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    Pandemia pode afetar produção de petróleo do Mar do Norte

    As equipes das plataformas foram cortadas, em parte para reduzir custos, mas também para fornecer algum grau de distanciamento social nesses locais muitas vezes lotados, colocando esses empregos em risco

    06/05/2020 - 17h55

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    Por The New York Times
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    *Por Stanley Reed

    Durante décadas, as plataformas de petróleo do Mar do Norte, na costa da Escócia, forneceram ao Reino Unido centenas de milhares de empregos em uma indústria próspera, além de bilhões em impostos.

    Grande parte disso agora parece coisa do passado. O colapso nos preços do petróleo devido à pandemia do coronavírus e as infecções a bordo das plataformas de perfuração estão prejudicando a vasta indústria que se espalha pelas águas da Escócia e da Noruega.

    As companhias petrolíferas estão arquivando investimentos no valor de bilhões de dólares. As equipes das plataformas foram cortadas, em parte para reduzir custos, mas também para fornecer algum grau de distanciamento social nesses locais muitas vezes lotados, colocando esses empregos em risco. Pelo menos dois trabalhadores de plataformas testaram positivo para o coronavírus.

    "Passamos por oscilações de commodities e ciclos dessa natureza, mas este é diferente. Nunca vimos um mundo completamente fechado", disse Jim House, executivo-chefe da Neptune Energy, empresa de petróleo e gás apoiada por private equity, com produção em águas britânicas e norueguesas.

    Mais importante, porém, pode ser o impacto futuro da indústria de petróleo e gás do Mar do Norte. Sua saúde depende de encontrar novos campos submarinos e iniciar sua produção, mas, se os preços permanecerem baixos, como alguns analistas acreditam ser provável, isso não será realizado.

    O preço do petróleo bruto Brent, que recebeu o nome de um campo do Mar do Norte, caiu cerca de 70 por cento este ano, para pouco mais de US$ 20 por barril. Outro tipo bruto, o WTI, chocou a indústria quando chegou a um preço negativo.

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    "Há muitos campos não desenvolvidos no Mar do Norte", afirmou Alexander Kemp, professor de economia do petróleo na Universidade de Aberdeen, na Escócia. Ele observou que, com os preços muito baixos vistos este ano, muitos deles não serão viáveis.

    Se assim for, a vasta rede de empresas que depende da indústria, desde perfuradoras e instaladoras de tubulações submarinas até provedoras de alojamentos offshore conhecidos como floatels, poderia se atrofiar.

    A queda nos preços provavelmente terá implicações de grande alcance para a receita fiscal, o emprego e a prosperidade de cidades dependentes do petróleo, como Aberdeen. Desde a década de 1960, o antigo centro de pesca, com suas peculiares construções de granito em um porto movimentado, tem prosperado como um centro petrolífero.

    A cidade, com uma população de cerca de 200 mil habitantes, e sua região circundante superam tanto a Escócia quanto todo o Reino Unido em métricas como produção econômica per capita e emprego.

    Agora, os líderes locais dizem que a segunda queda acentuada da indústria petrolífera em seis anos pode acelerar as mudanças já em curso. Alguns trabalhadores estão se mudando para projetos de petróleo offshore em lugares como o Brasil ou Angola, onde suas habilidades são valiosas em campos mais novos. Outros estão se voltando para a energia mais limpa, como turbinas eólicas offshore e o hidrogênio.

    "Todos aceitam que haverá um grande impacto. Definitivamente, veremos uma ênfase maior na energia não fóssil", disse Barney Crockett, político do Partido Trabalhista que serve como prefeito de Aberdeen.

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    As águas britânicas ainda são produtivas, gerando 1,7 milhão de barris por dia – três quartos do consumo de petróleo britânico e metade de suas necessidades de gás natural. Mas os veteranos da indústria petrolífera do Mar do Norte agora dizem que o mundo que surge após a crise do coronavírus pode ser diferente – menos dependente de carros, aviões e outras coisas que incentivam a necessidade de petróleo.

    "A demanda voltará, mas não rapidamente. Podemos estar numa era em que a demanda por petróleo tenha atingido um pico", declarou Mike Tholen, diretor de sustentabilidade da Oil and Gas UK, que representa a indústria do Mar do Norte.

    Analistas dizem que os governos provavelmente continuarão a promover medidas para combater as mudanças climáticas cortando as emissões de dióxido de carbono, o que significa redução da demanda por petróleo.

    "As crises tendem a trazer tendências que já estavam em vigor", observou Martijn Rats, analista de petróleo do banco de investimentos Morgan Stanley.

    As petrolíferas já estão atrasando projetos que representam o futuro da região. A Siccar Point – empresa de perfuração apoiada pela Blackstone, a gigantesca gestora de fundos, e a Royal Dutch Shell, a maior companhia petrolífera da Europa – adiou recentemente o que foi considerado o principal projeto do Mar do Norte britânico este ano: a primeira fase, estimada em US$ 3 bilhões, de um campo chamado Cambo.

    "Faz sentido adiar a aprovação final até que alguma normalidade retorne ao mercado", escreveu em um comunicado o executivo-chefe da Siccar, Jonathan Roger. Analistas da empresa de consultoria Rystad Energy estimaram que o projeto exigiria cerca de mil engenheiros e técnicos.

    Os projetos estão sendo adiados não apenas por razões econômicas, mas por causa de preocupações com a segurança, dizem analistas.

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    Plataformas offshore são um foco de inquietação em meio à pandemia do coronavírus. Os trabalhadores são levados de helicóptero e passam turnos de duas a três semanas nas plataformas, dormindo em pequenos quartos às vezes compartilhados com um colega.

    A indústria começou a realizar verificações de saúde nos heliportos e a reduzir o número de funcionários nas plataformas. Normalmente, cerca de 11.500 trabalhadores estão nas plataformas a qualquer momento; esse número baixou para cerca de quatro mil, em parte para aliviar a aglomeração, mas os trabalhadores dizem que ainda não é fácil manter as regras recomendadas de distanciamento social.

    Os trabalhadores do petróleo "estão muito preocupados de estar em alto-mar", disse John Boland, autoridade regional escocesa do sindicato Unite, que representa os funcionários da indústria.

    Em dois de abril, um trabalhador que ficou doente e mais tarde testou positivo para o coronavírus foi transportado de helicóptero de Clair Ridge, um campo da BP em águas ao norte da Escócia. A BP interrompeu temporariamente a perfuração para isolar os outros funcionários. (O trabalhador já foi liberado do hospital.)

    A pandemia é o segundo choque para a região em apenas seis anos. Depois que os preços do petróleo caíram em 2014, os operadores britânicos do Mar do Norte reduziram os custos e os lucros aumentaram, mas o investimento é de cerca de um quarto dos níveis de 2014. O número de empregos da indústria petrolífera – cerca de 270 mil – é apenas 60 por cento do que era em 2013.

    Neivan Boroujerdi, analista da Wood Mackenzie em Edimburgo, na Escócia, informou que os investidores estão agora fugindo do petróleo, especialmente das águas britânicas, onde os custos de produção são relativamente altos. Empresas como Chevron e ConocoPhillips haviam vendido participações na área antes do último colapso de preços. "O Mar do Norte tem o desafio de atrair qualquer tipo de capital", disse Boroujerdi.

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    Operadores em águas norueguesas a curta distância de Aberdeen também estão reduzindo os custos, mas Boroujerdi afirmou que a Noruega tem mais petróleo e gás em seus campos do que o Reino Unido. O punhado de empresas que dominam essa área, lideradas pela Equinor, controlada pelo Estado, provavelmente tentaria proteger os investimentos noruegueses, amortecendo o golpe da turbulência no mercado, disse ele.

    Sir Ian Wood, que ajudou a estabelecer o Mar do Norte como uma fonte vital de petróleo, vem tentando há vários anos preparar a região para o inevitável declínio da indústria que ajudou a criar.

    No fim da década de 1960, quando a perfuração começou na região, Wood, que trabalhava para uma empresa familiar de reparo de navios, começou a se dedicar a equipamentos de petróleo. Ele transformou a empresa agora chamada Wood em uma empreiteira global de energia e se tornou um dos habitantes mais ricos da Escócia.

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    Wood, de 77 anos, que se aposentou como presidente, agora pensa além do petróleo. Por meio de sua fundação familiar, ele está financiando uma organização chamada Opportunity North East, que visa aproveitar ao máximo as habilidades da região em novas áreas como turbinas eólicas offshore e hidrogênio.

    "Isso deve, em teoria, continuar para sempre, se a energia renovável for o que dizem que é", disse ele.

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