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    Dia de Finados

    Que mané Dia das Bruxas! Em Ponta das Canas, doce é no dia do pão-por-deus

    Em Florianópolis, cultura açoriana resiste ao avanço da globalização e mantém tradição na véspera do Dia de Finados

    01/11/2017 - 11h45 - Atualizada em: 01/11/2017 - 11h58

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    Por Redação NSC
    Lucy Laudelina faz a alegria das crianças no pão-por-deus
    Lucy Laudelina faz a alegria das crianças no pão-por-deus
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    "Ilha rodeada pelo incomensurável, o desconhecido que atrai e assusta, batendo furioso contra as rochas e transportando as bruxas em suas viagens noturnas sobre vassouras ou em baleeiras roubadas dos pescadores". Que as lendas da Ilha de Santa Catarina continuam vivas, ninguém duvida. Mas, se em muitas partes de Florianópolis e do mundo elas dão as caras no dia 31 de outubro, em Ponta das Canas as feiticeiras e assombrações ficam só no imaginário do escritor Franklin Cascaes. É que lá no bairro do Norte da Ilha uma tradição açoriana resiste à globalização: o pão-por-deus.

    Este ritual também é feito por crianças, batendo de porta em porta na vizinhança em busca de doces, mas, ao contrário do Dia das Bruxas, ele acontece na manhã de 1º de novembro, véspera do Dia de Finados. Isso porque o pão-por-deus está associado ao antigo costume açoriano de oferecer pão, bolos e vinho aos mortos. No arquipélago dos Açores, dizia-se que as almas podiam azedar o pão e, para que isso não acontecesse, a primeira fornada, chamada de "pão das almas", era colocada em frente da casa para que a primeira pessoa que passasse levasse para si ou desse para alguém necessitado.

    Aqui na Ilha de Santa Catarina, o pão-por-deus foi reinventado e ganhou ares de terna travessura, com as crianças escrevendo versinhos de carinho e pedidos de presentes para os familiares e amigos. Foi assim durante muito tempo, como contam Alair Catarina da Silva, de 53 anos, e Lucy Laudelina, de 68 anos, duas simpáticas senhoras que distribuíam balas e pirulitos às crianças nesta quarta-feira.

    Alair distribui doces para as crianças no dia do pão-por-deus
    Alair distribui doces para as crianças no dia do pão-por-deus
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    — Na época que a gente fazia o pão-por-deus, a gente mandava um coração com os versinhos escritos e as pessoas davam um presente para nós: "na asa do andorinha, pedindo pão-por-deus, minha querida madrinha"... Aí a gente colocava depois o que queria. É uma coisa manezinha, da gente, nunca deve terminar — comenta Alair.

    — A gente fazia o coraçãozinho e ganhava presentes como camisa, vestido, toalha de mesa... Essas crianças não sabem disso, hoje é só doce. Mas é bom continuar, né? Acho que é melhor que o Halloween, não tem? — afirma Lucy.

    Se as gerações passadas escreviam versos pedindo vestidos e camisas como presente, e ainda ganhavam roscas de polvilho, ovos e bananas de lambuja, hoje as crianças ganham caramelo, balas, chicletes e pirulitos. Mas os espertinhos só querem saber dos doces, esqueceram de escrever os versos nos corações de papel.

    — Não tem bilhetinho, é só pedir bala mesmo. Fazemos todo o ano, é o nosso Halloween. Em vez de pedir dia 31 (de outubro) à noite, a gente pede no dia 1º (de novembro) de manhã. A gente se encontra umas 7h e sai gritando "pão-por-deus" na frente das casas — conta Felipe Braga, de 13 anos, aluno da Escola Municipal Osvaldo Machado.

    Uma das "gangues" do pão-por-deus: Vinicius (esq.), Leonardo (centro) e Felipe Braga (dir.)
    Uma das "gangues" do pão-por-deus: Vinicius (esq.), Leonardo (centro) e Felipe Braga (dir.)
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    Ponta das Canas resiste

    O pão-por-deus é da cultura açoriana, mas nem toda a Ilha de Santa Catarina preserva a tradição. Mais restrita ao Norte da Ilha, é possível até encontrar bares e restaurantes que oferecem uma dose aperitivo em troca de um verso fresquinho no coração de papel. Mas o ritual é tradição mesmo em Ponta das Canas, principalmente entre as crianças que saem à caça de doces.

    — Não sou nativa, mas acho bem interessante, mais importante que o Halloween. É uma tradição que veio dos açorianos e até hoje algumas comunidades mantêm. Todos os anos minha filha sai com o irmão, mas esse ano ele ficou doente e eu vim com ela. Quando conto pro pessoal de Rondônia (estado onde cresceu) que tem isso aqui, eles dizem que a gente é doido — conta a professora Claudete Chieli.

    — Não sou boa de rima, mas os professores me ajudaram. "Lá vem meu coração, na asa de um gavião, vou dizer pra todo mundo, que eu amo meu irmão de montão". Ele tá doente, não pode vir, então estou pegando as balinhas em dobro — brinca Julia, de 10 anos, filha de Claudete.

    Julia recebe o carinho de dona Jandira, sob o olhar atento de João Lima
    Julia recebe o carinho de dona Jandira, sob o olhar atento de João Lima
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    Moradora de Ponta das Canas, Claudete é professora do Ensino Fundamental em uma escola no bairro Saco Grande. Lá, conta ela, as crianças até fazem os versinhos na aula, mas não saem à rua em busca de doces porque a vizinhança não conhece a tradição. Segundo a simpática Jandira Pereira Lima, de 72 anos, que presenteou Julia com balas de morango, o pão-por-deus só acontece mesmo em Ponta das Canas.

    — Só tem aqui. Nem na Cachoeira (do Bom Jesus), que fica aqui ao lado, tem. Antigamente era rosca, banana, ovo e biscoito, hoje é bala, mas a gente nunca perdeu a tradição. A escola incentiva, libera os alunos e tudo. Às 7h15 eles já estão aqui com as sacolinhas. E como os outros davam para a gente naquele tempo, hoje a gente dá para as crianças também.

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