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Mulheres de SC espalham a cultura do churrasco no universo feminino

Com o coletivo As Braseiras, elas rodam pelo país com palestras e workshops

24/06/2017 - 01h00

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Por Redação NSC
Elisabeth Schreiner e Sandra Carvalho representam o Estado no coletivo As Braseiras
Elisabeth Schreiner e Sandra Carvalho representam o Estado no coletivo As Braseiras
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A médica veterinária Elisabeth Schreiner é uma apaixonada pelo universo das carnes. Moradora de Florianópolis, ela faz parte de um coletivo feminino que vem movimentando este mercado, As Braseiras. Mas a ideia de trabalhar com o produto começou há muito tempo.

Desde a infância, em Santa Cruz do Sul (RS), ela alimentava o desejo de cursar medicina veterinária. Representante da quinta geração de uma família de alemães imigrantes que até então havia se dedicado à indústria metalúrgica, ela virou – com o perdão do contexto – a ovelha negra. Quando finalmente entrou na universidade, foi um caminho sem volta: desde os primeiros semestres de curso, enveredou pela iniciação científica, trabalhando com microbiologia, suinocultura e reprodução de ruminantes. Formada, foi contratada por uma multinacional do segmento de milho, atuando no setor de nutrição animal e confinamento, de lá entrando em contato com a indústria frigorífica e com o que viria a ser seu grande foco de trabalho: a carne.

Em 2003, elegeu a capital catarinense como destino – assim como muitos, na expectativa de conciliar o trabalho com a proximidade do mar – e deu de cara com imóvel onde instalou seu espaço, uma boutique e um restaurante de carnes.

Na Argentina, formou-se maestra assadora – o que lhe conferiu a prerrogativa de também poder ensinar a fazer churrasco, passando o conhecimento adiante – e estagiou em restaurantes do mesmo país e do Uruguai, até finalmente passar ao comando da própria brasa. Para o preparo das carnes, Beth utiliza o sistema de parrillha, que consiste no uso de grelhas móveis – a figura do espeto, tão cara aos brasileiros, é raridade por ali.

Da esquerda para a direita: Beth Schreiner, Caroline Barbosa, Carolina Barretto, Tatiana Bassi, Paula Labaki, Clarice Chwartzmann, Sandra Carvalho, Ligia Karazawa e Aline Marinho formam o coletivo As Brasileiras
Da esquerda para a direita: Beth Schreiner, Caroline Barbosa, Carolina Barretto, Tatiana Bassi, Paula Labaki, Clarice Chwartzmann, Sandra Carvalho, Ligia Karazawa e Aline Marinho formam o coletivo As Brasileiras
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Quebrando preconceitos

Quem observasse a zootecnista Sandra Carvalho em uma competição de crossfit poderia não suspeitar que ali estava uma profissional altamente conceituada e especializada no ramo de carnes: do campo ao prato – como costuma dizer. Doutora em tecnologia de carnes e professora nos cursos de Zootecnia e Agronomia da UFSC, a trajetória profissional de Sandra inclui ainda a passagem por fazendas, frigoríficos e um curso de gastronomia, onde lecionou sobre carnes durante cinco anos. Atualmente, é responsável pelas áreas de qualidade de carnes e tipificação de carcaças nos cursos da federal – ela também largou o crossfit e hoje pratica apenas corrida. De fato, tanta energia acaba por se relacionar com um dos hobbies favoritos de Sandra: o churrasco – e com ele o fogo, elemento vital que também simboliza força e renovação, além de um forte poder agregador. O que é mais gostoso do que reunir pessoas em torno do fogo em um dia frio? Para Sandra, porém, as mulheres ainda enfrentam preconceito quando se trata de trabalhar com carnes e de operar uma churrasqueira:

– A visão que em geral as pessoas têm do churrasco é totalmente masculina. A churrasqueira como um lugar da casa onde só o homem pode entrar. Então existe uma surpresa em ver a mulher preparando a carne e, principalmente, em perceber que realmente fica muito boa – comenta.

Para Sandra, o grande atrativo do churrasco é seu potencial de reunião: em torno da churrasqueira, existe a convivência e um ambiente dinâmico, onde a refeição é preparada simultaneamente ao encontro – diferentemente do modelo mais tradicional de preparo, com a separação entre a cozinha e a sala de jantar. Na visão dela, a mulher pode agregar uma personalidade diferente ao churrasco.

– Em função do cuidado que tem com as coisas, a mulher tem a preocupação de preparar acompanhamentos, de agradar as pessoas em relação ao ponto da carne, ao corte – opina.

Há dois anos, Sandra encontrou Beth em uma visita a um frigorífico e, a partir dali, estreitaram os laços. Hoje elas são sócias em uma empresa que presta consultoria e dá cursos sobre qualidade de carnes, e foi dessa parceria que surgiu o convite para participarem do grupo As Braseiras – Mulheres da Brasa Brasileira, que tem o objetivo tanto de mostrar o trabalho e a experiência das mulheres no ramo de carnes quanto de levar informação sobre o universo churrasqueiro ao público feminino.

Carolina Barretto, idealizadora e coordenadora do projeto
Carolina Barretto, idealizadora e coordenadora do projeto
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Às mulheres: a churrasqueira

Para entender a essência d¿As Braseiras, a idealizadora e coordenadora do coletivo, Carolina Barretto, conta sua história:

– Trabalhei muito tempo na indústria frigorífica, olhando para as relações entre quem produz e quem consome. Então tive a ideia de unir um grupo de mulheres que gostam de carnes e assados e trazer a visão da mulher para esse negócio, já que muitas mulheres se interessam pelo assunto mas ainda ficam tímidas, por ser um ambiente masculino. Isso é um estereótipo que se criou – explica.

Lançado oficialmente em março, o grupo formado por 10 mulheres de diferentes regiões brasileiras já cumpre uma agenda de eventos com palestras, workshops e jantares que ultrapassam a carne no prato, resgatando inclusive a história da relação do ser humano com o fogo. De acordo com o documento que define a proposta do grupo, o objetivo é usar a carne e o fogo como uma ferramenta de transformação, de educação e acolhimento, promovendo assim uma mudança de comportamento e consciência.

– É um projeto, mas é também um movimento. Reunimos mulheres que já têm um trabalho consolidado, que já têm uma trajetória, e queremos incentivar outras meninas. Nossa ideia é fazer eventos menores, para trazer informações sobre a profissão, sobre como consumir carne e para que exista uma troca com o público – ressalta Carolina.

A edição catarinense do evento ocorreu no início de junho em Florianópolis. Entre as atividades, uma oficina de carne suína e palestras sobre a cadeia produtiva da carne, o consumo proteico na síntese muscular no âmbito da nutrição esportiva e a importância da segurança alimentar. Na plateia, estudantes de gastronomia, veterinária, zootecnia, nutrição e engenharia de alimentos, assim como atletas e consumidores.

– A ideia é que a gente possa aportar o nosso conhecimento ao grupo e, a partir daí, levar informação para outras mulheres. Informações que, muitas vezes, a indústria não tem interesse em divulgar, sobre a qualidade da carne, a produção. Nós defendemos muito a questão da origem, por exemplo, de saber também a procedência do que se está consumindo – destaca Beth Schreiner.

Trabalhando em duplas pelo Brasil, As Braseiras irão realizar eventos e disseminar a participação da mulher tanto na produção de carnes quanto no preparo e consumo. Com os recentes acontecimentos envolvendo a indústria frigorífica na Operação Carne Fraca da Polícia Federal, elas consideram o momento oportuno, já que o público consumidor está sendo ¿convocado¿ a buscar um conhecimento sobre o setor.

– O brasileiro adora carne e as empresas interessadas têm agora a oportunidade de se aproximar mais do consumidor, de estabelecer esse relacionamento mais direto, especialmente nesse nicho de carnes de qualidade, de trabalhar com animais de genética superior, alimentados de forma melhor – avalia.

Além de Elisabeth, Sandra e da coordenadora Carolina, fazem parte do grupo Tatiana Bassi, Ligia Karazawa, Paula Labaki, Aline Marinho e Joana Angélica, de São Paulo; Clarice Chwartzmann, do Rio Grande do Sul; e Caroline Barbosa, do Pará.

– Queremos nos reconectar com a história e também mostrar esse churrasco feminino, que considero que traz um componente mais inclusivo, mais acolhedor na hora de receber, com porções menores e contemplando também outros assados que não apenas carnes, como legumes, cogumelos, raízes. E vamos fazer isso em eventos pequenos, para que haja a troca de conhecimento. Não dá pra fazer isso em um grande festival – enfatiza Carolina.

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