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    O enigma de O Preço da Ilusão - História sobre o desaparecimento do primeiro longa de SC é mais fascinante que o próprio filme

    Rodada em 1957, a primeira ficção produzida no Estado não tem mais que sete minutos guardados em São Paulo. A estreia em 1958 foi um dos maiores fiascos da história cultural catarinense

    29/10/2015 - 03h03 - Atualizada em: 29/10/2015 - 05h43

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    Por Redação NSC
    Diferentes hipóteses tentam explicar o sumiço do filme que tem apenas sete minutos preservados
    Diferentes hipóteses tentam explicar o sumiço do filme que tem apenas sete minutos preservados
    (Foto: )

    Primeiro longa-metragem de ficção feito no Estado, O Preço da Ilusão é também um dos maiores fiascos da história da cultura catarinense. Trágico se não fosse cômico. Rodado em 1957, o filme idealizado pelo vanguardista Grupo Sul estreou no ano seguinte superando negativamente a altíssima expectativa da população. Foi um estrondoso desastre. Mais trágico ainda é o que aconteceu depois: ele simplesmente desapareceu. Restaram apenas sete minutos e 15 segundos do original, guardados na Cinemateca Brasileira em São Paulo. Se alguém puder desvendar o mistério, que se pronuncie.

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    A estreia ocorreu em 18 de setembro de 1958 em cerimônia pomposa no extinto Cine São José, no Centro de Florianópolis. A plateia educada limitou-se a não vaiar os tantos erros de continuidade, os cortes fora de hora, o desaparecimento misterioso de um cacho de bananas durante um diálogo e a atriz que some de uma das cenas e não volta a aparecer. Produzido pelo catarinense Armando Carreirão e dirigido pelo gaúcho Nilton Nascimento, trazia duas histórias paralelas, a de uma funcionária pública que se candidata a um concurso de beleza e a de um menino que sonha em participar da brincadeira do boi de mamão.

    A produção tinha o propósito de ser uma resposta ao filme Rio 40 Graus, de Nelson Pereira dos Santos, conhecido como o "avô do Cinema Novo". O Preço da Ilusão chegou a ficar uma semana em cartaz, e o que se passou depois é incerto.

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    No Museu da Imagem e do Som de Santa Catarina (MIS/SC), a única referência ao longa é o dossiê feito pelo jornalista e diretor de cinema Marco Stroisch. Em 2001 ele foi atrás do paradeiro do longa e se debruçou em arquivos da época para desvendar o enigma. A pesquisa resultou no documentário O Filme que Ninguém Viu.

    Hipóteses para o desaparecimento

    1 - MARLY MARLEY

    Em São Paulo, a atriz, cantora e ex-vedete Marly Marley (1938-2014) buscava reconhecimento, e o produtor e amigo paulista Antônio Thomé teve a ideia de inserir cenas dela no meio do filme. Ele chamou o editor paulista Máximo Barra para fazer a segunda versão.

    - A edição na época era manual. Literalmente cortar os negativos e depois montar. Barra fez uma cópia em 16 mm e recortou o outro filme para fazer a nova montagem. O Thomé acabou brigando com a Marly Marley e ninguém viu a segunda versão - diz Marco Stroisch.

    2 - UM ATOR ATRAPALHADO

    Outra cópia teria ficado em Florianópolis. Em depoimento a Stroisch, o escritor Salim Miguel, responsável pelo roteiro junto com Eglê Malheiros, contou que um dos atores da produção, figura carimbada na cidade, vivia com problemas financeiros e um dia pediu a Armando Carreirão para projetar o longa em cidades do interior do Estado. Quando voltou, disse que o filme tinha pegado fogo e nunca mais se viu a cópia.

    3 - TV GAZETA

    Na década de 70, o diretor do filme, Nilton Nascimento, assistia em casa ao programa Cinema Brasileiro, na TV Gazeta, quando o então apresentador francês Pierre Lagousdis anunciou a exibição de O Preço da Ilusão. Era pos- sivelmente a cópia em 16mm feita por Máximo Barro. A emissora atualmente não tem nenhum registro sobre o longa, e a informação é a de que o ex-apresentador teria ficado com as latas. Procurado por pesquisadores, Lagousdis sempre negou.

    Os minutos finais

    Os minutos finais que estão na Cinemateca Brasileira foram descobertos por Salim Miguel nos anos 80. Numa visita à instituição, um funcionário disse ao escritor que reconhecia seu nome de um filme e mostrou então o último rolo de imagem. Naquela época a instituição recuperava-se de um incêndio recente. Não se sabe se as outras partes foram queimadas ou nunca existiram.

    - Os sete minutos que estão na Cinemateca provavelmente são da cópia que o Máximo Barros desmontou - diz Stroisch.

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    Para o cinéfilo e historiador catarinense Gilberto Gerlach, apesar do fiasco o longa tem importância histórica para Santa Catarina. Pelo menos 70% das imagens são externas, cenas de uma Florianópolis que já não existe mais.

    - O Preço da Ilusão marca o começo do cinema catarinense. Ironicamente tornou-se uma lenda. A história sobre o filme é mais curiosa do que o filme em si - diz Ana Lígia Becker, administradora do MIS/SC.

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