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    O coronavírus encerrou o debate sobre o tempo de tela

    Iniciativas que surgiram explicitamente para ajudar as pessoas a evitar as telas estão agora se adaptando a elas

    14/04/2020 - 17h00

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    Por The New York Times
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    (Foto: )

    *Por Nellie Bowles

    Antes do coronavírus, havia algo com que eu costumava me preocupar. Era o tempo de tela. Talvez você se lembre.

    Eu pensava nisso. Escrevia sobre isso. Muito. Tentava diferentes desintoxicações digitais como se fossem dietas de moda, cada uma vigorando por uma ou duas semanas antes que eu voltasse ao vidro liso e brilhante.

    Agora, joguei fora as algemas da culpa do tempo de tela. Minha televisão está ligada. Meu computador está aberto. Meu telefone está desbloqueado, brilhando. Quero estar cercada de telas. Se houvesse um dispositivo de realidade virtual por perto, eu o estaria usando.

    A tela é meu único contato com meus pais, dos quais sinto falta, mas que não posso visitar porque não quero matá-los acidentalmente com o vírus. Ela possibilita a happy hour com meus amigos do colégio e me mostra fotos de pessoas cozinhando no Facebook. Houve um tempo em que pensei que o Facebook fosse ruim? Uma artéria de propaganda perigosa inundando o corpo político do país? Talvez. Já não me lembro mais. Era uma época diferente.

    Muitas pessoas estão começando a aceitar.

    Walt Mossberg, meu ex-chefe e crítico de produtos tecnológicos de longa data, desativou suas contas no Facebook e no Instagram em 2018 para protestar contra as políticas e a negligência do Facebook em torno de fake news. Agora, durante a pandemia, ele está de volta.

    "Não mudei de ideia sobre as políticas e ações da empresa. Só quero manter contato com o maior número possível de amigos", escreveu Mossberg no Twitter recentemente.

    De volta ao básico do Facebook. Pelos amigos. A Portal, a ferramenta de vídeo do Facebook, não parece tão louca agora.

    Iniciativas que surgiram explicitamente para ajudar as pessoas a evitar as telas estão agora se adaptando a elas.

    "Comecei o Forest Bathing Club para afastar as pessoas e eu mesma das telas, do mundo 2D para a natureza, para experimentar o mundo real. Agora estamos fazendo banhos virtuais na floresta", disse Julia Plevin, designer e fundadora do Forest Bathing Club.

    Evitar as telas guiou as escolhas de vida de Arrington McCoy, terapeuta em Boston, por muitos anos. "Escolhia trabalhos baseados em grande parte na ausência de telas", contou ela, como se tornar instrutora de mochilão e agora terapeuta. "Há dez dias, adotei uma atitude diferente."

    Um amigo meu admitiu uma média de 16 horas de tempo de tela por dia, muitas vezes em vários dispositivos ao mesmo tempo.

    Tenho 31 anos e vivi quase toda a minha vida em San Francisco, o que significa que meus amigos estão tendo bebês ou estão promovendo banhos na floresta.

    Dada nossa demografia, a maioria daqueles que têm filhos criou planos cuidadosos para manter os olhinhos deles longe das telas. Planos para evitar que os bebês usem telas, é claro, mas também para que não vejam os outros usando-as. Como estão os planos agora?

    "Isso acabou na semana passada", disse minha amiga Ashley Spinelli, administradora da Universidade da Califórnia, em Berkeley, que acabou de ter um filho, Nico.

    Shary Niv, mãe de uma pequena, pede a ela "que veja qualquer programação infantil que a PBS esteja exibindo na Amazon Prime".

    Daniela Helitzer, doutora em audiologia em Boca Raton, na Flórida, contou que o tempo de tela costumava ser um debate constante entre os pais em sua cidade. Ela tinha alguns amigos com filhos que nunca tinham visto uma televisão ligada antes disso. Não é mais assim.

    "Todos nós perdemos oficialmente a batalha", admitiu Helitzer, que tem um filho de dois e um de três anos.

    "Acessei todos os aplicativos educacionais possíveis. Usei todas as programações interativas on-line que encontrei. Se ele está sentado em seu iPad por duas ou três horas por dia, literalmente não me importo. É tipo: use essa tela o máximo que puder."

    Cercada de telas nas últimas semanas, notei algumas mudanças positivas. Tenho falado tanto com meus amigos via FaceTime que os conheço melhor do que antes. Decidi aprender o que era o TikTok, e adoro. Passo horas com o queixo enfiado no peito e um sorriso estranho no rosto, observando. Estou usando Duolingo, um aplicativo para aprender idiomas.

    Carolyn Guss, mãe de dois filhos e vice-presidente da PagerDuty, uma empresa de computação em nuvem em San Francisco, já foi rigorosa com as telas. Seus filhos, de oito e nove anos, não possuíam nenhum dispositivo. Eles só podiam ver televisão de maneira muito limitada. No primeiro dia de quarentena, Guss organizou uma programação voltada para mantê-los longe das telas.

    "No terceiro dia, eu já tinha desistido. Acho que o fato de ter chovido no primeiro fim de semana afetou minha determinação", disse ela.

    De repente, ela estava dando seu celular a eles. Punha-os sentados em frente ao laptop. Eles usavam dois dispositivos. Parecia uma derrota.

    Então, algo surpreendente aconteceu. Eles começaram a fazer coisas impressionantes naquelas telas.

    "Meu filho aprendeu sozinho a usar o iMovie, e agora as crianças filmam a si mesmas fazendo coisas básicas – preparando gelatina, jogando basquete – e depois editam de modo bem profissional. Então compartilham com seus amigos no Zoom."

    "As crianças não tinham acesso à tela antes, e me superaram em poucos dias", contou Guss.

    Os céticos da tela veem isso como um momento apocalíptico. Muitos ativistas passaram anos lutando contra o aprendizado on-line nas escolas. A experiência cara a cara com os professores é insubstituível, argumentavam.

    "As empresas de tecnologia educativa agora estão se aproveitando disso e dizendo: 'Viu? A gente disse.' Muitas estão oferecendo seus serviços de graça agora. É o capitalismo do desastre", afirmou Emily Cherkin, consultora de tempo de tela em Seattle.

    Mas até mesmo alguns dos padrinhos do movimento de repúdio à tela estão mudando.

    Uma das vozes mais proeminentes nesta questão é Sherry Turkle. Durante anos, ela avisou que a tecnologia estava rasgando o tecido social. Escreveu o livro "Alone Together", sobre a dor social que vem de jantares em família silenciosos e pessoas andando, de queixo baixo, olhando para o celular.

    Agora, está dizendo que talvez parte do movimento que inspirou esteja focada na direção errada.

    "Acho que isso revela a questão do tempo de tela como uma ansiedade equivocada. Agora, forçados a ficar sozinhos, mas querendo ficar juntos, muitos estão descobrindo o que deve ser o tempo de tela", observou Turkle.

    A ideia deveria ser aprender e se conectar. Deveria ser humanizadora, disse Turkle. Todas essas happy hours no Zoom são um bom tempo de tela.

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