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    Passageiros desaparecem e companhias aéreas enchem aviões com carga

    As mercadorias que as pessoas e as empresas enviam por via aérea mudam sazonalmente, mas são tipicamente caras, perecíveis, urgentemente necessárias ou alguma combinação disso

    05/06/2020 - 13h05

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    Por The New York Times
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    *Por Niraj Chokshi, Felix Schmitt e Tom Jamieson

    A maioria dos aviões de passageiros hoje voa praticamente vazia, mas, quando o voo VS251 da Virgin Atlantic pousou no aeroporto de Heathrow, perto de Londres, em uma tarde nublada no fim de abril, a maioria de seus 258 lugares estava ocupada.

    Mas ninguém estava violando as recomendações de distanciamento social. Os assentos, juntamente com o compartimento de carga do avião, estavam carregados com suprimentos médicos. Esse voo foi um dos nove que a Virgin fez em abril usando aviões de passageiros – sem passageiros – para transportar ventiladores pulmonares, máscaras, luvas e outras necessidades médicas entre Xangai e Londres.

    Foi um dos exemplos mais nítidos de como a pandemia interferiu completamente na economia do setor. As companhias aéreas há muito transportam cargas junto com passageiros, mas nunca fez sentido usar seus aviões exclusivamente para carga. Isso mudou em março. À medida que as empresas eliminavam milhares de voos, o espaço de carga se tornava escasso e o preço do envio de mercadorias de avião aumentava, criando uma oportunidade econômica para o reaproveitamento de aviões de passageiros parados.

    "O negócio de cargas está mantendo no ar as aeronaves que de outra forma estariam estacionadas, e nos deu mais esperança de que poderemos sair disso", disse Dominic Kennedy, chefe de operações de carga da Virgin.

    Antes do fim de março, a Virgin nunca havia usado um avião de passageiros para fazer uma viagem exclusivamente de carga. Agora, está operando 90 voos por semana, mesmo tendo feito cortes profundos em seus negócios. (O fundador da Virgin, Richard Branson, até prometeu hipotecar sua ilha pessoal do Caribe para ajudar a preservar empregos.)

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    A Virgin não está sozinha ao vislumbrar um caminho incerto pela frente. Nos Estados Unidos, as três maiores companhias aéreas começaram a fazer voos somente de carga em março. A American Airlines não fazia isso havia mais de três décadas. Agora, tem 140 por semana.

    Até a alemã Lufthansa, que há muito opera um negócio separado somente para cargas, aproveitou a oportunidade e converteu seus aviões de passageiros Airbus A330 para que pudessem ser usados no transporte de mercadorias. Em abril, a companhia aérea fez várias viagens usando esses aviões adaptados para transportar produtos médicos da China para Frankfurt, na Alemanha, inclusive um saindo de Xangai.

    As mercadorias que as pessoas e as empresas enviam por via aérea mudam sazonalmente, mas são tipicamente caras, perecíveis, urgentemente necessárias ou alguma combinação disso. Elas incluem itens como smartphones, peças automotivas, frutos do mar, produtos farmacêuticos, correio, pacotes e até blusas, camisas e outros artigos de vestuário. Mas uma nova categoria de bens surgiu nos últimos meses: suprimentos médicos.

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    "Máscaras, luvas, ventiladores e afins causaram pico de demanda com seus grandes volumes, mas isso não quer dizer que outros produtos ou outras mercadorias tenham desaparecido", afirmou Harald Gloy, diretor de operações da Lufthansa Cargo, o braço de carga da companhia aérea de passageiros.

    Em circunstâncias normais, cerca de metade de todo o transporte aéreo é feito em aviões de carga operados por empresas como UPS, FedEx e DHL. A outra metade é normalmente transportada nas entranhas dos aviões, abaixo da cabine onde estão os passageiros. Mas estes não são tempos normais.

    A interrupção da maioria dos voos em todo o mundo em março contribuiu para um declínio de quase 23 por cento no armazenamento de carga aérea, de acordo com a Associação Internacional de Transporte Aéreo. Mas a demanda caiu 15 por cento.

    Essa diferença entre a oferta e a demanda – juntamente com um aumento nos descontos dos preços dos combustíveis para jatos – chamou a atenção dos executivos das companhias aéreas. "É o ponto positivo da indústria, porque é a única parte que está operando e garantindo receita", declarou a repórteres Alexandre de Juniac, chefe da Associação Internacional de Transporte Aéreo.

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    Em todo o mundo, o preço médio para enviar um quilo de carga por via aérea foi de US$ 3,63 no mês passado, um aumento de 65 por cento em relação a março, de acordo com o WorldACD, um provedor de dados que compila dados de frete de 70 companhias aéreas membros. Esse número foi tanto o maior registrado quanto o maior aumento mensal desde pelo menos janeiro de 2008, quando o WorldACD começou a coletar dados mundiais consistentes e confiáveis.

    O preço do frete proveniente da Ásia disparou, impulsionado pela demanda por suprimentos médicos produzidos nas fábricas de lá, que lentamente voltaram a funcionar à medida que a região emerge dos bloqueios, de acordo com o WorldACD. Mas, com a economia global abalada, a demanda por mercadorias pode cair rapidamente, e as taxas de frete junto com ela.

    Até lá, as companhias aéreas de passageiros continuarão oferecendo voos de carga, e a IATA está pedindo aos governos em todo o mundo que façam mais para ajudar. Em particular, o grupo pediu a estes que acelerassem a aprovação de voos de carga, isentassem as tripulações de voo de restrições de quarentena e ajudassem as companhias aéreas a encontrar instalações para processar cargas e locais para as tripulações descansarem.

    Nos EUA, as companhias aéreas demoraram a usar cabines de avião para transportar carga, como a Lufthansa tem feito em alguns casos, porque aguardavam a aprovação da Administração Federal de Aviação. A agência apresentou os passos que as transportadoras devem tomar para usar esse espaço com segurança.

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    Na Lufthansa, cada voo de carga tem três comissários de bordo, em comparação com os 15 normalmente necessários para atender os passageiros. Eles estão lá para garantir que as mercadorias não se desloquem nem peguem fogo durante o voo, explicou Gloy, da Lufthansa. "No convés inferior, há um sistema de detecção de incêndio no compartimento, que não é o mesmo da cabine de passageiros, porque geralmente há passageiros que fazem as observações", disse ele.

    Ainda assim, converter rapidamente aviões de passageiros em veículos de transporte de carga não é fácil, uma lição que a Lufthansa aprendeu da maneira mais difícil. Décadas atrás, a empresa experimentou o uso de um Boeing 737 para transportar passageiros durante o dia e carga durante a noite, removendo e recolocando os assentos todos os dias, de acordo com Gloy. Por fim, a Lufthansa decidiu que o esforço necessário para usar aviões com ambos os fins não valia a pena. "Isso não era sustentável do ponto de vista econômico, por certo, mas também técnica e operacionalmente", observou ele.

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    Hoje, no entanto, o uso aviões de passageiros para transportar carga faz sentido, e tem oferecido um mínimo de esperança às companhias aéreas. É claro que a lógica econômica desses voos pode ser passageira.

    "A crise de capacidade será, infelizmente, um problema temporário. A recessão provavelmente atingirá a carga aérea pelo menos tão severamente quanto o resto da economia", disse Juniac, o diretor executivo da Associação Internacional de Transporte Aéreo.

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