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    Mulheres 'reivindicam seu poder' em clubes de investimento próprios

    Os pesquisadores citam inúmeras razões: maior expectativa de vida das mulheres, salários mais baixos, estado civil e responsabilidade pelo cuidado das crianças

    08/05/2020 - 17h33

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    Por The New York Times
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    *Por Joshua Brockman

    Durante a crise financeira de 2008, Lauren Winfield se viu recomeçando a vida em Austin, no Texas, sem emprego, rede de conhecimentos ou poupança.

    Ela tinha acabado de se assumir gay. Aos 20 anos, sem poupança ou apoio financeiro da família, tinha empregos em que ganhava salário mínimo para pagar empréstimos universitários e dívidas de cartão de crédito.

    Winfield queria poupar, mas as emergências muitas vezes impediam essas tentativas. O resultado: um sentimento de insegurança que a deixou relutante em investir.

    As coisas mudaram quando Winfield começou a participar de reuniões de grupos financeiros de mulheres. Ela acabou se juntando ao Grupo de Investimento Feminino de Austin, que descobriu no Meetup, e começou a se conectar com seus membros no Facebook. A comunidade que encontrou nos grupos lhe deu o apoio para começar a investir para sua aposentadoria na casa dos 30 anos.

    "É um aumento de confiança estar na mesma sala ou grupo on-line em que outras mulheres reivindicam seu poder e autonomia em relação a seu dinheiro", disse Winfield, agora com 34 anos. Ela criou a Signum City, startup de finanças e tecnologia que desenvolveu um jogo baseado em aplicativos para ajudar jovens adultos a aprender a investir.

    Sua jornada financeira reflete os desafios que muitas mulheres enfrentam ao investir na aposentadoria: suas necessidades financeiras de curto prazo conseguem eclipsar as metas de longo prazo. Em todo o país, grupos de investimento femininos, desde o Meetup até clubes organizados pela organização sem fins lucrativos BetterInvesting, estão ajudando algumas mulheres a se concentrar em suas finanças de um modo que, afirmam seus membros, empresas de Wall Street, fundos e consultorias financeiras não têm conseguido.

    Apenas 17 por cento das mulheres relataram que o planejamento para a aposentadoria era sua principal meta financeira em uma pesquisa de 2018 da Pimco, de Newport Beach, na Califórnia, empresa de investimento que gerencia US$ 1,8 trilhão para bancos centrais, fundos de pensão e consultores financeiros. As entrevistadas davam prioridade a metas como estabilidade, planejamento e independência financeiros.

    Os pesquisadores citam inúmeras razões: maior expectativa de vida das mulheres, salários mais baixos, estado civil e responsabilidade pelo cuidado das crianças. O desafio que elas normalmente enfrentam é como esticar uma poupança, que é tipicamente menor que a dos homens, para que dure a vida toda.

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    A desconexão entre as prioridades das mulheres e o que o setor de serviços financeiros normalmente enfatiza – estratégias para vencer o mercado – é especialmente evidente quando se trata de aposentadoria. Na pesquisa da Pimco, 72 por cento das mulheres e 81 por cento das jovens millennials disseram que o sistema de investimento foi "configurado para ser confuso". As mulheres identificaram a honestidade, o conhecimento e a transparência como os principais valores que buscavam em assessores e instituições financeiras.

    As principais instituições financeiras tomaram nota. Bank of America, Merrill Lynch, UBS e Fidelity estão entre um número crescente que construiu sites e divulgou relatórios para tentar atrair investidoras. Elas estão competindo com casas de investimento voltadas para mulheres, como a Ellevest, plataforma que usa consultores humanos e tecnologia robótica de aconselhamento. O que está em jogo, de acordo com o Banco de Montreal, são US$ 22 trilhões em fortuna pessoal que as mulheres controlam nos Estados Unidos.

    Geoffrey Sanzenbacher, professor associado de economia e pesquisador do Centro de Pesquisa de Aposentadoria do Boston College, observou que muitas dessas iniciativas de Wall Street eram "apenas marketing".

    Um estudo de 2019 do centro observou que uma mulher típica que estava se aproximando da aposentadoria tinha passado cerca de metade de sua vida adulta casada. Isso não garantiu maior estabilidade financeira, no entanto. Embora as casadas estejam em famílias com maiores ganhos e riqueza, apontou o estudo, elas são menos propensas que as solteiras a manter seu padrão de vida na aposentadoria, porque quase metade dos casais em que os dois trabalham "tende a economizar pouco em seus planos de aposentadoria".

    "Se apenas um cônjuge tem plano de aposentadoria, esse cônjuge precisa economizar ainda mais", disse Sanzenbacher, coautor do estudo, acrescentando que, no entanto, a maioria das pessoas não faz isso.

    É aqui que grupos e clubes femininos de investimento fazem a diferença.

    Encontros mensais em bibliotecas públicas, cafés, salas de conferência ou salas de estar costumavam ser a maneira preferida de grupos e clubes se encontrarem. Mas agora, por causa da pandemia do coronavírus, os organizadores estão realizando reuniões virtuais.

    O grupo de Austin se destaca, em parte, porque construiu uma associação de mais de dois mil membros. Sara Glakas, consultora de investimentos e fundadora da Black Barn Financial, contou que ajudou a iniciar o grupo em 2011 porque as mulheres estavam sendo mal atendidas por consultores financeiros com um "ponto cego significativo".

    Reunir-se é importante porque o tema é estressante. "Em geral, o tom e a abordagem dos especialistas, juntamente com as notícias financeiras que se leem, tendem a deixar as pessoas ansiosas. Buscamos criar simplicidade, clareza e lhes dar controle", disse Glakas, de 40 anos.

    Um tópico recorrente de discussão é como evitar partes mais arriscadas dos mercados financeiros, como ações com forte possibilidade de valorização e o setor de tecnologia, algo que pode colocar as mulheres em desvantagem, porque elas não compreendem alguns de seus efeitos ou mecanismos.

    "Ao se concentrar no fundo de emergência, no pagamento de hipotecas e na educação das crianças, as mulheres estão sendo direcionadas para investimentos de curto prazo e de menor retorno, em detrimento dos investimentos de longo prazo e de maior retorno, que podem garantir riqueza", explicou Glakas.

    Kamie Zaracki, de 64 anos, que recentemente se aposentou como diretora executiva da BetterInvesting, uma organização nacional com uma rede de clubes que educa as pessoas sobre investimentos em ações de qualidade, vem poupando para a aposentadoria desde os 20 anos.

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    Cerca de metade das mulheres na pesquisa da Pimco disse ter tanto problema de tempo que se sentia mais pobre do que de fato era, financeiramente, e preferira contratar outra pessoa para gerenciar seu dinheiro. Mas Zaracki observou que gerenciar investimentos não demandava muito tempo.

    Mesmo com ajuda, as horas que ela gasta nisso a fortalecem, afirmou. "Tenho uma visão clara das minhas finanças e maior confiança nas minhas decisões financeiras."

    A confiança dos investidores permanece rara com a pandemia de coronavírus causando estragos nos mercados. Laura LaTourette, que dirige o Grupo de Gerenciamento de Riqueza Familiar, em Dahlonega, na Geórgia, recebeu várias ligações de clientes preocupadas, muitas das quais pertencem à comunidade LGBTQ e têm mais de 50 anos. Ela também está preocupada com sua esposa e seus próprios portfólios.

    Ela contou que passou a apreciar como as clientes valorizavam "conversas profundas" para aprender sobre todas as facetas do investimento e da economia, e que acreditava que a indústria precisava contratar mais mulheres.

    Essa é a abordagem assumida por Sallie Krawcheck, cofundadora e executiva-chefe da Ellevest.

    "Construímos a Ellevest completamente em torno do serviço às mulheres", afirmou ela. A maioria de seus clientes – Krawcheck disse que estão por volta de "múltiplas dezenas de milhares" – são mulheres, assim como mais de 70 por cento dos funcionários da empresa. "Essa estratégia nos ajudou a ver o problema e a solução de um ponto de vista que outros não têm."

    A plataforma da Ellevest tem o que Krawcheck chama de algoritmo "com consciência de gênero", que leva em conta o fato de as mulheres viverem de seis a oito anos a mais que os homens, muitas vezes com ganhos menores (com salários que atingem o pico mais cedo) e com mais pausas na carreira. Ela disse que foi projetado para "assumir o menor risco necessário para que as mulheres atinjam suas metas de investimento".

    A pesquisa da empresa também ressalta a necessidade de engajamento da comunidade. "Se você traz o tema do dinheiro para uma mulher, as palavras que vêm à mente para ela são 'isolamento', 'incerteza' e 'solidão'", resumiu Krawcheck.

    Esses são exatamente os sentimentos que o grupo de Austin está tentando ajudar as mulheres a evitar. "Francamente, acredito que ainda não vimos o que as investidoras podem alcançar como uma força. Queremos seriamente criar um espaço para essa mudança", disse Glakas.

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