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Luxo no fundo do mar

Naufrágio de iate é cercado de mistério em Florianópolis

Marinha buscará explicações sobre como embarcação afundou no sul da Ilha, na sexta-feira com 14 pessoas a bordo

04/11/2013 - 05h50 - Atualizada em: 04/11/2013 - 08h57

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Por Redação NSC
Iate foi comprado por R$ 3,2 milhões
Iate foi comprado por R$ 3,2 milhões
(Foto: )

Um mistério está por trás do naufrágio de um iate comprado há dois anos por R$ 3,2 milhões próximo à Ilha dos Moleques, na sexta-feira, dia 1º de novembro, com 14 pessoas a bordo - 13 passageiros e um tripulante.

DOCUMENTOS: relatórios confirmam que a embarcação não era segura

Segundo laudo de empresa especializada contratada pelo dono do barco, o Gladiador 8 não tinha condições de navegar por problemas estruturais, havia alerta para naufrágio e estaria em meio a uma disputa judicial por reparos.

O barco saiu debaixo da ponte Hercílio Luz por volta das 16h e afundou no Sul de Florianópolis. Nenhum dos passageiros, que pagaram R$ 800 cada um para voltar da pescaria na noite do dia seguinte, ficou ferido. No momento do acidente um barco de pesca os resgatou.

O que ainda deve ser respondido com a investigação que começa hoje e tem 60 dias para ser concluída pela Marinha é como o barco com 23 metros de comprimento que estava atracado em um píer no Bairro Coqueiros, em Florianópolis saiu para o mar com todas as evidências de que poderia naufragar.

O dono do Gladiador 8, Fernando Cruz, mora em São Paulo. Informou que comprou o barco há dois anos de uma empresa chamada Excel Náutica por R$ 3,2 milhões, e que gastou mais R$ 1 milhão para reformas que ele já sabia que teriam de ser feitas. Usou o barco durante um ano em viagens com a família, mas começou a perceber problemas. Foi Cruz quem contratou o laudo que identificou os problemas no iate.

- O laudo apontava problemas e eu entrei em contato com o fabricante que disse que não tinha condições financeiras para arrumar. Aí entrei na Justiça - diz o dono.

Em abril, Cruz navegou com o iate até Florianópolis. Atracou o barco no Iate Clube de Florianópolis porque, segundo ele, o barco não tinha mais condições de navegação. Cruz afirma que na época entrou em contato com a Marinha em Florianópolis para alertar sobre os perigos da embarcação e pediu o bloqueio do iate na Justiça. Há dois meses, o juiz Guilherme Silveira Teixeira, da 33ª Vara Cível do Foro Central da Capital de São Paulo, responsável pelo caso, determinou que o iate ficasse sob a responsabilidade do construtor, o engenheiro naval Ronald Miro Barton, dono da Excel Náutica.

O último laudo feito na embarcação foi no dia 24 de outubro. A empresa New Boat, também contratada por Cruz, afirma no documento que havia possibilidade de quebra dos motores e que a estrutura do casco estava comprometida. De acordo com os advogados de Cruz, eles entraram com duas liminares pedindo ordem judicial para que o barco não navegasse sob risco de naufrágio. O juiz Guilherme Silveira Teixeira, 33ª Vara Cível do Foro Central da Capital de São Paulo, não as acolheu.

Marinha tem 60 dias para concluir inquérito

Responsável pela guarda do barco, Ronald Miro Barton confirmou ontem que o iate não poderia navegar nas condições em que foi ao mar na última sexta-feira, mas tinha autorização da Capitania dos Portos para navegação em curtas distâncias e sem passageiros.

Ele disse que contratou um marinheiro, de quem não soube informar o nome completo, para cuidar das manutenções e segurança do barco. Segundo Barton, este marinheiro morava no iate e teria saído por conta própria, porque tinha a ordem de não movimentá-lo.

A Marinha vai instaurar hoje inquérito para apurar as causas e responsabilidades do naufrágio do iate Gladiador 8, em Palhoça. Segundo informou ontem a tenente Andressa Braun, da Capitania dos Portos, em Florianópolis, o prazo para a conclusão do procedimento - comum neste tipo de caso - é de 60 dias.

A tenente não tinha informações sobre o passado da embarcação nem se havia comunicação à Capitania pelo dono do barco apontando o risco em que ela se apresentava, conforme relatou ao DC o empresário Fernando Cruz.

- Se havia alguma restrição não autorizando o tráfego eu desconheço, mas quem o lançou ao mar no mínimo agiu de forma irresponsável e irregular - comentou a tenente.

"A água dava choque, diz ocupante do iate"

Com o copo de cerveja na mão, José Antônio Coelho, 61 anos, celebra a nova chance de viver. Diz que ainda não entendeu bem o que aconteceu e ri com os amigos como se nada tivesse acontecido. O domingo foi de alegria, apesar do susto e das lembranças.

- Não consigo esquecer do meu amigo falando: "José, não vou ver o meu filho nascer". Vejo cenas de horror desse dia na cabeça - diz.

José conta que entrou de última hora na excursão. O irmão dele comprou o pacote de

R$ 800 para a pescaria. Um dos participantes adoeceu e José foi.

Ele conta que o barco era tão bonito que tirou os sapatos para entrar. Saíram às 13h30min e chegaram ao destino às 17h.

- Sentimos cheiro de queimado e o comandante viu que tinha água na descarga de motores. A escotilha estava aberta e descemos no primeiro andar para fechar, mas a água dava choque - conta.

Nesse momento, ele diz que a vida passou diante dos olhos. Em alguns minutos todos se reuniram, decidiram que quando o barco afundasse ficariam todos juntos, de colete, agarrados em uma corda com boias. José avistou um barco pesqueiro longe. Todos gritaram e abanaram os braços.

- A saída do iate foi lenta. Quando estávamos todos lá, vimos o comandante tentando sair, mas a corrente o empurrava para dentro de novo. Achamos que ele tinha morrido, mas ele veio à tona - lembra José.

Da hora que sentiram o cheiro até o barco afundar foram 25 minutos.

"Avisei a todos e ninguém fez nada"

Diário Catarinense - Quais eram os principais problemas do barco?

Fernando Cruz - No último laudo, os geradores não funcionavam e havia problemas de evacuação da água. As escotilhas também estavam com problemas. Podem ter arrebentado porque o dono do píer nos disse na semana passada que o barco colidiu no píer em que estava atracado.

DC - O que você acha de o fato do barco ter afundado?

Cruz - Faz cinco meses que alerto que isso poderia acontecer. Entrei na Justiça, falei com a Marinha e ninguém fez nada. Já que não bloquearam o iate para evitar uma tragédia, eles são responsáveis pelo que aconteceu. Poderia ter morrido gente.

DC - O que você vai fazer agora?

Cruz - O barco não tinha seguro. Alguém vai ter que responder pelo acidente e pagar. O comandante estava sob responsabilidade do construtor. O juiz colocou o barco sob guarda dele. Vou abrir processo contra todos os envolvidos, inclusive contra a Marinha. Eles foram corresponsáveis pelo o que aconteceu.

"O marinheiro saiu por conta própria"

Diário Catarinense - Você sabia que o barco sairia para pesca na Ilha dos Moleques?

Ronald Miro Barton - Não. O barco tinha autorização da Capitania para navegar, mas sem passageiros. O marinheiro saiu por conta, sem atender às instruções. A ordem era não retirar o barco do píer.

DC - Quem era o marinheiro?

Barton - Não tenho o nome completo dele. Contratei-o para que levasse o barco do Iate Clube até o píer, cuidasse e fizesse as manutenções. Ele morava no barco, por isso não tenho o endereço. Tentei ligar para o celular desse marinheiro, mas acho que ele perdeu no acidente. Espero que ele ligue para mim, porque não tenho como entrar em contato.

DC - O que você pretende fazer agora?

Barton - O marinheiro será processado. Vou conversar com advogado para ser orientado.

DC - Qual é a razão do estado do barco?

Barton - O barco estava em más condições porque nos últimos anos não passou por manutenção. O barco havia sido usado por três anos e nunca havia tido problemas.

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