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Melzinho do amor: como a substância ilegal virou febre mesmo sem aprovação da Anvisa

Mistura de mel, caviar e canela pode ser encontrada em sites e custa em média R$ 35 com a promessa de aumento na potência sexual

17/06/2021 - 09h23 - Atualizada em: 18/06/2021 - 06h10

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Catarina
Por Catarina Duarte
Por Marina Dalcastagne
Procura pelo Melzinho do Amor teve alta nos últimos três meses
Procura pelo Melzinho do Amor teve alta nos últimos três meses
(Foto: )

Depois de passar a febre do Viagra, que mudou a vida sexual de milhares de pessoas mais de vinte anos atrás, agora o que está fazendo a cabeça e está em alta é o chamado Melzinho do Amor. Considerado uma febre entre os jovens e definido como um estimulante sexual, o produto é anunciado como 100% natural, promete “milagres” após o consumo e está na mira da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

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Nos três últimos meses, as buscas pelo termo “Melzinho do Amor” no Google tiveram uma alta repentina. O termo teve seu auge na época da morte de Mc Kevin, que afirmou ja ter usado a substância. Cidades como Camboriú, São José, Lages, Itapema e Itajaí lideram as pesquisas na internet relacionando o melzinho a termos como prazer e efeito colateral. Mas o que os que buscam delírios sexuais na pandemia nem imaginam é que o efeito prometido pode não acontecer.

Em maio, a Anvisa chegou a emitir uma determinação proibindo a comercialização de duas marcas e atualmente elabora um dossiê com a investigação sobre os componentes do produto.

O que se sabe até agora 

Os anúncios do Melzinho do Amor estão espalhados pela internet em sites populares de entrega e nas redes sociais. Além da descrição, eles fazem recomendações sobre a forma de consumo.

Buscas pelo termo 'Melzinho' no Gooogle
Buscas pelo termo 'Melzinho' no Gooogle
(Foto: )

Os vendedores descrevem que a composição seria simples. Mel, caviar e canela dariam forma a substância gelatinosa que, segundo os próprios anunciantes, deve ser consumida via oral acompanhada por grande quantidade de água. 

A propaganda promete efeitos similares aos de um medicamento conhecido, que é usado para disfunção erétil: o Viagra. Porém, o remédio descoberto há 22 anos é considerado seguro e eficaz para a finalidade prometida. Viagra é o nome comercial dado à substância sildenafil. 

O medicamento foi descoberto quando pesquisadores faziam testes clínicos com um remédio para tratar problemas no coração. Um de seus efeitos colaterais foi o aumento na irrigação sanguínea no pênis, o que causa ereção. 

Diferente do Melzinho, ele tem aprovação da Anvisa para a venda e consumo. Desde 2018 no Reino Unido é possível comprar o medicamento sem prescrição médica. No Brasil é necessário apresentar o documento.

A bula do medicamento contraindica o uso para mulheres e menores de 18 anos. Pessoas que façam uso de remédios que contenham ácido nitroso também não devem consumir o produto.

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Já no Melzinho, as contraindicações variam de acordo com os vendedores. Contudo, é comum a recomendação para que grávidas, doentes renais e crianças não consumam. 

— Até onde eu sei não existe remédio natural para disfunção erétil. O que existe é o que todo mundo conhece que é o Viagra — explica a professora e pesquisadora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Maique Biavatti. 

Membro do Grupo de Estudo de Produtos Naturais e Sintéticos da UFSC, Maique explica que não há comprovação científica de que a mistura de canela, mel e caviar é capaz de causar o mesmo efeito do Viagra.

Ela alerta que produtos como o Melzinho do Amor podem conter o sildenafil e que o risco é maior porque as quantidades são desconhecidas. A bula do Viagra orienta que o consumo máximo seja de um comprimido por dia. No caso do Melzinho, não há esse tipo de orientação por quem vende.

— É um risco fazer uma mistureba de coisas nada a ver, com apelo natureba, e colocar junto essa substância [sildenafil]. O que é extremamente perigoso nesse caso específico porque existem muitos casos de senhores de idade que usaram [o Viagra] e acabaram tendo problemas de infarto, pois ele tem um efeito secundário no sistema cardiovascular — afirma. 

Kevin trouxe o assunto para os trends topics

O assunto ganhou os trends na busca do Google e mostrou a sua popularidade em alta em maio deste ano. A data coincide com a morte do MC Kevin. O funkeiro, que faleceu aos 23 anos, já tinha admitido em entrevista o uso do suposto estimulante sexual.

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O Melzinho é tema de funk, como na música “Gordinho Bololô”, do MC Ryan. Lançada no dia 12 de março, a canção já soma mais de 2 milhões de visualizações no Youtube. Ela cita o produto em trecho do refrão: “Lá só tem chefuxo preparado pro caô, bem trajado e com melzinho”. 

Outras músicas levam o Melzinho no título e fazem referência ao efeito sexual prometido pelo produto. “To chapado na onda do Melzinho do Amor”, diz o trecho de um funk lançado em abril deste ano. 

O que falta descobrir

Em nota, a Anvisa afirmou que ainda não sabe dizer qual é a composição do Melzinho. Mesmo com os anúncios afirmando que se trata de um produto natural, ele não se enquadra como alimento registrado ou isento de registro.

O órgão diz ainda que alimentos não podem ser publicizados como indicados para aumento da libido. Como promete resultados com fins terapêuticos, ele necessita de uma regulamentação como medicamento. O que não aconteceu.

No dia 25 de maio, a Anvisa deu início a um dossiê para avaliar se o produto é regular e está de acordo com a legislação sanitária vigente. Segundo o órgão não há um prazo para a conclusão do trabalho.

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Em paralelo ao dossiê, duas resoluções foram publicadas pelo órgão no Diário Oficial. No dia 27 de maio aconteceu a proibição da produção, comercialização, publicidade e compra do Melzinho da marca Vital Honey. Já no dia 7 de junho, a marca Power Honey sofreu a mesma sanção.

As duas têm CNPJ desconhecido pela Anvisa. No caso da Vital Honey as embalagens têm os rótulos escritos em árabe. Já a Power Honey tem os produtos em inglês.

Quais os riscos do Melzinho

A Diretora da Vigilância Sanitária de Santa Catarina, Lucélia Scaramussa Ribas Kryckyj, pede que as pessoas não consumam o Melzinho:

— Desconhecemos toda a sua composição e também os fabricantes desses produtos são totalmente desconhecidos o que dificulta e muito a fiscalização.Orientamos que não se consuma nenhum produto com qualquer tipo de indicação sem que o mesmo não tenha registro.

A professora Maique Biavatti faz o alerta de que até mesmo substâncias naturais podem causar efeitos colaterais.

— Existe muito mito de que o natural não faz mal e não é bem assim — diz.

No caso do Melzinho, produto que tem composição desconhecida, Maique fala que os resultados após o uso podem estar associados a um efeito placebo.

— A pessoa às vezes tem alguma coisa sexualmente mal resolvida ou alguma baixa autoestima e oferecem pra ela essa mistura de coisas nada a ver. O caviar e canela mais que lembram a virilidade, a potência.Ela já vai esperar que aquele efeito vai ser causado nela, né? O placebo é isso, é a expectativa da cura, que é muito comum no ser humano — pontua. 

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