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INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL 

Mesmo invisível, inteligência artificial já é realidade nos aeroportos

Algumas das novas tecnologias têm o objetivo de diminuir as dificuldades linguísticas

10/03/2020 - 11h28

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Por The New York Times
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(Foto: )

*Por Julie Weed

Cercados por vizinhos, por rodovias ou pelo mar, os aeroportos já enfrentam dificuldades para lidar com o número crescente de passageiros. E esse número deve continuar crescendo – para mais de sete bilhões de pessoas em todo o mundo até 2035, de acordo com uma associação de companhias aéreas, um aumento de mais de cem por cento em relação a 2016.

Por isso, enquanto alguns aeroportos se esforçam para crescer até onde podem, governos e companhias aéreas dependem cada vez mais da tecnologia, especialmente da inteligência artificial, para processar mais viajantes em menos tempo. Os aeroportos de Osaka, no Japão, e de Abu Dhabi testaram quiosques autônomos que se movem livremente para ajudar nas horas de pico.

O Aeroporto Internacional de Seattle-Tacoma e o Aeroporto Internacional de Miami estão entre os que usam sensores visuais para monitorar o tamanho das filas de passageiros e a velocidade do fluxo nas checagens de segurança. Os gestores podem usar a informação para trazer mais funcionários sempre que necessário e para enviar os passageiros para filas mais curtas. Os passageiros podem ver, em placas e aplicativos para celulares, quanto tempo terão de esperar. O objetivo é acalmar os passageiros que temem perder o voo.

Para voos internacionais, mais companhias estão instalando portões de autoembarque, que utilizam um guichê fotográfico para comparar a foto do passageiro com a imagem no passaporte e outras fotos nos arquivos oficiais. Os portões, que usam tecnologia de reconhecimento facial, substituem agentes que checam cartões de embarque e documentos.

Sete por cento das companhias aéreas instalaram alguns portões de autoembarque, e cerca de um terço das empresas planejam usar esse tipo de portão até o fim de 2022, de acordo com a SITA, uma empresa de tecnologia que opera em 450 aeroportos. Sherry Stein, diretora de estratégias de tecnologia da SITA, afirmou que os objetivos são reduzir a confusão para os passageiros, aumentar a velocidade do embarque e melhorar a segurança.

Ainda assim, o uso das fotos gera preocupações em relação à privacidade dos passageiros. O público não recebe muitas informações sobre como as fotos serão usadas e armazenadas, afirmou Oren Etzioni, executivo-chefe do Instituto Allen de Inteligência Artificial, em Seattle.

Uma tecnologia similar à usada em portões de autoembarque tem sido aplicada para alguns passageiros estrangeiros que chegam aos EUA. O Aeroporto Internacional de Miami, por exemplo, começou a usar ferramentas de reconhecimento facial na área destinada ao desembarque de passageiros estrangeiros em 2018 e afirma que identifica até dez passageiros por minuto por meio da tecnologia.

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Os viajantes que já estiveram anteriormente nos EUA entram em estações de reconhecimento facial e um funcionário da alfândega confere os passaportes para se assegurar de sua validade. Os visitantes de primeira ainda precisam apresentar um passaporte ou visto, além de registrar as impressões digitais e tirar uma foto.

Algumas das novas tecnologias têm o objetivo de diminuir as dificuldades linguísticas. O Aeroporto Internacional Kennedy, em Nova York, instalou recentemente três aparelhos da Google que usam inteligência artificial para fazer tradução em tempo real nos guichês de informação espalhados pelo aeroporto. Os passageiros podem escolher um idioma em uma tela instalada no balcão e fazer as perguntas em voz alta para o aparelho, que repete as questões em inglês para o funcionário. A pessoa responde em inglês e o aparelho repete tudo na língua do viajante.

A inteligência artificial também está sendo usada nos bastidores, para reduzir o tempo que as aeronaves ficam no portão entre um voo e outro, o que representa um tempo de espera menor para passageiros que já embarcaram e estão prontos para partir.

Os aeroportos de Londres-Gatwick, Quebec City e Cincinnati/Kentucky do Norte são alguns dos cerca de 30 aeroportos no mundo todo que instalaram ou estão testando um sistema criado pela empresa suíça Assaia, que usa inteligência artificial e câmeras apontadas para um avião parado no portão com o objetivo de registrar tudo o que acontece após o pouso: quanto tempo demora para os caminhões de abastecimento e serviço chegarem, se os compartimentos de carga estão abertos e até mesmo se os funcionários estão usando os equipamentos de segurança.

Embora os seres humanos possam fazer todas essas tarefas, o monitoramento e a análise das operações dessas várias funções podem acelerar a entrada e a saída de aviões e evitar acidentes, de acordo com a Assaia. Depois que um mesmo avião é filmado fazendo centenas de chegadas e partidas no mesmo aeroporto, o sistema de inteligência artificial aprende a identificar os elementos ou situações que mais causam atrasos, e os gerentes podem fazer as ações corretivas necessárias. Acidentes como ferimentos de funcionários ou colisões de veículos de serviço também podem ser analisados para determinar as causas.

O tempo que uma aeronave passa esperando por uma vaga em um portão depois de pousar, ou que passa na fila esperando para decolar, também pode ser reduzido. Um grupo da SITA dedicado à criação de sistemas de gestão para aeroportos está ajudando a projetar uma tecnologia capaz de reunir dados de muitas fontes diferentes, incluindo mudanças na previsão de chegada das aeronaves, condições climáticas nos aeroportos de destino e questões logísticas para melhorar a distribuição dos portões e o cronograma de uso da pista.

Softwares de inteligência artificial também podem fazer a diferença com os algoritmos de reagendamento, afirmou Etzioni. Quando problemas climáticos ou mecânicos atrapalham a viagem, é muito importante que as companhias aéreas consigam recalcular a rota e reagendar a viagem rapidamente, afirmou.

Os fluxos de dados se tornam ainda mais complexos quando levamos em conta o aeroporto como um todo, afirmou Stein, da SITA. Diversos aeroportos estão criando um "gêmeo digital" de suas operações – usando uma central com telas que mostram todos os sistemas, pessoas e objetos que estão no aeroporto, incluindo a localização das aeronaves e a atividade nos portões de embarque e desembarque, o tamanho das filas, os sistemas de aquecimento, ar-condicionado e eletricidade – monitorado por funcionários que podem enviar ajuda sempre que necessário. Esses sistemas digitais também podem ser usados para ajudar no planejamento de emergência.

Os mesmos tipos de sensores que podem ser usados para fornecer dados aos gêmeos digitais também servem para reduzir avarias nos equipamentos. Karen Panetta, pró-reitora de pós-graduação em engenharia da Universidade Tufts e membro do Instituto de Engenharia Elétrica e Eletrônica, afirmou que os aparelhos de análise térmica usados antes da decolagem e depois do pouso podem alertar as equipes de manutenção se alguma área dentro do motor do avião ou de seus sistemas elétricos estiver mais quente que o normal, indicando que algo pode estar errado. O alerta ajudaria as equipes a agendar a manutenção rapidamente, em vez de tirar a aeronave de serviço em um momento inesperado.

Neste momento, são pessoas, e não a tecnologia, que avaliam a maior parte dos dados coletados, disse Panetta. Porém, com o passar do tempo e o acúmulo e compartilhamento de dados, mais sistemas de inteligência artificial poderão ser criados e treinados para analisar dados e recomendar ações de forma mais rápida e econômica, afirmou.

O setor de transporte aéreo não é o único que começa a usar inteligência artificial para diminuir as falhas nos equipamentos. No setor de transporte marítimo, a ioCurrents, uma empresa com sede em Seattle, monitora digitalmente motores, geradores, manômetros, guinchos e uma variedade de outros sistemas mecânicos a bordo de navios de transporte. Os dados são transmitidos em tempo real para uma plataforma on-line de inteligência artificial, que emite alertas aos trabalhadores dos navios e em terra firme sobre possíveis problemas mecânicos.

Sistemas de inteligência como esses se tornarão cada vez mais importantes, à medida que o volume de passageiros aumenta, afirmou Stein. "Existe um limite para quanto os aeroportos podem crescer e quantas pessoas podem contratar."

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