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    Putin fala, autoridades ignoram e médicos se sentem perdidos

    Na região sul de Krasnodar, um médico-chefe amplamente respeitado de um hospital foi demitido depois que sua equipe organizou um pequeno protesto

    09/06/2020 - 17h44

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    Por The New York Times
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    *Por Andrew Higgins

    Moscou – Atacado por críticos como um líder ausente no início da crise do coronavírus na Rússia, o presidente Vladimir Putin ressurgiu na televisão estatal em abril para mostrar que se importava e que estava assumindo o comando.

    Ele prometeu um bônus em dinheiro de até US$ 1.100 por mês para cada médico, cada enfermeiro e para outros profissionais de saúde "na linha de frente" da luta contra o vírus.

    Mas, para um líder todo-poderoso cujas palavras devem ser vistas como uma ordem, Putin teve uma dificuldade surpreendente para fazer sua voz ser ouvida.

    Mais de um mês depois de seu pronunciamento, o dinheiro ainda não chegou para muitos. Em vez disso, alguns médicos receberam visitas de investigadores e policiais exigindo saber por que reclamavam publicamente sobre o não recebimento de seus bônus.

    Uma promessa destinada a mostrar a maior conquista de Putin – a revitalização do Estado russo após o caos dos anos 1990 – afundou em um pântano de recriminação, intimidação do serviço de segurança e complexidade burocrática.

    "Isso é uma piada? Infelizmente, não", escreveu Dmitri Drize, editor que vive em Moscou, em um comentário contundente sobre a bagunça que se desenrola.

    Ele disse que nem os inimigos estrangeiros da Rússia nem seu principal líder da oposição, Alexei Navalny, "são capazes de prejudicar a imagem do Estado tanto quanto seus próprios gestores".

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    O Kremlin detém mais de US$ 500 bilhões em vários fundos para épocas de necessidade; portanto, Putin tem todo o dinheiro de que precisa para cumprir suas promessas. Mas, em um sistema repleto de corrupção, muitas autoridades vivem com medo permanente de ser criticadas, ou pior, investigadas, por gastar dinheiro do Estado não incluído em seus orçamentos previamente aprovados.

    Assim, quando foi preciso repassar o dinheiro, eles hesitaram, tomaram a liberdade de fazer deduções de acordo com o tempo que os profissionais de saúde gastaram com pacientes que não tivessem Covid-19, ou talvez até mesmo tenham desviado parte do dinheiro.

    Na região sul de Krasnodar, um médico-chefe amplamente respeitado de um hospital foi demitido depois que sua equipe organizou um pequeno protesto. Ele está agora sob investigação pelo equivalente russo do FBI por negligência criminal.

    Um médico na cidade vizinha de Abinsk, que ajudou a organizar queixas públicas sobre o não pagamento do bônus de Putin, recebeu uma carta da polícia avisando que ele enfrentaria um processo por "realizar atividades extremistas".

    Yulia Volkova, médica de Krasnodar que lidera a filial local da Aliança dos Médicos, um sindicato independente alinhado a Navalny, contou que os trabalhadores médicos estavam animados com a promessa de dinheiro extra de Putin. Agora, porém, estão "com medo de ser investigados" se reclamarem das ordens do presidente que não são cumpridas, disse ela.

    Em alguns casos, no entanto, os promotores tomaram o lado dos médicos que protestavam. A promotoria de Simferopol, capital da Crimeia, anexada pela Rússia em 2014, disse que investigou denúncias de não pagamento e as considerou justificadas. Ordenou que as autoridades locais pagassem.

    Em Nizhny Novgorod, outra região onde muitas equipes médicas não receberam o dinheiro prometido, o ministro regional da Saúde, David Melik-Husyenov, acusou a oposição de usar "truques sujos" para expor as falhas da burocracia. "Inventar essas narrativas é imoral", declarou.

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    Putin, desempenhando um de seus papéis favoritos – de pai atencioso e severo da nação minada por burocratas –, recentemente se enfureceu em uma teleconferência dizendo que autoridades em muitos lugares não haviam acatado sua ordem.

    "Dei números específicos para esses pagamentos para os médicos, para a equipe de enfermagem, para toda a equipe médica, para equipes de ambulância e assim por diante", disse Putin. Em vez disso, continuou ele: "Fizeram uma bagunça burocrática, contando o número de horas trabalhadas em algum tipo de relógio. Por acaso mandei usar um relógio ou algo assim? Não!"

    Ele disse que 29 regiões haviam ignorado sua ordem e que menos da metade dos trabalhadores médicos em todo o país havia recebido o dinheiro prometido. Ordenando que seu programa fosse seguido, Putin trovejou: "Peço-lhes que tenham em mente que vou verificar pessoalmente a situação dessa questão em todas as regiões da Rússia."

    Grande parte da culpa pelos bônus não pagos agora recaiu sobre a equipe do primeiro-ministro Mikhail Mishustin, que passou grande parte do mês de maio no hospital, recuperando-se da Covid-19.

    O primeiro-ministro reclamou, em uma teleconferência com autoridades que foi exibida na televisão, que os documentos necessários para transformar a promessa de Putin em ação não haviam sido redigidos adequadamente, o que deixou muito espaço para que os responsáveis regionais evitassem o pagamento.

    Um dos primeiros sinais de que o programa de bônus de Putin estava saindo dos trilhos veio no início de maio, quando motoristas de ambulância, paramédicos e outros se reuniram do lado de fora do principal hospital em Armavir, cidade na região sul de Krasnodar. "Não recebemos nada. Nem um rublo, nem um copeque", cantaram.

    Um vídeo de seu protesto apareceu on-line, incentivando ações semelhantes em todo o país. O governador de Krasnodar, Veniamin Kondratyev, respondeu que estava ciente de "muitas queixas" de não pagamento e prometeu "investigar a situação em detalhes" para garantir que a promessa de Putin fosse cumprida.

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    Uma comissão oficial foi então enviada para investigar o hospital de Armavir e rapidamente encontrou um bode expiatório: o médico-chefe, Sergei Smirnov. Acusado de não preencher a papelada necessária a tempo, ele foi apontado como o principal culpado nos meios de comunicação controlados pelas autoridades regionais.

    As notícias de que Smirnov havia sido demitido provocaram mais protestos da equipe médica exausta e irritada.

    Um grupo de enfermeiros se reuniu perto do hospital de Armavir para elogiar Smirnov, dizendo que ele havia trabalhado duro para garantir que sua equipe tivesse equipamento de proteção adequado, e para avisar, nas palavras de uma enfermeira furiosa, que "sem ele o trabalho vai parar".

    Vladimir Lotnik, residente que assinou uma petição protestando contra a demissão de Smirnov, afirmou que as autoridades estavam tentando se proteger, culpando os impotentes. "Um peixe começa a apodrecer pela cabeça", declarou.

    Nikolai Petrov, cientista político, classificou a revolta e o desânimo públicos de Putin em relação aos bônus basicamente como teatro. "Ele está tentando mostrar que é o mocinho, mas está perdendo popularidade e continuará a perder", assegurou Petrov.

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    Uma pesquisa de opinião do Levada Center, uma organização independente em Moscou, descobriu que o índice de aprovação do presidente caiu no mês passado para 59 por cento, seu nível mais baixo desde que chegou ao poder em 2000. Seu maior índice de aprovação, quase 90 por cento, veio depois que a Rússia tomou a Crimeia da Ucrânia em 2014.

    Depois de quase dois meses preso em sua residência campestre nos arredores de Moscou, Putin ficou tão isolado, na opinião de Petrov, que "corre o risco de voltar a um país mudado depois que a pandemia acabar".

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