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    Na Itália, promessa de anticorpos contra o coronavírus ainda é incerta

    Pesquisadores e políticos da China, dos Estados Unidos, da Alemanha, do Reino Unido e de outros países se apegaram aos anticorpos como uma solução potencial para o vírus e uma saída das medidas de contenção

    14/05/2020 - 17h40

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    Por The New York Times
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    *Por Jason Horowitz

    Roma – Confinados, agitados e desesperados por retomar a vida normal, muitos europeus e americanos se aproveitaram de anticorpos e de sua promessa de imunidade potencial ao coronavírus como um trunfo para reabrir sociedades e economias.

    Não faz muito tempo, políticos na Itália – que, como epicentro do contágio na Europa, está mais à frente no ciclo da pandemia do que outras nações ocidentais – propuseram a emissão de licenças para aqueles que venceram o vírus e desenvolveram os anticorpos para voltar ao trabalho.

    Pesquisadores e políticos da China, dos Estados Unidos, da Alemanha, do Reino Unido e de outros países se apegaram aos anticorpos como uma solução potencial para o vírus e uma saída das medidas de contenção.

    Mas essa conversa, sempre à frente da ciência, foi interrompida nas últimas semanas. Com a pesquisa se recusando a cooperar, especialistas na Itália dizem que a promessa de anticorpos pode não ser o que as pessoas imaginavam. Pelo menos por enquanto.

    "Não sabemos se todos os que tiveram a doença desenvolveram uma imunidade protetora aceitável", disse o dr. Alessandro Venturi, presidente do hospital San Matteo, na cidade de Pavia, na Lombardia.

    O hospital validou a testagem de verificação de anticorpos usada para mapear o vírus na Lombardia, a região mais atingida da Itália.

    As pessoas infectadas desenvolvem diferentes quantidades de anticorpos, e os pesquisadores ainda estão estudando o nível que oferece proteção e por quanto tempo. "Não sabemos quanto tempo duram. Este é o ponto central", afirmou Venturi.

    Essa é uma notícia difícil não só para a Itália, que está afrouxando seu confinamento, mas para o resto do mundo. O governo italiano começará em breve a testar 150 mil pessoas em busca de anticorpos para uma "pesquisa de amostragem sobre a propagação da infecção", de acordo com seu site.

    Muitas regiões, incluindo a Lombardia e o Vêneto, ainda estão fazendo essas triagens. Em abril, os presidentes dessas regiões promoveram a ideia de emitir licenças para membros de uma força de trabalho imune, porém agora estão vendo os testes não mais como panaceia, mas como uma ferramenta de pesquisa. "As licenças de imunidade são inúteis", disse Mario Plebani, coordenador dos testes de anticorpos na região do Vêneto.

    Políticos e especialistas tentaram diminuir as expectativas. Mas isso não impediu os cidadãos, desesperados por saber se tiveram o vírus e se estão protegidos dele, e as empresas, ansiosas por voltar à normalidade, de buscar em massa os exames de anticorpos.

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    Muitas empresas da região estão pagando aos funcionários para que façam os testes e possam voltar ao trabalho se testarem negativo para o vírus ou positivo para os anticorpos. Venturi disse que esses testes eram essencialmente "inúteis" porque não mostravam se a pessoa tinha o nível certo de anticorpos e porque ninguém sabia ainda quanto tempo estes poderiam durar.

    Alguns virologistas afirmaram temer que todo o furor em torno dos anticorpos pudesse levar a um mau comportamento entre aqueles que se consideram invencíveis, o que poderia causar mais infecções.

    "Estou muito preocupado com o fato de que o uso irresponsável de testes sorológicos coloque em risco a fase dois", disse o dr. Alberto Mantovani, um dos principais imunologistas italianos, ao canal de TV Sky TG24.

    Mas Venturi explicou que os anticorpos com a capacidade de neutralizar o vírus ainda têm funções importantes, inclusive para o desenvolvimento de plasma que pode auxiliar os pacientes, além do potencial de garantir descobertas que talvez ajudem a Itália a reabrir mais plenamente.

    Seu hospital de pesquisa Humanitas, perto de Milão, tratou do primeiro paciente portador do coronavírus conhecido da Itália e tem profunda experiência com o vírus. Ele vem examinando de dois por cento a três por cento das pessoas na região cujos testes de swab mostram que estão ativamente infectadas, mas cujo sangue também contém os anticorpos – conhecidos como imunoglobulina G ou IgG – que devem neutralizar o vírus. Em outras palavras, essas pessoas não são mais contagiosas.

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    Nesses casos, segundo Venturi, o vírus não se replicou nem causou uma infecção mais ampla. "Isso significa que não é contagioso", afirmou ele, acrescentando que o estudo do hospital está sendo ampliado à medida que seus pesquisadores buscam 200 casos desse tipo em toda a Lombardia, onde estimam que dez por cento dos cerca de dez milhões de residentes contraíram o vírus.

    Localizar esses casos não tem sido fácil, considerando-se a raridade de encontrar alguém que tenha os anticorpos desejados e o vírus ao mesmo tempo. De acordo com ele, os resultados levarão mais algumas semanas, mas, se confirmados, mostrarão que as pessoas que testam positivo para um nível adequado de anticorpos IgG não representam um perigo de contágio.

    Teoricamente, mesmo esses poucos sortudos não precisariam esperar por dois testes de swab negativos consecutivos – que às vezes levam meses – para serem liberados da quarentena e autorizados a voltar ao trabalho. "Seria como um resultado negativo", disse ele.

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    Entretanto, Venturi observou que era impossível considerar uma força de trabalho composta apenas por pessoas que mostrassem anticorpos neutralizantes. Em vez disso, disse ele, a fase de reabertura da Itália precisa depender de pessoas não infectadas, que ele considerava ser 90 por cento da população, e do distanciamento social e outras medidas de proteção. "Ao falar sobre licenças de imunidade, os políticos se adiantaram", afirmou.

    O gabinete do presidente da Lombardia, Attilio Fontana, que havia previsto que as licenças de imunidade estariam em vigor até 21 de abril, declarou que todos ainda precisavam seguir as medidas de quarentena recomendadas.

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    "Não há licença de imunidade", disse Giulio Gallera, a principal autoridade de saúde da região.

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