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122 anos

No aniversário de Palhoça, conheça a história da Enseada de Brito contada por seus moradores

Moradores contam histórias do bairro mais antigo da cidade, que faz aniversário neste domingo

24/04/2016 - 04h33 - Atualizada em: 21/06/2019 - 23h05

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Por Redação NSC
(Foto: )

Escondido entre a natureza e o mar, o mais antigo povoado de Palhoça, a Enseada de Brito, é um pequeno pedaço de paraíso que ainda conserva as características de cidade do interior. Nas águas calmas repousam ostras, mariscos e berbigões. Vizinhos se cumprimentam pelo nome e as portas das casas — alguns antigos casarões do século 19 — estão abertas para visitantes que chegam sem avisar.

Estudioso da história de Palhoça, João José da Silva, autor de oito livros que tratam sobre o município, relatou na publicação "Aos pés do Cambirela" que a cidade nasceu na região da Enseada de Brito, quando em 1653, bem antes da data oficial de fundação, desembarcou ali Domingos de Brito Peixoto, fundador de Laguna.

— Mas foi em 1750 que a maioria dos moradores chegou, quando casais foram trazidos da Ilha dos Açores — conta.

Ele afirma que documentos relatam que quando a cidade foi emancipada, em 1894, cerca de cem "indústrias" estavam instaladas na Enseada:

— Indústrias, na época, eram basicamente os engenhos — explica.

A principal atividade das famílias que se instalaram ali era a pesca, diferente da agricultura que exerciam nos Açores.

Histórias de sua gente

Moradores da Enseada de Brito, em Palhoça, contam a história do bairro

Já o museólogo Gelci José Coelho, o Peninha, escolheu a Enseada como refúgio para viver depois da aposentadoria. No aniversário de 122 anos de Palhoça, os três moradores falam sobre o folclore, as lembranças e suas histórias com a região.

Casarão de tranquilidade

Osvaldina na janela da casa, datada de 1850
Osvaldina na janela da casa, datada de 1850
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Aposentada e com as filhas já criadas, Osvaldina Francisca de Souza diz, com um sorriso no rosto, que não pretende sair nunca da Enseada de Brito, onde mora desde criança:

— Vou ficar aqui até Deus permitir — ela afirma.

A casa de Osvaldina é uma das poucas com estilo açoriano ainda preservadas no bairro. A placa na fachada revela o ano de sua construção: 1850. Foram feitas algumas reformas por necessidade, e ela conta que quando foram trocar as telhas, uma parede acabou desabando, mas a fachada a família faz questão de preservar, pois já se tornou um cartão postal do bairro:

— Antigamente não se preocupava muito em manter, mas a gente vai sempre arrumando para ficar bonito. Tem gente que para aqui em frente para bater foto — conta, com orgulho.

Foi aos cinco anos que Osvaldina se mudou para a residência com os pais adotivos, depois que perdeu a mãe. Mas ela conta que ouviu muito as histórias da casa, e se recorda da infância no bairro tranquilo:

— Essa casa foi do avô da minha mãe. Eles moravam no Centro de Florianópolis, mas a família estava com dificuldades e se mudou para a Enseada, pois era mais interior, tinha peixe, berbigão, pegavam lenha, era bem diferente na vida no Centro. Depois a casa ficou fechada por um tempo, até eu voltar para cá — explica.

Osvaldina recorda que somente em 1964 a energia elétrica chegou na Enseada. Antes disso, brincava até tarde com os amigos de esconde-esconde pelas ruas, onde só se viam os vaga-lumes:

— Tinham poucas casas, todas perto uma da outra, em volta da praça. Todo mundo se conhecia pelo nome. De vez em quando ainda sento com minhas vizinhas, têm senhoras mais velhas que adoram ficar lembrando das festas do Divino e outras coisas dos tempos antigos.

Depois de casada, Osvaldina continuou na casa, onde criou as duas filhas. Agora que elas já são adultas, Osvaldina e o marido vivem uma vida tranquila na Enseada:

— Aqui é muito calmo, uma tranquilidade. Para dormir não tem nenhum barulho, acordamos com o canto dos pássaros.

Reduto para a aposentadoria

Peninha guarda histórias sobre o folclore
Peninha guarda histórias sobre o folclore
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Acostumado ao agito do trabalho de anos na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), o museólogo Gelci José Coelho, o Peninha, escolheu a Enseada de Brito para ser sua morada em 2009, depois da aposentadoria.

Profundo conhecedor da história e do folclore açoriano, Peninha trabalhou 10 anos anos junto com Franklin Cascaes, desenvolvendo trabalhos de aspectos da herança cultural de base açoriana, suas histórias, tradições, folclores, e se encantou quando, por acaso, descobriu a Enseada:

— Vim por acidente no casamento do filho de um amigo e descobri esta casa, neste paraíso — conta.

Como curioso e estudioso, foi conhecer mais da história do lugar que escolheu para viver tranquilo. Ele conta que sua casa provavelmente é dos anos 1800, assim como toda comunidade da Enseada, que foi uma das primeiras de núcleo de povoamento açoriano:

— Aqui é um dos poucos lugares que sobreviveu à exigência de urbanismo da corte portuguesa. A igreja mais elevada, um campo aberto na frente, que é o que eles chamavam de freguesia, e, nas laterais, as casas de câmera e cadeia, a administração e as habitações.

Construção da BR-101 mudou o bairro

Peninha conta que no entorno da praça, as casas eram todas grudadas umas nas outras, e que o povoado vivia mais isolado até a abertura da BR-101, em 1970:

— Os antigos era isolados aqui. O contato era via mar. Saía muita coisa daqui para a cidade, como lenha, cal, alguma produção de lavoura. Mas quando abriu a BR eles começaram circular mais facilmente para a cidade, daí viram que as casas eram diferentes, então acabaram demolindo muito para fazer casa mais moderna, e sobraram poucas casas daquele período — lamenta.

Depois que se mudou para a Enseada, Peninha ajudou a organizar a Casa da Cultura Açoriana ao lado da igreja, para ajudar a preservar a memória da região.

— A praça e a igreja são tombadas, por isso acabam não conseguindo revitalizar a praça, pois são muitas exigências. Essa urbanização seria bem importante, pois beneficiaria toda a comunidade e também quem visita. Todo mundo que chega aqui se encanta, mas falta uma estrutura — avalia.

Lendas sobre pragas

Como conhecedor das lendas do folclore açoriano, ele conta que o pouco desenvolvimento tem relação com duas pragas de padres rogadas para a Enseada. Na primeira delas, Peninha explica que estava acontecendo uma missa de Divino Espírito Santo na época da pesca da tainha. Todo o povo era muito católico, mas ficava sempre um vigiando, caso um cardume aparecesse. Durante a missa apareceu, um homem foi avisar e saiu de fininho. De repente o outro viu e foi atrás. E todos os homens saíram da missa, as mulheres não resistiram e também saíram. Daí o padre foi para a porta da Igreja e rogou um praga de que a Enseada nunca mais ia crescer.

Na segunda praga, um outro padre teria se incomodado com uma pessoa de sobrenome Silveira:

— A Enseada é um reduto de Silveiras, então o padre rogou a praga de que enquanto algum Silveira estiver morando aqui, a Enseada vai crescer como rabo de cavalo: para baixo. Como o povo tem essa crença que praga de padre pega, então deve ter pego e aqui ficou essa vilazinha — brinca.

Retorno às origens

O artista plástico Dão
O artista plástico Dão
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O nativo da Enseada de Brito João Dias, o Dão, cresceu em meio à natureza e o mar calmo, mas quando adulto foi morar em São José e trabalhar na cidade vizinha. Aguentou por um tempo, mas sua alma de artista plástico fez com que voltasse para a tranquilidade do bairro em que nasceu:

— Em 1980 eu briguei com a cidade e vim embora de vez para Enseada, sobreviver da minha arte, que era aquilo que eu fazia. Fiquei na casa que foi da minha avó, na praça, e depois adquiri este lugar, montei meu ateliê e fui expandindo.

Ele recorda que quando voltou existiam apenas cinco carros na Enseada, incluindo o dele, um Fusca azul. As pessoas eram muito simples, viviam do que o mar e a terra ofereciam:

— Eu lembro que na minha infância a Enseada teve sua fase áurea, com quase 200 engenhos de açúcar, alambiques, muita coisa que vinha de Lages, do Sul, chegava aqui e era embarcada em lanchões para Florianópolis.

Hoje, Dão vive em seu refúgio em meio à natureza e montou um espaço ecumênico, que aluga para retiros espirituais e outras celebrações. Apesar de ter voltado para o seu lugar, ele tem uma visão bastante crítica da região:

— O poder público tem que olhar para a Enseada e pensar que a cultura traz muitos recursos, muito turismo e coisas boa para a comunidade. A Enseada nunca vai ter fábrica, não vai crescer verticalmente, a Enseada só pode crescer culturalmente, e precisa de apoio nesses parâmetros, trabalhar no colégio o resgate cultural, com a família dos alunos — opina. Ele sonha que a história da cidade seja preservada, e isso é impossível sem levar para as futuras gerações o nome de seu bairro.

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