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    INTÉRPRETES 

    Quando o coronavírus se perde na tradução

    Como o equipamento de proteção individual está escasso nos hospitais de todo o país, poucos intérpretes clínicos conseguem trabalhar de forma presencial com pacientes com a Covid-19, como normalmente faziam

    27/04/2020 - 17h17

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    Por The New York Times
    intérpretes
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    *Por Emma Goldberg

    Recentemente, o dr. Alister Martin, médico do Hospital Geral de Massachusetts, em Boston, encarou seu paciente – um latino que não falava inglês – para informá-lo de que teria de ser intubado. Lutando para manter a voz calma, Martin sugeriu ao homem, motorista de ônibus e pai de três filhos, que ligasse para a esposa, declarasse a ela todo o seu amor e dissesse adeus, só por precaução.

    Essa troca agora faz parte da rotina diária de Martin, mas nunca é fácil. Para dificultar ainda mais, cada informação é repetida pelo menos duas vezes: a maioria dos pacientes de Martin com Covid-19 não fala inglês e ele se comunica com eles mediante um intérprete que o atende por telefone.

    Como o equipamento de proteção individual está escasso nos hospitais de todo o país, poucos intérpretes clínicos conseguem trabalhar de forma presencial com pacientes com a Covid-19, como normalmente faziam. A maioria dos serviços de interpretação é feita de maneira remota. A comunicação por meio de um intérprete dobra ou triplica a duração de uma troca médica, adicionando mais confusão e ansiedade a situações que já são estressantes para os pacientes e para a família deles.

    E as condições do tratamento da Covid-19 – o ritmo acelerado de evolução dos casos, o desejo dos profissionais do hospital de limitar a duração de sua exposição aos pacientes – criam numerosos obstáculos à interpretação eficaz.

    "Estamos vendo uma degradação geral na qualidade do atendimento prestado aos pacientes que não falam inglês como primeira língua", disse Martin.

    Ele comentou também que o surto de coronavírus multiplicou as barreiras logísticas para a interpretação médica. Os quartos do hospital são barulhentos, cheios de tanques de oxigênio e conversas urgentes das equipes. Todo mundo usa máscara e a voz fica abafada. Trabalhadores da saúde estão tentando manter dois metros de distância de seus pacientes sempre que possível.

    "O oxigênio de alguém pode estar diminuindo, e tenho de ligar para um intérprete, esperar na linha, colocar um código de acesso e dizer onde estou. É difícil para o paciente. Imagine estar em uma sala barulhenta com uma máscara soprando 15 litros de oxigênio por minuto no seu rosto enquanto você se sente mal. É impossível compreender tudo isso", afirmou Martin.

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    Normalmente, ele explica aos pacientes com precisão como é o processo médico antes da intubação e os instrui a pensar em suas lembranças mais felizes – o que ele chama de "férias antes da sedação". Com um intérprete ao telefone, ele e sua equipe são pressionados a usar as palavras com mais moderação.

    Os intérpretes também dizem que a qualidade de seu trabalho sofre quando se comunicam com os pacientes de forma remota e não presencial, pois não conseguem usar a linguagem corporal nem ler as expressões faciais. "Pequenas coisas como um toque no ombro ou segurar a mão do paciente geralmente fazem uma grande diferença", observou Cinderella Lee, intérprete de cantonês da Sutter Health, em San Francisco.

    Lee disse que, em circunstâncias normais, os pacientes que não são fluentes em inglês contam com membros da família que ajudam na tradução e dão suporte. Mas, como os hospitais impediram a entrada de visitantes, os pacientes estão sozinhos. Alguns pacientes com quem Lee trabalha são idosos e "não entendem por que seus entes queridos não os visitam", comentou.

    David Velasquez, estudante de medicina em Harvard, explicou que costuma ser chamado para traduzir mensagens para pacientes de língua espanhola durante turnos clínicos. Tendo testemunhado falhas na comunicação com pacientes que não são fluentes em inglês, ele teme por seus familiares imigrantes que não moram em Los Angeles, um dos quais já contraiu o novo coronavírus.

    "A maioria dos médicos não fala sua língua. Eu me preocuparia com o processo de alta. Uma coisa é explicar a eles o que devem fazer no hospital; outra é lhes ensinar as precauções a tomar após a saída e como proteger seus entes queridos", disse Velasquez.

    Os desafios no tratamento de pacientes com a Covid-19 que não falam inglês fluentemente são especialmente preocupantes para os médicos devido às taxas de hospitalização desproporcionais de negros e latinos.

    Os latinos representam 34 por cento das mortes por coronavírus na cidade de Nova York, de acordo com dados divulgados pela Prefeitura na semana passada, mas eles totalizam apenas 29 por cento da população. Os administradores da cidade sugerem que isso reflete parcialmente o fato de que grande parte dos trabalhos essenciais é realizada por latinos; um estudo da controladoria da cidade constatou que as minorias representam 75 por cento da força de trabalho da linha de frente, incluindo balconistas e zeladores.

    Massachusetts divulgou dados étnicos e raciais limitados sobre o vírus, mas grandes polos de infecção foram relatados em Chelsea, onde residem muitos imigrantes, e nas comunidades predominantemente negras, latinas e de imigrantes de Boston, inclusive em Hyde Park e Mattapan. Aproximadamente 40 por cento dos pacientes internados com Covid-19 no Hospital Geral de Massachusetts são latinos, de acordo com funcionários do hospital, e, destes, 80 por cento se comunicam basicamente só em espanhol.

    "Isso se tornou uma epidemia de pretos e marrons por todo o país. É mais uma razão para prestarmos atenção no idioma", observou o dr. Joseph Betancourt, diretor de equidade e inclusão do hospital.

    Na Cambridge Health Alliance, em Massachusetts, cerca de metade dos 126 mil pacientes de seu sistema de atendimento primário possui proficiência limitada em inglês. A empresa conta com cem intérpretes na equipe, que geralmente trabalham no pronto-socorro e nas clínicas comunitárias. Vonessa Costa, diretora de assuntos multiculturais e de serviços aos pacientes, disse que, atualmente, 99 por cento do trabalho dos intérpretes é feito remotamente, com a equipe de interpretação recebendo mais de 1.300 ligações por dia.

    Essas circunstâncias produzem um estresse enorme nos intérpretes médicos, disse Costa, especialmente aqueles que vivem nas comunidades de imigrantes de Boston atingidas pelo surto. Na semana passada, ela conversou com um intérprete que estava alterado após passar 45 minutos ao telefone ajudando uma jovem latina a se comunicar com a equipe do hospital sobre dois membros da família que estavam gravemente enfermos: seu parceiro e sua mãe.

    "Há um trauma ao fazer a interpretação do trauma. Alguns dos intérpretes de nosso departamento têm familiares que também foram hospitalizados. Eles estão chocados com as situações que tiveram de interpretar e com a devastação em suas comunidades", comentou Costa.

    O dr. Jorge Rodriguez, médico do Hospital Brigham and Women, destacou que a pandemia de coronavírus está expondo e agravando uma condição preexistente do sistema de saúde do país: a disparidade no atendimento a pacientes que não falam inglês. Um estudo de 2015 da Joint Commission mostrou que pacientes não fluentes em inglês tiveram muito mais sequelas médicas do que aqueles que falam o idioma.

    "Sabíamos que pacientes não fluentes em inglês tinham menos acesso aos serviços médicos, iam mais vezes ao pronto-socorro, tinham internações mais longas e resultados clínicos piores", disse Rodriguez. Ele acrescentou que esperava que o efeito desproporcional da pandemia nas populações latinas fizesse com que as instituições médicas ponderassem como as barreiras linguísticas afetam o atendimento ao paciente.

    Algumas instituições médicas já começaram a repensar seus serviços de interpretação em meio ao surto de coronavírus. Betancourt disse que, no mês passado, o Hospital Geral de Massachusetts criou um registro de funcionários da linha de frente que falam vários idiomas. O hospital agora pretende designar um médico que fala espanhol para cada equipe médica, sempre que possível, para que os pacientes possam confiar em seus médicos caso uma interpretação seja necessária, em vez de ter de usar serviços remotos.

    Costa disse que a Cambridge Health Alliance identificou todos os pacientes que necessitam de interpretação presencial e não remota, como pessoas com deficiência auditiva e que não usam a língua de sinais americana, e alocou equipamentos de proteção individual para seus intérpretes trabalharem in loco. A empresa começou a passar orientações de alta em árabe, nepalês e outros idiomas, além de espanhol, português e crioulo haitiano, que já eram oferecidas. E está pensando em fornecer microfones aos pacientes que necessitam amplificar sua voz para os intérpretes.

    Mas, à medida que a empresa de Costa corre para melhorar seus serviços de interpretação, ela se preocupa com os milhões de pacientes em todo o país que não são fluentes em inglês e que estão lutando para ter acesso aos serviços de saúde. "Uma pandemia não é a hora de criar sistemas de trabalho", observou ela.

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