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CIENTISTAS

Quando o coronavírus fecha o laboratório, a ciência pode continuar?

O que os cientistas podem fazer quando é hora de colocar alguns de seus experimentos em compasso de espera? 

31/03/2020 - 17h14

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Por The New York Times
cientista
(Foto: )

*Por Vários Autores

Nas últimas semanas, o coronavírus levou à paralisação de muitos campi universitários e outras instituições de pesquisa e educação nos Estados Unidos e em todo o mundo.

Há sempre o trabalho que você pode fazer em casa. Mas partes do processo científico só podem ser concluídas em laboratório, ou em outro local onde se realize trabalho de campo ou outra pesquisa prática. O que os cientistas podem fazer quando é hora de colocar alguns de seus experimentos em compasso de espera?

Aqui está uma série de histórias de todo o mundo sobre como professores, alunos de pós-graduação e outros nas ciências estão lidando com os efeitos do coronavírus na vida e no trabalho.

Jogando fora as moscas das frutas

O laboratório de física de Itai Cohen na Universidade Cornell em Ithaca, Nova York, usa moscas das frutas geneticamente modificadas para estudar como os insetos voam. Seu bater das asas é um movimento instável que requer ajuste muscular constante.

Normalmente, as moscas vivem a vida normal de uma mosca. Mas seu sistema nervoso foi geneticamente alterado. Aponte uma luz vermelha para algumas, e isso vai ativar um neurônio de interesse; a luz verde desligará um neurônio.

"Então, de repente, elas não podem fazer o que faziam antes, e vemos qual é a diferença. Algumas caem quando estão voando. Outras dão voltas. Há as que começam a rolar", disse Cohen.

Com o encerramento da pesquisa em Cornell, cerca de um mês de criação de moscas terá de ser jogado fora. Os pesquisadores não precisarão começar do zero mais tarde; eles armazenam mais moscas em geladeiras, mas alguém terá de ir ao laboratório a cada duas semanas para vê-las e alimentá-las.

Até que esse trabalho possa ser retomado, eles têm outras atividades. "Espero que tenhamos mais trabalhos escritos durante esse tempo. Essa é a visão otimista", afirmou Cohen.

Mas a pesquisa não é sua maior preocupação. Sua esposa está grávida, e o parto está previsto para o fim de abril, quando a pandemia do coronavírus pode estar atingindo o pico. "Em um mês, todos os leitos da maternidade estarão desviados para outro uso?", perguntou ele.

Eles estão planejando que ela dê à luz em casa.

– KENNETH CHANG

Não dá para estudar tecido de coelho em casa

Lauren Boller sabia que seu laboratório na Universidade Vanderbilt fecharia quando um aluno de graduação voltou para o Tennessee das férias de primavera e deu positivo para o coronavírus.

Boller, candidata ao quarto ano de doutorado, estuda as propriedades de estruturas projetadas de tecidos ósseos. Ela e seus colegas de laboratório começaram a tomar medidas para se preparar para o fechamento. Ela congelou suas células-tronco humanas e descartou alguns experimentos que levariam dois meses para serem concluídos.

Infelizmente, estes eram os últimos experimentos de que ela precisava para completar dois trabalhos que planejava submeter para publicação. Outro experimento em andamento envolvia testes com tecidos de coelho – algo que não poderia ser feito fora do laboratório.

No domingo, ela foi ao laboratório para recuperar dados de um computador. "O laboratório tem um software que não posso baixar de graça", contou ela. Custa alguns milhares de dólares. "Meu gerente de laboratório disse: 'Não, não, não, não. Vá para casa e leve o computador com você para usá-lo nas próximas semanas/meses.'"

Então, Boller carregou a CPU pelos 800 metros até onde seu carro estava estacionado. Ela planeja passar as próximas semanas analisando os dados de que precisa.

Boller está ansiosa para voltar ao laboratório assim que as restrições acabarem. Interromper os experimentos atrasa não só sua capacidade de submeter seus trabalhos, mas também sua capacidade de se graduar. "Na pesquisa, sempre há a questão de quando algo será feito, porque sempre há contratempos", disse. Ela terá de trabalhar em um ritmo acelerado quando o laboratório reabrir. Por enquanto, está fazendo o melhor possível, analisando seus dados e começando a escrever.

– WUDAN YAN

Brilhando em uma época escura

Felizmente para o plâncton brilhante sob seus cuidados, David Gruber, um biólogo marinho, vive a apenas seis quadras de seu laboratório de pesquisa.

Mesmo com os campi da City University of New York fechados, Gruber disse que continuará cultivando seus súditos: cerca de cem frascos de dinoflagelados bioluminescentes. "Temos de colocar tudo em espera, mas não queremos deixar o laboratório sem vigilância por um mês."

As duas espécies de plâncton minúsculo que ele está estudando iluminam as baías bioluminescentes de Porto Rico. Para mantê-las saudáveis, ele vai colocar lotes frescos de água do mar artificial a cada poucos dias e garantir que eles permaneçam em um ciclo rigoroso de 12 horas de luz e fases escuras. E também vai verificar outros organismos biofluorescentes coletados durante expedições de mergulho em partes remotas do mundo, agora armazenados em um freezer a -115 ºC. Se as culturas se perdessem, a equipe teria de recomeçar seu estoque do zero.

Os pesquisadores não serão capazes de realizar novos experimentos tão cedo; por isso, na sexta-feira, os outros quatro membros de seu grupo – que estão tentando decifrar a sinfonia química orquestrada por algas marinhas, crustáceos e corais brilhantes – coletaram material para analisar em casa. "Foi um momento frenético. Vamos tentar tirar tudo o que pudermos dos dados existentes. Acho que temos o suficiente para seis meses de trabalho – mas não será muito fácil", afirmou Gruber.

Durante a pandemia, disse ele, a experiência do grupo de pesquisa também poderia ser aproveitada por funcionários da saúde pública que precisam de microbiologistas. "Gostaríamos de fazer o possível para ajudar", declarou Gruber.

– MARION RENAULT

Colocando a evolução no freezer

Desde 1988, uma dúzia de colônias de bactérias E. coli – isoladas umas das outras – viveram e mutaram por mais de 70 mil gerações. Conhecido como Experimento de Evolução de Longo Prazo, o projeto era um exemplo único da evolução em ação.

As colônias começaram do mesmo jeito. Mas, ano após ano, se replicaram cada vez mais rápido, cada uma impulsionada por diferentes mutações.

Em nove de março, porém, a evolução foi colocada no congelador.

Richard Lenski, que fundou o experimento e o dirige na Universidade Estadual do Michigan, estava de olho no crescente número de casos de coronavírus desde janeiro. "Penso na matemática das populações o tempo todo", disse ele.

Todos os dias, um estudante de pós-graduação deve coletar uma gota de cada colônia de E. coli em um novo frasco, juntamente com nutrientes. Mas, em vez de transferi-lo para um novo frasco na segunda-feira passada, o E. coli entrou em um freezer a -80 ºC.

Isso interromperá um ponto focal recente da pesquisa do laboratório. Foi uma grande surpresa, em 2003, quando uma colônia evoluiu e começou a comer citrato, um composto que as outras colônias não conseguiam metabolizar. Mas, nos últimos meses, o laboratório estava estudando como alguns dos comedores de citrato ainda ficavam doentes por causa do composto e morriam, mesmo que isso lhes permitisse acessar mais alimentos. "Ainda estamos tentando entender o que está acontecendo lá", comentou Lenski.

Mesmo com o experimento suspenso, as colônias podem voltar a evoluir cerca de um dia depois do descongelamento. E depois disso?

"O objetivo é continuar enquanto houver humanos", disse Lenski.

– JOSHUA SOKOL

O museu está fechado

Kiersten Formoso tinha planejado passar suas férias de primavera no Museu de História Natural de Los Angeles, maravilhando-se com mosassauros, plesiossauros e baleias antigas.

"Eu ia pegar uma escada e tirar fotos muito bonitas de ângulos superiores", disse Formoso, aluna do segundo ano de pós-graduação que estuda paleontologia de vertebrados na Universidade do Sul da Califórnia. Ela também queria medir membros e outros ossos de mamíferos marinhos extintos há muito tempo existentes nas coleções do museu.

Seus planos estão agora congelados no tempo, como os espécimes fossilizados que ela esperava analisar.

"Finalmente, cheguei ao ponto em que estava pronta para começar minha coleta de dados, e esse vírus fez a porta se fechar bem na minha cara."

O museu fechou para funcionários não essenciais, incluindo alunos de pesquisa como Formoso. Isso a impedirá de prosseguir com alguns de seus trabalhos sobre como animais com ancestrais que já viveram em terra evoluíram e foram para a água, como leões-marinhos e peixes-boi.

Era para ser o início da pesquisa que ela esperava apresentar na reunião anual da Sociedade de Paleontologia de Vertebrados no fim do ano. Mas o prazo para submissões é 30 de abril, e ela espera que a sociedade o prorrogue.

"Caso contrário, não sei o que vou fazer. Não tenho nenhuma pesquisa para submeter."

– NICHOLAS ST. FLEUR

O trabalho que continua

Os administradores do Instituto de Tecnologia de Massachusetts ordenaram a diminuição da pesquisa no campus no último fim de semana, começando na semana passada."Há estudantes de pós-graduação por todo o campus correndo para concluir experimentos. Esperamos reduzir a densidade de pessoas no laboratório para dez por cento a 20 por cento do que é agora", contou Maria T. Zuber, vice-presidente de pesquisa.

Existem algumas exceções – trabalho diretamente relacionado ao novo coronavírus, manutenção de equipamentos caros, como microscópios que operam a temperaturas criogênicas para observar as menores moléculas, e experimentos de longo prazo para os quais amostras importantes ou grandes quantidades de dados seriam perdidos se fossem interrompidos.

"Se alguém tivesse um experimento que precisasse coletar dados de 18 meses, tendo passado um ano no processo, isso seria uma alta prioridade para a continuação, para que você não perca o valor do ano de dados que tem. É assim que pensamos", disse Zuber.

Ela disse que também haveria consideração pelos estudantes de pós-graduação próximos de terminar sua pesquisa de doutorado ou pesquisadores de pós-doutorado que estão prestes a entrar no mercado de trabalho.

E muitas pesquisas podem ser sustentadas por cientistas em casa, e não no escritório.

"Muito do trabalho que se faz no campus é computacional e analítico, e não usa um laboratório no qual você tem de estar. Por exemplo, fazemos observações de telescópios do Havaí", explicou Zuber.

Ela espera que muitas reuniões em grupo continuem por videoconferência, e que os pesquisadores façam o trabalho da ciência moderna: escrever artigos e propostas de bolsas de estudos.

"O MIT não tem o tipo de pessoas que estão ansiosas por férias remuneradas. Elas querem fazer seu trabalho", afirmou Zuber.

– KENNETH CHANG

Pagamentos por projetos

Sempre que Max Liboiron tem de tomar decisões sobre o Laboratório Cívico de Pesquisa de Ação Ambiental, um laboratório de monitoramento de poluição plástica que lidera em North Labrador, no Canadá, ela olha para três princípios: "Equidade, humildade e relações de terra anticoloniais." Em tempos normais, isso significa coletar amostras de frutos do mar ao lado de pescadores locais e realizar reuniões comunitárias sobre as descobertas do laboratório.

Na época do coronavírus, isso significa manter os salários chegando. A maioria dos membros do laboratório, que é afiliado à Universidade Memorial, são graduandos e pagos por hora. "Se eles não trabalham, não comem nem pagam o aluguel. Eu tinha de encontrar uma maneira de manter o laboratório funcionando em quantidades semelhantes de horas, fazendo um trabalho totalmente diferente", disse Liboiron.

Parte disso virá das ONGs e dos governos que geralmente contratam o laboratório CLEAR para monitorar determinadas áreas, mas agora estão felizes em aceitar revisões de literatura e análises estatísticas.

Nada disso envolverá testes de amostras de microplásticos. "Perderemos prazos", contou Liboiron. Ela prevê que alguns projetos nunca serão concluídos, porque o dinheiro que deveria ser usado para eles será usado para os salários.

Mas é assim que o laboratório deve funcionar, disse Liboiron: "É uma decisão fácil, mesmo que resulte em menos ciência."

– CARA GIAIMO

Quando o trabalho de campo põe o campo em risco

O desenvolvimento de Bangalore em centro tecnológico da Índia melhorou o padrão de vida de milhões de pessoas. Mas os efeitos dessa urbanização nas regiões agrícolas circundantes da cidade são menos claros. Esse foi um assunto que Pramila Thapa, aluna de pós-graduação que estuda os impactos da urbanização nos sistemas agrícolas nas Universidades de Kassel e Göttingen, na Alemanha, esperava estudar.

"Tudo foi criado para uma pesquisa social em larga escala. Desenvolvemos um questionário, identificamos 60 aldeias e cidades com um total de 1.200 potenciais entrevistados e recrutamos seis entrevistadores", disse o orientador de Thapa, Tobias Plieninger, professor em Kassel e Göttingen.

Mas, com a pandemia do coronavírus, o governo do estado de Karnataka, na Índia, fechou universidades e outros aspectos da vida pública. E o parceiro da instituição alemã na Índia tinha uma preocupação adicional em fazer o trabalho de campo neste momento. "Algumas pessoas temiam que pudéssemos ser responsabilizados por levar o vírus para as aldeias", contou ele.

O projeto de Thapa foi suspenso até que a segurança de seus colegas e das comunidades que estudam possa ser garantida. O atraso tem sido "muito doloroso", afirmou Plieninger, especialmente para alunos de pós-graduação em seu departamento cujos projetos provavelmente terão de sofrer mudanças substanciais.

– ANNIE ROTH

Não posso estudar bombeiros durante uma crise

No laboratório de Satchin Panda no Instituto Salk de Estudos Biológicos em La Jolla, na Califórnia, o surto do coronavírus está afastando as mesmas pessoas que sua pesquisa pode ser capaz de ajudar.

Panda estuda ritmos circadianos, os ciclos de 24 horas que governam nosso corpo. Ele está especialmente interessado em como manter esses ritmos fortes, e como as interrupções prejudicam nossa saúde. Por exemplo, pesquisas mostraram que trabalhadores de plantão cuja vida diária está fora de sincronia com o sol, como enfermeiros ou bombeiros, são mais propensos a certos males, incluindo câncer, diabetes e doenças cardíacas.

Alguns pesquisadores, incluindo Panda, estudaram o jejum intermitente – limitando toda a ingestão calórica para oito a 12 horas a cada 24 – como um meio de fortalecer ritmos circadianos e combater algumas dessas condições.

Em um teste clínico em andamento, Panda e Pam Taub, da Universidade da Califórnia, em San Diego, têm ensinado os bombeiros a comer dessa forma, e medindo se isso os torna mais saudáveis. Mas, agora que os bombeiros estão sendo chamados para ajudar a Agência Federal de Gerenciamento de Emergências com a resposta de emergência ao coronavírus, o estudo está no parado.

"Nosso estudo sobre bombeiros foi extremamente animador, e estamos tristes por não podermos concluí-lo a tempo", lamentou Panda; a concessão de três anos para esse projeto deveria ir até agosto. "Ao mesmo tempo, entendemos que a comunidade em perigo precisa de mais pessoal de emergência."

– ELIZABETH PRESTON

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