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    Mercado de ações sofre com o trabalho a distância 

    O surto do coronavírus virou do avesso os planos de continuidade criados por muitas empresas de Wall Street depois dos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001

    28/04/2020 - 12h48

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    Por The New York Times
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    *Por Matt Phillips, Emily Flitter e Kate Kelly

    Usar apenas duas telas, em vez de quatro; internet mais lenta; telefones celulares simples e velhos – e muitas ligações perdidas –, em vez de aparelhos cheios de botões que facilitam as ligações; mensagens instantâneas e videoconferências, em vez de conversas rápidas no corredor da empresa.

    Desde que a pandemia do coronavírus forçou milhares de traders, representantes comerciais, analistas, bancários e gestores de risco a sair do escritório e ficar em casa, os soldados do mundo das finanças foram obrigados a lidar com tecnologias muito mais comuns do que aquelas a que estavam habituados.

    As inconveniências pessoais são relativamente pequenas – um trader deixou de ter acesso a um teclado especial da Bloomberg, outro teve dificuldades para se acostumar com a caixa de bate-papo do lado esquerdo da tela –, mas, em conjunto, essas mudanças tiveram um impacto perceptível no funcionamento dos mercados, de acordo com traders, investidores e reguladores. À medida que boa parte do mundo das finanças se ajustava ao teletrabalho, houve uma queda significativa na velocidade do mercado de ações global, já que comunicar as decisões tem demorado mais. Isso, por sua vez, vem aumentando ainda mais a fricção em mercados que já eram voláteis.

    "Quando as pessoas estão em um novo ambiente, usando novos sistemas em um mercado cada vez mais volátil, as coisas acabam ficando mais lentas", afirmou Michael O'Brien, diretor de trading global da empresa de gestão de investimentos Eaton Vance, com sede em Boston.

    Naturalmente, boa parte das dificuldades atuais dos mercados financeiros tem relação com os temores em torno dos resultados econômicos da pandemia, à medida que pessoas do mundo inteiro fazem quarentena em casa. Mas a saída recente de muitos traders de suas empresas em Wall Street para uma colcha de retalhos de home offices e outros endereços emergenciais trouxe uma confusão para a qual poucas empresas estavam preparadas. Nos EUA, muitos traders enfrentam o mesmo desafio.

    Mehmet Kinak, diretor global de trading sistemático da T. Rowe Price, uma empresa de gestão de ativos, costumava dividir o espaço com um grupo de mais de dez traders no sétimo andar da sede de sua empresa em Baltimore, Maryland. Por trás do mar de telas – os traders costumam trabalhar em frente a três ou quatro monitores –, era possível enxergar o Aquário Nacional e o Campo de Camden, sede da equipe de baseball Orioles.

    Agora, Kinak trabalha em seu home office – uma pequena sala no porão de sua casa em Elk Ridge, Maryland. Em vez do som constante de vozes, seu grupo agora se conecta por meio de aplicativos de bate-papo, como o Webex e o Symphony. Ele também notou uma ligeira queda no ritmo de negociações entre seus parceiros de Wall Street, o que atribui a uma combinação de mudanças repentinas nos mercados e à transição para o teletrabalho.

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    "Demora só um pouco mais, mas na somatória geral o impacto é grande", disse Kinak.

    O sistema financeiro global é extremamente complexo, composto por milhares de empresas – bancos, fundos hedge, gerentes de ativos e especialistas em trading – que compram e vendem trilhões de dólares em ativos como ações, títulos e moedas para si próprios e para seus clientes. Para fazer isso, as empresas investem pesado em tecnologias e contam com equipamentos criados para simplificar a comunicação entre as mesas de operação, os analistas e os clientes. Milissegundos podem fazer a diferença nesse ambiente, pois os preços mudam de forma muito rápida.

    Parte dessa atividade é tão importante que o presidente Donald Trump declarou em março que os bancários são trabalhadores "essenciais" para o funcionamento da economia norte-americana, liberando-os da obrigação de fazer quarentena ou de deixar de trabalhar. Alguns funcionários de Wall Street continuam indo ao escritório – especialmente os que trabalham nos pregões, onde as atividades são extremamente reguladas, padronizadas e difíceis de reproduzir em casa.

    Troy Rohrbaugh, diretor de mercados globais da JPMorgan Chase, se lembrou de um dia, em meados de março, em que o mercado estava variando drasticamente e um cliente importante precisava vender uma grande quantidade de títulos. Rohrbaugh, que estava em seu escritório na sede do banco, desceu até o pregão para conversar com alguns traders e um vendedor.

    "Tínhamos resolvido tudo e já tínhamos um preço para nosso cliente em dois ou três minutos. Dá para imaginar a mesma conversa durando mais de 30 minutos em mercados tão rápidos quanto os de agora?", observou. Ele continua a trabalhar no escritório, embora a empresa tenha registrado um surto recente de Covid-19.

    Outra empresa, a Citadel Securities, que reúne compradores e vendedores em Chicago, reservou um hotel inteiro – o luxuoso resort Four Seasons, em Palm Beach, na Flórida – e criou um pregão improvisado para poder continuar funcionando.

    Porém a maior parte das empresas do setor financeiro estabeleceu políticas rígidas para o teletrabalho. Os traders afirmam que o impacto da transição foi especialmente grande em mercados pouco transparentes, como o de títulos corporativos. Ao contrário dos mercados de ação, em que as transações oferecem valores em tempo real para que os traders tomem decisões, os preços em mercados de títulos frequentemente são negociados durante cada transação.

    Em uma mesa de operações, os traders de títulos podem encontrar informações sobre preços, discutir com intermediários e clientes, e conversar com analistas e representantes de venda que trabalham a poucos metros ou ao toque de um botão. Por outro lado, trabalhar em casa exige a realização de telefonemas e o uso de aplicativos de bate-papo, que demoram mais, enquanto os mercados continuam a fazer transações e os preços continuam a flutuar antes que as partes cheguem a um acordo.

    "Os pregões foram projetados para ser eficazes e permitir a troca eficiente de informações. Realizar esse tipo de transação sem sair de casa é como ser técnico de um time de futebol por meio de mensagens de texto. Não funciona direito. Todas as informações podem ser transmitidas, mas não na velocidade e no ritmo necessários", explicou Joshua Younger, analista de mercado de títulos da JPMorgan.

    Autoridades do governo que monitoram o funcionamento do mercado e os traders e investidores que dependem disso destacam que conexões mais lentas criam atrasos que geram ambiguidades. Às vezes, é difícil saber que um pedido de compra ou de venda está sendo processado em dado momento.

    Os traders geralmente ficam diante de três ou quatro telas, que usam para monitorar as mudanças de preços, as comunicações com parceiros e as fontes de dados do mercado. Mas em casa eles geralmente trabalham com um laptop e um monitor, o que exige mais cliques para identificar o desenvolvimento de um título ou para saber qual é o volume diário de transações de determinada ação.

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    O telefone é mais um problema. Os traders geralmente usam um telefone especial que conta com teclas pré-programadas para falar com clientes e parceiros comerciais importantes. Embora existam soluções eletrônicas que permitem que os traders repliquem esses aparelhos em casa, muitos preferem simplesmente procurar o número em uma lista e usar os celulares normais para conversar –, o que representa outro atraso pequeno, mas significativo, no processo de comunicação.

    O surto do coronavírus virou do avesso os planos de continuidade criados por muitas empresas de Wall Street depois dos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001. Esses planos foram criados, em grande medida, em torno da ideia de que, caso as negociações fossem interrompidas na sede do banco, grupos de traders poderiam criar pregões via satélite longe de qualquer desastre que porventura afetasse Nova York. Mas esses planos se revelaram rapidamente inviáveis, devido ao perigo que o coronavírus representa para praticamente qualquer setor que exija que as pessoas trabalhem perto umas das outras.

    "Não havíamos nos planejado para esse tipo de desastre", disse Daniel Beunza, professor de administração na City University, em Londres, que estudou e publicou recentemente um livro sobre a cultura dos pregões bancários.

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