas, enquanto o arsenal mundial de antibióticos e medicamentos antifúngicos perde sua capacidade de derrotar patógenos perigosos.

    Nas últimas semanas, médicos, pesquisadores e especialistas em saúde pública tentam transformar a pandemia em um momento de aprendizado. Eles alertam que a mesma inação governamental que ajudou a promover a disseminação rápida e generalizada do coronavírus pode estimular uma epidemia ainda mais mortal de infecções resistentes a medicamentos, que, segundo a ONU, pode matar dez milhões de pessoas até 2050 caso medidas sérias não sejam tomadas.

    Sem novos antibióticos, procedimentos cirúrgicos de rotina, como reposições de joelho e cesarianas, podem acabar sendo incrivelmente perigosos, e a consequente crise de saúde poderia estimular uma crise econômica que rivalizaria com o colapso financeiro global de 2008, disse o relatório das Nações Unidas, divulgado no ano passado.

    "Se há algo que essa pandemia de Covid-19 ensinou ao mundo é que estar preparado é mais econômico em longo prazo. A resistência antimicrobiana é um problema que não podemos ignorar", declarou o dr. Jeffrey R. Strich, pesquisador do Centro Clínico do Instituto Nacional de Saúde e autor de um estudo publicado quinta-feira em "The Lancet Infectious Diseases" que busca quantificar a crescente necessidade de novos antibióticos para tratar infecções resistentes a medicamentos.

    O surgimento de novas drogas antimicrobianas diminuiu perigosamente. No último ano, três desenvolvedores de antibióticos americanos, que trabalhavam com medicamentos promissores, faliram, a maioria dos gigantes farmacêuticos do mundo abandonou o campo e muitas das startups de antibióticos restantes nos Estados Unidos enfrentam um futuro incerto.

    Essas realidades financeiras sombrias afastam os investidores num momento em que novas drogas antimicrobianas são urgentemente necessárias.

    "Tenho receio de que as pequenas empresas de biotecnologia restantes não estejam aqui no próximo ano. Quanto mais esperarmos, mais complicada ficará a situação e mais caro será resolvê-la", disse Greg Frank, diretor do Working to Fight AMR, um grupo de defesa financiado pela indústria farmacêutica.

    A crise, segundo muitos especialistas, exige uma intervenção vigorosa do governo. Em um relatório publicado em março, o Escritório de Responsabilidade do Governo (GAO, na sigla em inglês) documentou uma resposta federal fragmentada à resistência antimicrobiana e disse que o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês) foi prejudicado pela falta de dados básicos sobre infecções resistentes a medicamentos. Como exemplo, observou-se que o CDC rastreia menos de dois por cento do meio milhão de casos anuais de gonorreia resistente a medicamentos. Os dados nem sequer incluem casos que afetam mulheres.

    Além da melhoria da vigilância, o relatório recomendou incentivos financeiros para fabricantes de antibióticos, bem como apoio às empresas que desenvolvem testes diagnósticos que podem identificar rapidamente infecções e permitir que os médicos prescrevam a droga certa.

    "Basicamente, temos de melhorar; caso contrário, vamos nos ver diante de uma superbactéria que vai se comparar à crise representada pela Covid-19", afirmou o dr. Timothy M. Persons, cientista-chefe do GAO e principal autor do relatório.

    A legislação no Congresso que aborda o mercado de antibióticos não ganhou força nos últimos anos, mas especialistas em saúde pública esperam que a pandemia do coronavírus possa ajudar a quebrar o bloqueio político em Washington.

    "Isso não é uma questão política; não é um problema para republicanos ou democratas – é uma questão de segurança nacional", disse a dra. Helen Boucher, especialista em doenças infecciosas do Centro Médico Tufts, que é membro do Conselho Presidencial de Combate às Bactérias Resistentes a Antibióticos.

    Enquanto isso, médicos recém-saídos das trincheiras de cidades tomadas pelo coronavírus estão reavaliando seu uso excessivo de antibióticos durante a crise. O dr. Sudeb Dalai, especialista em doenças infecciosas do Hospital da Universidade Stanford, declarou que quase todos os pacientes de coronavírus que viu nesses primeiros meses haviam recebido antibióticos – alguns receitados por clínicas de urgência privadas, que os visitaram antes de os sintomas piorarem, o que acabou levando-os para o pronto-socorro.

    Essa opção não era totalmente infundada, dada a escassez de informações sobre a doença e de literatura médica sobre a síndrome respiratória aguda grave, a síndrome respiratória do Oriente Médio e a gripe espanhola de 1918-19 – doenças respiratórias virais cujas vítimas frequentemente sucumbiam durante as pandemias devido a infecções bacterianas oportunistas.

    Dalai se lembrou da recente sensação de desamparo, quando os médicos tentavam tratar as misteriosas pneumonias e febres. Um de seus primeiros pacientes com Covid-19 foi um idoso que mostrava sinais de melhora e estava pronto para receber alta quando veio uma piora repentina. Os médicos colocaram o homem em um ventilador pulmonar, mas a febre persistiu, levando Dalai a prescrever várias rodadas de antibióticos durante as cinco semanas em que o paciente permaneceu entubado.

    "Todas as noites eu ia para a cama imaginando se tinha tomado as decisões de tratamento certas, temendo que ele piorasse durante a noite, que não sobrevivesse até de manhã", contou ele.

    O paciente sobreviveu, mas Dalai percebeu que os antibióticos provavelmente pouco influíram em sua recuperação.

    Ainda assim, sem dados sólidos, alguns médicos e pesquisadores alertam que é muito cedo para descartar os perigos representados por coinfecções bacterianas e fúngicas, especialmente entre pacientes de coronavírus em estado grave, que podem passar semanas em unidades de terapia intensiva. Quando seu sistema imunológico está abalado, bactérias e fungos resistentes a medicamentos que florescem em tubos respiratórios hospitalares e cateteres podem se infiltrar no corpo e causar estragos.

    Chopra, do Centro Médico de Detroit, estimou que até um terço dos pacientes com coronavírus que morreram no hospital foram mortos por patógenos oportunistas como C. difficile, uma infecção que causa diarreia descontrolada e é cada vez mais resistente a antibióticos. Esse número, segundo ela, provavelmente foi aumentado pela má saúde subjacente de pacientes que também tinham diabetes ou hipertensão ou eram obesos.

    "Mesmo antes da chegada da Covid, nossa população em Detroit era muito vulnerável a infecções resistentes a medicamentos", disse Chopra, professora de doenças infecciosas da Universidade Estadual Wayne.

    Em Ann Arbor, no Michigan, a dra. Valerie Vaughn, que estuda o uso de antibióticos em pacientes com coronavírus, vem tentando entender os acontecimentos dos últimos meses e divulgar as melhores estratégias de tratamento mediante palestras on-line. Em uma revisão de mais de mil casos de coronavírus em todo o estado, ela descobriu que apenas quatro por cento dos pacientes internados no hospital tinham uma coinfecção bacteriana. A maioria deles recebeu antibióticos logo após a chegada.

    "O que a pandemia nos mostrou é que, mesmo quando os médicos sabem que os pacientes têm uma infecção viral, ainda assim receitam antibióticos. É difícil porque os médicos querem ajudar os pacientes, mesmo quando não é a coisa certa a fazer", observou ela.

    Mas, além de apenas alterar os hábitos de prescrição dos médicos, Vaughn afirmou esperar que a atual crise de saúde impeça que líderes políticos e formuladores de políticas ignorem a necessidade de uma vigilância melhorada e ações coordenadas para resolver a questão do mercado de novos antibióticos. "Estamos nos movendo mais devagar do que deveríamos, mas esperamos que a pandemia alerte as pessoas e as faça se mover mais rápido", disse ela.

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