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Entrevista

Psiquiatra desembarca em Florianópolis para falar sobre os principais temas da sexualidade

Evento pretende discutir os principais tabus e atualizar os profissionais da saúde sobre os temas

20/10/2016 - 07h54 - Atualizada em: 21/10/2016 - 08h38

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Por Redação NSC
(Foto: )

Com a palestra 5 Hot Topics em Sexualidade na Atualidade, a psiquiatra Alessandra Diehl chega a Florianópolis nesta quinta-feira para falar dos temas mais discutidos nos últimos tempos sobre a sexualidade humana, em um evento voltado para médicos e acadêmicos da saúde.

Ao discutir assexualidade, gêneros não-binários, BDSM (Bondage, Disciplina, Dominação, Submissão, Sadismo e Masoquismo), abuso sexual e a saída da transexualidade como transtorno mental, a médica especialista em sexualidade, busca desconstruir ideias, introduzir novos conceitos e ampliar a forma de pensar dos profissionais. Segundo ela, as questões tratadas como tabu pela sociedade também são vistas com preconceito dentro dos consultórios. Confira a entrevista completa com a psiquiatra Alessandra Diehl.

Por que tratar sexualidade em um seminário de psiquiatria?

R: Não vamos só falar de sexo. Vamos falar de sexualidade, que é um universo muito mais amplo. Normalmente as pessoas entendem só como relação sexual. Mas temos a obrigação de falar dentro do universo da psiquiatria, pois são temas que estão no cotidiano de qualquer profissional da saúde.

Ser saudável sexualmente tem relação com qualidade de vida?

R: Tem tudo a ver. Aliás, isso é um marcador da Organização Mundial da Saúde. E uma das questões para você se considerar saudável ou bem resolvido, digamos assim, é se sentir adequado. Pois bem, estar sexualmente saudável é não ter sofrimento com estas questões.

Um dos itens da sua palestra será sobre assexualidade, certo? As pessoas assexuais também podem ter qualidade de vida sem sexo?

R: Sim, para elas não fazer sexo é normal, é adequado. Essas pessoas não sentem desejo sexual por essas pessoas, mas não quer dizer que elas não queiram ter relacionamento amoroso com outras pessoas, por exemplo. A gente vive numa sociedade sexo-normativa. É como se todo mundo tivesse que fazer sexo e aquele que não faz deve estar com algum problema, mas não é assim que os profissionais devem encarar.

Você também falará sobre pessoas que não se encaixam em nenhum gênero, né? Para entendermos melhor, o que são os não-binários?

R: São pessoas que transitam entre os dois gêneros. Eles querem se expressar assim. Este item da palestra fala sobre a teoria da estudiosa Judith Butle. Ela diz que gênero é uma construção social. E nós como terapeutas não temos que obrigar estas pessoas a entrarem em um modelo. Isso é mais um spectrum da sexualidade humana.

Outro tema tratado na sua palestra será o abuso sexual infantil. Podes falar um pouco sobre isso?

R: É um dos temas que a sociedade e educadores devem ficar alerta. Além dos números de abusos serem altíssimos, pessoas que são abusadas na infância têm mais chance de vir a ser novamente vitimizada na vida adulta, ou se tornar abusador. Essas pessoas também podem sofrer um grande impacto quando crescerem, como terem depressão, usarem drogas ou serem violentas. Por isso é um tema bastante atual e que os profissionais precisam sempre olhar.

Você acha que o grande número de abusos infantis têm relação com o mundo em que vivemos e as relações que as pessoas tem umas com as outras?

R: Não, eu acho que isso sempre existiu. O que acontece é que agora nós estamos reconhecendo que isso é uma questão importante. Além disso, essa questão é um problema de saúde pública e de violação de direito.

Na sua palestra você também fala sobre dominação, submissão e até onde a prática pode ser considerada uma doença. O que você vai pretende discutir na palestra?

R: Eu vou falar sobre o BDSM, (Bondage, Disciplina, Dominação, Submissão, Sadismo e Masoquismo), que é uma prática que muito provavelmente deixará de ser tratada como transtorno. Na palestra eu vou tratar de dizer que sim, essa prática existe. Mas o que temos que debater sobre até que ponto essa prática passa a ser violência.

Qual é sua opinião sobre o assunto?

R: Eu acho que a gente ainda precisa ampliar a evidência científica de algumas destas práticas para de fato afirmar que é uma prática sexual variante. Principalmente aquelas que envolvem violência e que ficam no limite do que é segurança. Sem falar de que muitas destas práticas possuem conotações machistas e isso abre espaço para uma discussão feminista.

Outro assunto bastante atual que será tratado na sua palestra é a transexualidade. As pessoas transexuais, quando procuram auxilio médico normalmente são tratadas de forma vexatória. Como mudar esse tratamento?

R: É preciso começar com educação sexual e de gênero na escola, e também fortemente dentro da faculdade de medicina.

Você também falará sobre "Amor bandido" em um segundo encontro, na manhã de sexta, certo. Sobre o que será?

R: Eu vou trazer dois casos clínicos de mulheres que buscaram seus relacionamentos amorosos com presidiários. E o que eu vou tentar discutir na palestra é o que isso demanda para os médicos. A pergunta que a gente se faz é por qual motivo essas mulheres, que são livres, se interessam por alguém que está dentro do universo prisional. E é isso que vamos discutir na sexta.

Promovido pela Associação Catarinense de Psiquiatria, a XIV Jornada Catarinense acontece até a tarde de sexta-feira no Centro de Eventos da ACM, em Florianópolis. Veja a programação completa aqui.

Serviço:

XIV Jornada Catarinense de Psiquiatria

Quando: 20 a 22 de Outubro de 2016

Local: Centro de Eventos ACM, em Florianópolis

Endereço: Rod. SC 401 - Km 04, 3854 - Saco Grande - Florianópolis

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