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    CORONAVÍRUS 

    Recuperação da Covid-19 pode ser complicada para alguns

    A Itália foi o primeiro país europeu a ser duramente atingido pela pandemia – suas unidades de terapia intensiva ficaram lotadas e seus idosos morreram em massa antes de a epidemia atingir a Espanha, a França, os Estados Unidos ou a Grã-Bretanha

    22/05/2020 - 18h30

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    Por The New York Times
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    *Por Jason Horowitz

    Roma – Quando Morena Colombi testou negativo para o coronavírus em 16 de março, a contagem oficial a incluiu entre as recuperações da Covid-19, um sucesso em meio à tragédia que se abateu sobre a Itália. Mas ela não estava nem perto de se sentir recuperada – a tosse e a fadiga incapacitante não desapareciam.

    Cinco semanas depois, em 21 de abril, ela voltou ao trabalho em uma empresa de cosméticos, mas, com falta de ar e dores musculares, ela se sentia incapaz de fazer caminhadas curtas. Outro teste confirmou que ela não estava mais infectada. Mas, onze semanas depois do teste positivo, no mesmo dia em que a Itália colocou as primeiras cidades em quarentena, ela ainda não voltou ao normal. "Leva muito tempo. Não consigo voltar ao meu ritmo natural", disse Colombi, de 59 anos, que mora em Truccazzano, nos arredores da cidade de Milão, no norte.

    A Itália foi o primeiro país europeu a ser duramente atingido pela pandemia – suas unidades de terapia intensiva ficaram lotadas e seus idosos morreram em massa antes de a epidemia atingir a Espanha, a França, os Estados Unidos ou a Grã-Bretanha. E, assim, a Itália também assumiu a dianteira no processo de lidar com a longa duração da doença e com as consequências duradouras para alguns sobreviventes.

    Muitos italianos se tornaram dolorosamente familiarizados com a forma como a infecção pode persistir por semanas, como os sintomas podem permanecer por semanas e como a recuperação completa pode demorar ainda mais – se é que existe. Das mais de 218 mil pessoas na Itália que testaram positivo, mais de 30 mil morreram e o governo lista mais de 103 mil como recuperadas.

    A teimosia do vírus e a duração da convalescença se tornaram tópicos de conversa no norte da Itália, onde alguns dos italianos mais sofridos se veem cercados de incertezas físicas e financeiras, incapazes de se livrar da doença e da fadiga e voltar ao trabalho. Sua experiência também pode ser instrutiva para outras nações que lutam para que suas economias voltem a funcionar.

    "Temos visto vários casos em que as pessoas levam muito tempo para se recuperar", afirmou Alessandro Venturi, diretor da Policlínica San Matteo, na cidade de Pavia, na Lombardia, acrescentando que o desconforto muitas vezes parece durar ainda mais para pessoas que tiveram sintomas leves. "Não é a doença que dura 60 dias; é a convalescença. É uma convalescença muito longa."

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    A maioria das pessoas que pegou o vírus tem poucos sintomas ou nenhum, mas algumas ficam muito doentes, na maioria das vezes com pneumonia. Qualquer pneumonia danifica os pulmões, que podem levar meses para cicatrizar, e os médicos alertam que o dano pode não ser completamente reversível.

    Os estudos também apontam danos renais, cardíacos, hepáticos e neurológicos, muitas vezes causados por infecções secundárias, e ninguém sabe quais são as perspectivas em longo prazo para esses pacientes.

    Mas mesmo alguns dos infectados que evitaram a pneumonia descrevem uma doença extremamente persistente e imprevisível, com sintomas inesperados. Os ossos parecem estar quebrados. Os sentidos são afetados. O estômago fica constantemente sensível. Há dias bons e depois dias ruins, sem uma lógica aparente.

    Os afetados acham exaustivas as tarefas mais simples. Os testes ainda estão basicamente reservados para os hospitalizados, e assim as pessoas que sofrem sintomas menos graves, mas persistentes, convivem com a dúvida de ter ou não o vírus.

    Annalisa Malara, médica intensiva em Codogno, a sudeste de Milão, que diagnosticou o primeiro caso do surto na Itália em fevereiro, disse que ainda não havia uma compreensão clara do motivo pelo qual o vírus e seus efeitos duram tanto tempo. "A falta de energia e a sensação de ossos quebrados são comuns", disse ela, acrescentando que a fadiga muitas vezes permanecia mesmo depois que os sintomas mais intensos desapareciam.

    No norte da Itália, epicentro do contágio no país, um levantamento parcial do bloqueio permitiu que mais familiares e amigos comparassem suas experiências. "Nunca termina", contou Martina Sorlini, professora de matemática e física de 29 anos que está com febre baixa desde o início de março.

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    Ela disse que a tosse e a dor de garganta acabaram indo embora, e que depois de três semanas ela recuperou o paladar e o olfato, e até encontrou energia suficiente para correr e cuidar das plantas no jardim.

    Depois vieram as dores de estômago, a fadiga e o retorno da febre. E esses sintomas não desapareceram, tornando extremamente cansativo dar suas aulas on-line para o ensino médio. "Eu estava convencida de que tinha melhorado. Eles não sabem o que aconteceu. Estão vendo tudo pela primeira vez também", observou Sorlini.

    Os testes são imperfeitos e nem todos têm acesso a eles.

    Ingrid Magni, 44 anos, teve febre e calafrios em 21 de março. "Esses sintomas nunca me deixaram", disse ela, acrescentando que começou a sofrer dores de cabeça intensas após cerca de três semanas.

    Os médicos só podiam recomendar analgésicos e repouso. Ela se sentia cansada até quando arrumava a cama. "Eu tinha de me sentar. Ficava muito cansada."

    Sem a elegibilidade para receber um teste de swab, que geralmente é reservado para pacientes hospitalizados, ela disse a seu chefe em uma fábrica química que faria um teste de anticorpos, que poderia ser usado para desencadear um teste oficial de swab que detecta o vírus em si, caso anticorpos fossem detectados.

    Mas os resultados ainda não chegaram. Ela está ansiosa para voltar ao trabalho e não tem certeza de quantos dias de licença a mais o médico vai aconselhar.

    Outros só querem se sentir melhor.

    Albertina Bonetti, de 77 anos, de Trescore Balneario, perto de Bérgamo, desenvolveu náusea e febre em sete de março, seguidas de ânsia de vômito e diarreia. Após dez dias de febre, suas pernas começaram a doer tanto que ela não conseguia colocar os pés no chão.

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    Ela precisou de um tanque de oxigênio de 20 de março até o fim de abril, mas, quando foi a um hospital, a equipe se recusou a admiti-la – por isso ela também não foi testada.

    Bonetti disse que ainda tinha falta de ar e fadiga, e que seus sentidos permaneciam afetados. Ela sente falta da vida normal e do sabor do seu café com leite pela manhã. "Isso deixa algo dentro de você. E você nunca volta a ser como era antes", declarou ela a respeito do vírus.

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