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Pedacinho do céu

Mesmo após incêndio em seu restaurante, no sul da Ilha, dona Zenaide não se abala 

Conheça a história da folclórica senhora que também é cozinheira, garçonete, cantora, compositora e que mobiliza a comunidade do Pântano do Sul para reconstruir o estabelecimento

17/01/2017 - 15h10 - Atualizada em: 21/06/2019 - 23h08

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Por Redação NSC

O tradicional quepe de almirante que identifica a dona Zenaide de Souza já não é mais como antes. O chapéu naval também foi queimado durante o incêndio que destruiu o restaurante Pedacinho do Céu, no Pântano do Sul, em Florianópolis, na madrugada desta segunda-feira. A senhora de 72 anos tocava o estabelecimento desde 1988 na beira da praia do extremo sul da Ilha.

— Ela não teve coragem de ir ver o que sobrou do restaurante desde que houve o incêndio — revela o irmão mais novo de dona Zenaide, Aldemir da Lapa, de 69 anos, enquanto prepara a rede ao lado do barco na beira da praia.

Mas dentro de casa, a Capitã, como é conhecida, recebe com muita alegria a reportagem e todos os amigos que vêm prestar solidariedade. Até coloca o quepe queimado para tirar fotos.

Mesmo após incêndio em seu restaurante, no sul da Ilha, dona Zenaide não se abala

— No meu tempo de criança, pra ver um lance de peixe era muito raro. A mulher menstruada não podia ver, mulher grávida também não. Só depois de secar o cardume. Foi difícil entrar no meio — lembra.

A história do Pedacinho do Céu é também uma luta contra a pobreza e o machismo. Ela se divorciou numa época em que isso ainda era tabu e criou sozinha oito filhos. Resolveu fazer um quiosque na praia para tirar o sustento e dar condições das crianças estudarem. Muita gente no bairro alertou que era ilegal abrir o bar na areia. Mesmo assim, ela insistiu.

— Quando o quiosque estava pronto, a prefeitura mandou desmanchar. Eu cheguei lá e estava tudo no chão. Mas aí me disseram que o prefeito ligou aqui para o único orelhão que tinha no Pântano e queria falar comigo. Chegando lá eu disse que tinha tanta coisa ilegal na nossa Ilha e expliquei que abri o quiosque para sustentar meus filhos. Aí o prefeito mandou levantar o quiosque de novo e foi quando eu comecei a história — lembra com orgulho a matriarca que já tem seis filhos formados na universidade, uma que se forma ano que vem, e que é avó de 11 netos.

O quiosque ficou pequeno e virou um grande restaurante de madeira, com área interna e deck. A decoração tinha motivos em alusão ao mar, à cultura açoriana e à Marinha. Lá, tudo era resolvido pela Capitã, que chefiava 20 funcionários, fora os membros da família Souza que também tocam o negócio. Tinha dia que trabalhava no balcão, na cozinha, de garçonete e, claro, como contadora de histórias. Até ajudava na pesca dos peixes que depois iriam para a mesa do restaurante. O prato mais famoso do cardápio é a tainha no feijão, criado pela própria dona Zenaide. Mas nem só pra comer as pessoas iam no Pedacinho do Céu. Lá já foram realizados muitos aniversários, casamentos e até batizados.

— Esse trabalho me dá vida. Quanto mais eu trabalho, mais feliz eu estou. Não importa se eu não faturei. Importa que eu te dei atenção, que eu cantei, que eu brinquei — destaca.

Quando a reportagem da Hora de SC foi gravar o vídeo, ela colocou sozinha e com muita intimidade o microfone de lapela. Isso porque dona Zenaide está acostumada: já foi entrevistada pela televisão, para um documentários sobre a vida na Ilha e outro sobre a caça da baleia em Santa Catarina. Também é única personagem de Florianópolis no Museu da Pessoa.

A noite do incêndio

(Foto: )

A matriarca lembra da noite antes das chamas consumirem o Pedacinho do Céu. Estava quente. E o bar, lotado.

— Aquela noite foi tão linda, cheia cadeiras na praia, já era uma hora de manhã. Eu pensei "que tanta felicidade. Obrigada por tudo, Deus". E quando tu tá chegando no auge, parece que a escada vem abaixo. Chegou 4h e foi aquela gritaria. Me acordaram dizendo que o bar estava pegando fogo. Eu estou triste, mas tem pessoas que dependem de mim, então eu não posso me entregar. Nós não perdemos vidas, foram só bens materiais — pondera.

O filho Daniel de Souza acredita que o incêndio foi causado por um freezer que não funcionava direito e pode ter superaquecido. O prejuízo estimado por ele passa dos R$ 150 mil.

Chá de bar, festival de música e vaquinha na internet

A comunidade está mobilizada para arrecadar os recursos necessários à reconstrução do restaurante. Na internet, uma vaquinha foi criada para colaboração coletiva. Também será feito uma espécie de chá de bar, para doação de peças e equipamentos de restaurante. E alguns músicos estão organizando um festival, ainda sem data marcada, para acontecer no salão paroquial do Pântano do Sul. Um dos artistas que está à frente dessa ideia é o baixista da banda banda de rock Esporão de Bagre, Tiago Alves, de 31 anos:

— Nós vamos nos reunir essa semana para convidar artistas, músicos e pintores que queiram fazer esse evento para arrecadar fundos exclusivos para a reconstrução do Pedacinho do Céu. Entendemos que ele é um patrimônio da cidade, e a dona Zenaide representa a Florianópolis das rendeiras e dos pescadores, lutou muito por aquele espaço e também é uma artista.

Rap da Tainha

Vou pedir aos surfistas

Com toda consideração

Chegando mês de maio e junho

Eles não surfam, não

É a pesca da tainha

Pesca de tradição

Os vigias vão pra duna

Pra ver o caldeirão

E começa a abanar

A canoa faz cercar

E vamos puxar a rede

Só levanta essa cortiça

Que é pro peixe não pular

O peixe chega na praia

Vai fazer a divisão

Tainha pro remeiro

Tainha pro vigia

Tainha pro patrão

E depois, o que sobra

Vamos fazer um quinhão

Cada um leva pra casa

Pra comer tainha assada

Tainha frita, tainha no feijão

E depois, pra terminar

Vão tomar nossa iguaria

A cachaça do sertão

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