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    Quanto vale um disco em 2020? Nem todo vinil é criado igual

    Para os artistas mais populares, o álbum em si é apenas uma pequena parte de um negócio multiplataforma, e nem está perto de ser o mais rentável

    31/08/2020 - 17h34

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    Por The New York Times
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    O crescimento dos serviços de streaming por assinatura como Spotify e Apple Music separou.
    (Foto: )

    *Por Jon Caramanica

    Nos últimos anos, Rory Ferreira, também conhecido como o artista de hip-hop de vanguarda R.A.P. Ferreira, notou que no Discogs, um mercado de discos on-line especializado em revendas, as versões físicas de seus álbuns estavam sendo negociadas por várias vezes seu preço original.

    Assim, ao planejar o lançamento em vinil de seu último álbum, "Purple Moonlight Pages", ele decidiu cobrar de acordo. "Não quero acabar com a festa de ninguém. Só quero ter certeza de que também vou ter uma participação justa", disse ele em uma entrevista por telefone em julho.

    Nesse mês, ele lançou o vinil "Purple Moonlight Pages" por US$ 77, um preço extraordinariamente alto, mesmo para um LP duplo. Embora o álbum estivesse disponível em serviços de streaming havia meses, ele vendeu todas as 1.500 cópias disponíveis em seu site. E, no Instagram, começou a responder a comentários sobre o custo, tanto positivos quanto negativos. A um fã exasperado, ele escreveu: "Olha, entendemos. Você não valoriza a si mesmo ou o que você faz. Os outros não estão nessa. Agora, vá chutar pedras."

    Cobrar US$ 77 por um álbum pode ser um exagero até mesmo nas melhores épocas, mas é especialmente ambicioso no atual clima da indústria musical, em que o álbum em si se tornou cada vez mais desvalorizado. O crescimento dos serviços de streaming por assinatura como Spotify e Apple Music separou, em menos de uma década, os álbuns e as músicas de um valor específico em dólares quase que completamente.

    Portanto, quanto realmente vale um álbum em 2020? Depende do modelo de negócio.

    "Acho que a música tem valor, mas o valor não é monetário. A tecnologia deteriorou isso", comentou Steve Carless, sócio e cogerente de negócios da Nipsey Hussle. Graças à abstração entre artista e música nos serviços de streaming e à ascensão das mídias sociais, com a intimidade que esta cria entre artistas e fãs, a música física não é mais a principal forma de os artistas conseguirem a atenção e os dólares de seus seguidores.

    "A música agora se tornou o veículo. Antes, era o que estava no fim da equação. Agora é o início da equação", acrescentou Carless.

    Resumindo: para os artistas mais populares, o álbum em si é apenas uma pequena parte de um negócio multiplataforma, e nem está perto de ser o mais rentável. Embora ainda haja um negócio saudável em vendas físicas, e às vezes surjam novas maneiras de conseguir um lucro adicional – Taylor Swift recentemente lançou oito edições de luxo diferentes de seu novo álbum, "Folklore" –, geralmente o disco é a coisa que inicia fluxos de receita muito mais ambiciosos: merchandise, turnês, licenciamento e muito mais.

    Isso, em um extremo. No outro, estão pequenos artistas ou gravadoras com uma base de fãs dedicada, para quem o álbum permanece no centro da conversa financeira, sendo ainda uma proposta lucrativa por si só.

    Tudo isso para dizer que é mais difícil do que nunca determinar, em um sentido puro, o valor de um álbum. Ao contrário das eras do CD ou do LP, quando os preços de mercado dos discos eram essencialmente consistentes, o álbum é agora valorizado em uma escala móvel – para a maioria das pessoas que usam serviços de streaming, o acesso a um álbum é (ou parece ser) gratuito; para as mais dedicadas, porém, há a necessidade de investir seu dinheiro em seus ídolos.

    Isso causou estragos nos modelos de negócios das gravadoras, e também nas paradas da Billboard. A fim de incentivar as vendas imediatas, os artistas que querem chegar ao número um na semana de lançamento começaram a vincular álbuns com outros itens mais caros. Hoje, o lançamento de um disco pode muitas vezes se parecer mais com a abertura de uma loja de roupas.

    Antes da era do streaming, os artistas tentavam extrair o máximo de valor do próprio álbum.

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    Talvez o exemplo mais importante seja o disco "Once Upon a Time in Shaolin", da banda Wu-Tang Clan. O grupo disponibilizou uma cópia, que foi vendida em leilão em 2015 por US$ 2 milhões ao (hoje em desgraça) executivo farmacêutico Martin Shkreli, que a entregou às autoridades em 2018.

    Parte da inspiração para o leilão da Wu-Tang foi o lançamento da mixtape de 2013 de Hussle, "Crenshaw". Hussle, talvez o primeiro artista da era moderna a propor um modelo de preços premium para um meio moribundo, ofereceu cópias físicas de "Crenshaw", por US$ 100, usando o slogan "Proud2Pay". (A mixtape estava disponível gratuitamente on-line.) Ele vendeu mil cópias. Para demonstrar que o lançamento de "Crenshaw" não foi um acaso, ele aumentou a aposta com seu lançamento seguinte, "Mailbox Money", oferecendo cem cópias a US$ 1.000; todas elas também foram vendidas.

    Hussle entendeu que o álbum físico não era mais um sistema de distribuição de música, mas um canal para o entusiasmo dos fãs, uma mercadoria que é um símbolo em si mesma. Essa foi uma percepção fundamental numa era em que as vendas físicas estavam em declínio e os serviços de streaming, com seus próprios interesses econômicos, estavam prestes a se inserir como intermediários cruciais entre artistas e fãs.

    Carless descreveu a intenção de Hussle como "Vamos parar de olhar para a maioria e focar a minoria" – cortejando aqueles ouvintes apaixonados e com muitos recursos. O CD em si, numerado e assinado, tornou-se "uma lembrança importante", disse Carless, e veio com certos privilégios para os fãs – um número de telefone que poderiam usar para contatar Hussle, um concerto privado. (Hussle lançou "Crenshaw" no mesmo ano em que o site Patreon, que propôs um modelo de relacionamento financeiro semelhante entre artista e fã, começou a funcionar.)

    O que isso destaca é algo que Hussle sabia, e algo que o Radiohead descobriu há mais de uma década: há camadas de fãs. Alguns – a maioria, na verdade – não pagarão nada pela música. Mas os poucos que estão dispostos a pagar podem mais do que os compensar. Em 2007, o Radiohead lançou seu sétimo álbum, "In Rainbows", mediante um download "pague quanto quiser" e em vários formatos físicos; três milhões de pessoas pagaram por uma cópia.

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    No mercado de discos on-line Bandcamp, cerca de 80 mil álbuns são vendidos por dia. Metade deles é digital: o preço médio desses álbuns – muitos dos quais são "pague quanto quiser" – é de US$ 9, embora, de acordo com Joshua Kim, diretor de operações da Bandcamp, alguns fãs paguem várias vezes isso voluntariamente; em um caso, um fã pagou US$ 1.000 por um álbum.

    Kim contou que a parte que mais cresce nos negócios do Bandcamp são as vendas físicas, particularmente as do vinil. "Vemos o Bandcamp como um lugar em que a música é valorizada como arte. Os formatos físicos são provavelmente a expressão mais concreta disso." Ele comparou os consumidores dispostos a pagar mais pela música que podem obter gratuitamente às pessoas que compram alimentos orgânicos ou roupas de origem ética, encontrando valor em "compensar os artistas de forma justa".

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