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Dialeto bicentenário

Moradores de Biguaçu e Antônio Carlos conservam idioma trazido por alemães

O hunsrückisch chegou ao Brasil há mais de 200 anos e se mistura com o português

16/08/2013 - 08h38 - Atualizada em: 23/08/2013 - 05h21

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Por Redação NSC
"O idioma é uma lembrança de meus pais, e eu quero manter essas origens. Não sou menos brasileiro por isso"
"O idioma é uma lembrança de meus pais, e eu quero manter essas origens. Não sou menos brasileiro por isso"
(Foto: )

"Meina nama es Leonidio Zimmermann Deutch apchtamung. Ech honn elaf kena un dofon secks schvetsa Deutch". O bilhete escrito à mão pelo senhor Leonídio Zimmermann, morador de Biguaçu de 84 anos, demonstra as rápidas transformações que ele observa ao seu redor e tanto se esforça para frear: "Meu nome é Leonidio Zimmermann, de origem Alemã. Tenho onze filhos, dos quais seis ainda falam o alemão hunsrick".

Uma pessoa natural de Berlim que encontrasse o bilhete ficaria confusa. Algumas palavras seriam conhecidas, outras lembrariam o dialeto falado até hoje na região do Hunsrück, no sul da Alemanha. Já termos como secks ("seis") e kina ("criança" ou "filho") não seriam encontrados em dicionários alemães ou brasileiros.

Zimmermann não fala em nenhum dos idiomas, mas sim numa mistura deles: a vertente abrasileirada do hunsrückisch, dialeto vindo da Alemanha há 200 anos junto com a imigração germânica e até hoje falado em regiões de SC, RS, PR e ES. Não há registro de quantas pessoas falem o idioma, mas as estimativas vão de 500 mil a duas milhões.

O dialeto é agráfo, ou seja, não existe uma forma padronizada de escrevê-lo. Fluente no alemão oficial, Zimmermann prefere usar a gramática mais parecida com a língua originária. Na versão brasileira, que retrata a forma como se fala nas colônias germânicas, os "j" viram "i", os "oü" viram "ei" e os fonemas se misturam. A pedidos da reportagem, o agricultor escreveu o bilhete nos dois formatos: o hunsrückisch original e o brasileiro.

O dialeto se diferencia dos demais devido à incorporação de fonemas e expressões de outras línguas como o italiano, o português e o pommersch (ou pomerano, ramo do alemão bastante falado na região do Vale do Itajaí). Zimmermann ressalta que, durante o Estado Novo, o presidente Getúlio Vargas tentou fortalecer o nacionalismo proibindo outros idiomas - principalmente o alemão, o japonês e o italiano, inimigos do Brasil na Segunda Guerra Mundial. A mistura aconteceu naturalmente.

- Os descendentes ficaram com medo e vergonha, porque a polícia entrava nas casas e levava ou destruía tudo que fosse alemão. Muitos passaram a falar o português nessa época. Quem para de falar até consegue retomar, mas teve gente que não voltou a ensinar a língua para os filhos depois dessa época - relembra Zimmermann.

Jornalista lança livro sobre dialeto na França

Como explica o jornalista Ozias Alves Júnior, várias expressões são compreensíveis para não falantes do idioma, enquanto algumas não se sabe mais se veio do português, do alemão ou de outra língua. Alves é autor do livro Parlons Hunsrückisch ("Vamos falar hunsrückisch"), lançado na França no mês passado dentro de uma coleção que trata de idiomas minoritários ou em fase de extinção.

-Tenho outro texto com mais de 600 páginas escrito em português sobre o hunsrückisch, com um material mais completo, mas ele está parado na gaveta. Há muita dificuldade em se publicar no Brasil, onde a revisão e a impressão ficam a cargo do próprio escritor.

Segundo idioma

Em 2010, a cidade de Antônio Carlos se tornou a primeira do País a transformar o hunsrückisch em idioma co-oficial, ao lado do português. Santa Maria do Herval, no nordeste do RS, foi a segunda. Como não existe uma escrita padronizada, o projeto empacou num de seus principais objetivos, que era manter o idioma vivo através do ensino nas escolas básicas.

A informalidade do idioma continua tão grande que nem sequer há um consenso sobre o próprio nome dele: hunsrückisch, hunsrickisch, e até o abrasileirado hunsrik, proposto pela linguista alemã Ursula Wiesemann como forma de facilitar a assimilação. Pode-se ainda usar o termo riograndense hunsrückisch para se diferenciar o dialeto falado no Brasil daquele da Alemanha. O projeto de lei de Antônio Carlos cita apenas o hunsrückisch, com uma grafia idêntica ao original.

O secretário de Educação e Cultura de Antônio Carlos, Altamiro Kretzer, ainda era vereador quando promoveu a iniciativa. Segundo Kretzer, um censo linguístico está sendo pensado e o próximo passo deve ser a troca das placas de trânsito por sinalizações bilíngues. O ensino nas escolas, entretanto, tem se transformado num complicado quebra-cabeça.

- Como esta é uma língua não escrita, precisamos antes definir uma gramática, juntar os pedaços que estão espalhados pela região sem nenhum registro - explica Kretzer.

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