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Reportagem Especial

'O trauma ainda é muito forte', diz integrante da Comissão Estadual da Verdade sobre golpe militar

Naldi Otávio Teixeira tem a missão de examinar e esclarecer as violações de direitos humanos praticadas por motivação exclusivamente política no período

12/03/2014 - 05h32 - Atualizada em: 12/03/2014 - 05h39

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Por Redação NSC
Naldi Otávio Teixeira é integrante da Comissão Estadual da Verdade
Naldi Otávio Teixeira é integrante da Comissão Estadual da Verdade
(Foto: )

O advogado Naldi Otávio Teixeira é procurador do Estado e tem se debruçado na história de Santa Catarina desde 1946. Mas não como um estudioso ou um historiador. A missão dele e dos integrantes da Comissão Estadual da Verdade Paulo Stuart Wright (CEV) é examinar e esclarecer as violações de direitos humanos praticadas por motivação exclusivamente política no longo período de mais de quatro décadas, entre 18 de setembro de 1946 e 5 de outubro de 1988.

A comissão, criada em março do ano passado, está vinculada à Secretaria de Estado da Casa Civil de Santa Catarina, mas tem um trabalho intimamente ligado à Comissão Nacional da Verdade (CNV), nomeada pela presidente Dilma Rousseff em 2012.

Percorrendo Santa Catarina, ele e os membros da comissão estadual têm ouvido testemunhos que emocionam, que revoltam ou que se transformam no começo de um novo fio de história, uma nova investigação.

Todo o trabalho deve ser concluído com relatórios que serão enviados à CNV. Teixeira conversou com "A Notícia" antes de ele falar para o público que foi à Câmara de Vereadores no ato de comemoração dos 35 anos do Centro de Direitos Humanos (CHD) Maria da Graça Bráz.

A Notícia - Que dificuldades a Comissão da Verdade tem enfrentado em Santa Catarina para recontar essa história que começa mais de cinco décadas atrás?

Naldi Otávio Teixeira - A principal dificuldade é resgatar um passado muito longínquo. Muitas pessoas que podiam dar informações já se foram. Outras estão sofrendo com o mal de Alzheimer. Enfim, resgatar as memórias que, por vezes, são quase impossíveis. Este é o desafio. Mas, no geral, o trabalho tem sido exitoso. As comissões estadual e nacional têm obrigação de levantar os fatos desde setembro de 1946. É um período bastante longo.

AN - Qual o momento que o senhor considera emblemático?

Teixeira - Fizemos uma série de audiências públicas em Florianópolis e em algumas cidades do interior. Embora haja muitas prisões e relatos de tortura, um caso emblemático é o do próprio Paulo Stuart Wright, que foi cassado pelo Ato Institucional nº Cinco (AI-5), exilou-se no México, retornou clandestinamente ao Brasil e foi morto em Pernambuco. Mas há outros casos muito significativos para nós.

AN - Há sempre a crítica de que alguns documentos se perderam.

Teixeira - Sim. E há muitas pessoas que viveram na clandestinidade também. Mas é preciso entender que a clandestinidade, como garantia de liberdade, era fundamental na época. Hoje, claro que isso dificulta para que possamos chegar aos fatos, às pessoas. Muitas pessoas que usaram outros nomes foram enterradas com outros nomes. Isso é algo que se leva em conta.

AN - Algumas pessoas esperam que se faça justiça a partir do trabalho de vocês. Qual o resultado prático da comissão?

Teixeira - A comissão não julga. A comissão não tem atribuições jurisdicionais ou persecutórias. Ela colhe informações, colhe documentos, realiza audiências. O objetivo é resgatar a memória e a verdade histórica. Mas não julgar ninguém.

AN - Mesmo assim, alguns depoimentos prestados à comissão serão mantidos em sigilo?

Teixeira - Sim. Algumas pessoas fizeram as declarações para a comissão de forma sigilosa. E na hora que foi preciso fazer uma acareação ou uma oficialização, nem sempre essas pessoas estavam dispostas a reviver tudo. Imagina a sequela psicológica de uma tortura. O trauma ainda é muito forte. E não há nada que minimize.

AN - E os depoimentos dos joinvilenses, dos catarinenses?

Teixeira - Em alguns casos, será necessário observar o sigilo de documentos, dados e determinadas informações, de acordo com a lei. Ao final do trabalho, será feito um relatório com suas recomendações e há a intenção de criar um site para estes arquivos. A maioria de nós era muito jovem na época. Eu tinha 13 anos. É importante para toda a sociedade ter acesso a essas informações verdadeiras. Muitas delas, até, que foram distorcidas ao longo do tempo.

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