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GAROTOS DO NINHO

Quatro meses após tragédia no CT do Flamengo, famílias vivem a dor e a saudade

Pais e parentes dos catarinenses Bernardo Pisetta e Vitor Isaías convivem com a ausência dos jovens que morreram após incêndio no Centro de Treinamento do Flamengo em fevereiro deste ano

08/06/2019 - 07h40 - Atualizada em: 09/06/2019 - 11h53

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Por Guilherme Simon
Darlei e Leda, pais de Bernardo
Darlei e Leda, pais de Bernardo
(Foto: )

Desde fevereiro, o gerente comercial Darlei Pisetta, 47 anos, tem se esforçado a viver um dia de cada vez na tentativa de amenizar a dor da perda. Ele é pai de Bernardo Pisetta, uma das vítimas catarinenses do incêndio que atingiu o Ninho do Urubu, no Rio de Janeiro. A tragédia, que matou outros nove garotos da base do Flamengo, incluindo o também catarinense Vitor Isaías, completa quatro meses neste sábado (8).

A data é especialmente triste para Darlei e a família de Indaial, no Vale do Itajaí. Em junho, ele, a mulher, Leda, e o filho mais velho, Murilo, esperavam comemorar os 15 anos de Bernardo, o caçula, que faria aniversário no último dia 5.

— É uma peleja muito grande. O mais difícil é conviver com a ausência. O Bernardo era um menino muito querido por todos. Ele estava esperando muito por esse aniversário, e tinha como meta conseguir uma convocação para a seleção brasileira sub-15 também este mês — relata Darlei.

O pai relembra, orgulhoso, a rápida ascensão de Bernardo no mundo da bola. Depois de se destacar em times de futsal e futebol na região de Indaial, o goleiro chamou a atenção de olheiros e conseguiu uma oportunidade no Athletico Paranaense. Em julho do ano passado, veio o convite do Flamengo e a realização do sonho de jogar no time de coração.

— Ele chegou a ser convidado antes pelo Corinthians, mas preferiu o Flamengo porque era o time dele e de grande parte da família — confidencia.

Agora, para Darlei, manter a trajetória do filho na memória e levá-la a outros garotos é uma maneira de enfrentar o luto e a saudade. No fim do mês, a família pretende entregar uma camiseta com a imagem de Bernardo aos campeões de um torneio de futsal em Balneário Camboriú. A competição homenageará os dois catarinenses mortos no CT do Flamengo.

— A minha intenção é reconhecer o trabalho do Bernardo e também inspirar outros atletas. Um menino que lutou para estar num grande clube, que abdicou da sua infância para jogar futebol, para morar em alojamento, longe da família. O reconhecimento dele é o nosso consolo — diz o pai.

Catarinense Vitor Isaias foi uma das vítimas
Catarinense Vitor Isaías foi uma das vítimas
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Em São José, Josete Itavalda Adão, conhecida como Dona Jô, 53 anos, também sente a dor de perder um filho. A mulher é avó de Vitor Isaías, mas o criou como se mãe fosse desde que o menino tinha oito meses de idade.

— A mãe não tinha condições, e pensava em entregar o Isaías para adoção. Então eu peguei para criar, e ele ficou comigo até os 15 anos, quando aconteceu essa tragédia — conta.

Camisa 9 do sub-15 do clube carioca, Vitinho, como era chamado pelos colegas, começou jogando futsal, em Florianópolis, e logo migrou para os gramados, ao integrar a base do Figueirense. Assim como Bernardo, também passou pelo Athletico Paranaense antes de realizar o sonho de ir jogar no rubro-negro do Rio de Janeiro.

 Josete Itavalda Adão, avó de Vitor Isaías, com Jackson Manoel da Silva, tio do garoto
Josete Itavalda Adão, avó de Vitor Isaías, com Jackson Manoel da Silva, tio do garoto
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Com os olhos cheios de lágrima, Dona Jô recorda os últimos dias junto do neto, pouco antes da tragédia, quando ele veio a São José passar as primeiras férias depois de ingressar no Flamengo. A euforia do menino com o novo clube e o sonho com um futuro promissor contagiaram a família. Na hora do retorno, já no aeroporto, os dois se despediram com a promessa de que voltariam a se ver no meio do ano.

— É uma tristeza muito grande. O Isaías era um menino fora de série, sempre com um sorriso no rosto, que sempre espalhava felicidade e conquistava todo mundo. Passou por muita dificuldade, e conseguiu se levantar — diz a mulher.

Para o tio e padrinho de Vitor, Jackson Manoel da Silva, 37 anos, a noite da tragédia continua a reverberar na memória. Ele conta que trabalha durante as noites e que, a cada madrugada de quinta-feira, a lembrança da tragédia volta. Com o passar dos dias, a dor também vira indignação.

— Olhando hoje, com a mente mais tranquila, eu acho que o Flamengo teve culpa pelo que aconteceu. Era pra ter funcionários 24 horas no alojamento. Eles eram garotos, se tivesse algum adulto teria tirado todo mundo de lá. Mas eles estavam praticamente sozinhos.

Sem acordo para indenizações

Bernardo completaria 15 anos no último dia 5
Bernardo completaria 15 anos no último dia 5
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Quatro meses depois, o clube carioca e as famílias de Bernardo e Vitor Isaías ainda não entraram em consenso sobre as indenizações. Conforme o advogado Thiago Camargo D'Ivanenko, que responde sobre o assunto pelos catarinenses, a intenção desde o começo é evitar uma batalha judicial, mas um processo não está descartado.

— A gente espera esgotar todas as alternativas de acordo. No momento, as negociações com o Flamengo estão interrompidas, porque o clube disse que chegou ao máximo do que pode oferecer, e as famílias não concordam. Não é o que eles consideram justo — diz o advogado.

Ainda segundo ele, as conversas com o clube tiveram início ainda em fevereiro, quando as famílias foram chamadas ao Rio de Janeiro para uma tentativa de acordo no Tribunal de Justiça. O encontro não foi proveitoso, assim como uma segunda reunião, também realizada no Rio. No final de maio, as negociações foram interrompidas.

Para Darlei, pai de Bernardo, falta "humanidade" ao clube na condução da negociação. Ele reconhece o auxílio que as famílias tem recebido - com atendimento psicológico e também com um valor mensal - mas se diz indignado com o tratamento da diretoria.

— Não há dinheiro no mundo que vá suprir a falta de um filho. Mas a gente não espera nada além de uma indenização justa. Eu não tenho nada contra o Flamengo, mas a diretoria não está presidindo o clube nessa situação com a grandeza que ele tem — desabafa Darlei.

Dona Jô também demonstra insatisfação com o posicionamento da diretoria rubro-negra, e comenta que o passar dos meses fez com que ela mudasse de ideia sobre o clube.

— Eu fui muito bem tratada quando fui ao Rio de Janeiro depois do que aconteceu, e confiei neles. Mas hoje posso dizer que foi uma grande decepção. Não consigo mais nem ver os jogos do Flamengo.

Em outro momento da entrevista, a avó de Vitor Isaías questiona as condições do alojamento onde o neto estava.

— Lembro de perguntar pro Vitor: "meu filho, vocês ficam onde?", e ele me disse pra pensar num hotel de luxo. Mas o menino estava dormindo num contêiner.

Contraponto

A reportagem procurou o Flamengo para saber a posição sobre o andamento das negociações de indenização e as reclamações das famílias catarinenses a respeito da condução do assunto.

A assessoria de imprensa respondeu apenas que "o clube não se manifesta sobre as negociações ainda em andamento", e que outros assuntos são tratados diretamente com as famílias e com os representantes das mesmas.

Inquérito está em fase final, diz Polícia Civil

As investigações sobre possíveis causas e responsáveis pelo incêndio que atingiu o alojamento do Centro de Treinamento do Flamengo, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, ainda não tiveram um desfecho.

No entanto, de acordo com a assessoria de imprensa da Polícia Civil do estado do Rio, o inquérito está próximo de ser concluído. A expectativa é de que ele indique se há provas sobre as causas do incêndio e se algum dirigente do clube será responsabilizado criminalmente.

Ainda conforme a assessoria, todos os depoimentos necessários já foram tomados. Entre os ouvidos, testemunhas, dirigentes, e representantes da empresa que fabricou os contêineres que pegaram fogo. A assessoria também informou que não pode dar mais detalhes sobre o caso porque o inquérito é sigiloso.

As investigações são comandadas pelo delegado Márcio Alves Petra, da 42ª DP da Polícia Civil da cidade do Rio de Janeiro.

Até o momento, o que se sabe é que o fogo teve origem num curto-circuito em um dos aparelhos de ar-condicionado, que estava instalado em um dos alojamentos onde os jogadores da base dormiam, conforme apontou a perícia.

O Flamengo não tinha laudo do Corpo de Bombeiros nem alvará da prefeitura do Rio de Janeiro para utilizar o espaço. O alojamento dos atletas da base do clube estava instalado de forma provisória no Ninho do Urubu ao menos desde 2016.

Centro de Treinamento liberado

Parcialmente interditado desde a tragédia, o Centro de Treinamento do Flamengo foi completamente liberado pela Justiça no dia 24 de maio, após o clube assinar um Termo de Ajuste de Conduta (TAC) com o Ministério Público.

Com isso, o clube ganhou a permissão para utilizar o CT para todas as atividades, incluindo pernoite, alojamento e concentração, desde a base até o profissional. Entre as medidas para a regularização, está a presença de dois monitores no local durante a noite. O MP acompanhará de perto as instalações.

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