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    Reparos domésticos a distância

    Em março e abril, técnicos e outros provedores de reparos domésticos viram uma queda acentuada nos negócios, já que os proprietários adiaram tudo, com exceção dos serviços mais urgentes

    10/06/2020 - 17h26

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    Por The New York Times
    reparos
    (Foto: )

    *Por Ronda Kaysen

    Em meados de março, quando os americanos iniciaram a quarentena para reduzir a propagação do coronavírus, Rachael Quinn Egan descobriu quanto tempo sua família poderia viver sem uma máquina de lavar que funcionasse.

    Quando a máquina de seis anos da família quebrou, Egan, escritora em Montclair, Nova Jersey, fez o que qualquer pessoa razoável faria em tal situação: pediu a seus filhos – de 12, 14 e 21 anos – que usassem as mesmas roupas até que elas começassem a feder. "As crianças diziam: 'Uau, talvez a gente nem precise tomar banho?' Dá para encarar", disse Egan, de 52 anos.

    Egan não queria chamar um técnico e se arriscar a contrair ou a espalhar a Covid-19. Por isso, decidiu adiar o conserto. E não foi a única.

    Em março e abril, técnicos e outros provedores de reparos domésticos viram uma queda acentuada nos negócios, já que os proprietários adiaram tudo, com exceção dos serviços mais urgentes. A quarentena imposta permitia reparos essenciais em casa, mas nem todos os estados definiram quais problemas se qualificavam como essenciais, deixando as decisões para técnicos e proprietários. Em muitos casos, a menos que o telhado estivesse com goteira ou o porão estivesse inundado, os proprietários optaram por esperar.

    Em maio, quando os lockdowns começaram a relaxar, as chamadas voltaram. Agora, técnicos, encanadores e eletricistas estão se preparando para lidar com meses de manutenção adiada.

    Casas, particularmente as que estão sendo mais usadas que o normal, precisam de ajustes. Os aparelhos quebram. Os ralos entopem. Os filtros de ar precisam ser trocados. Uma pesquisa de abril da Hippo Insurance descobriu que um terço dos americanos precisou de reparos domésticos durante a quarentena.

    "Você está usando tudo muito mais e, naturalmente, terá mais problemas em casa", explicou John Kitzie, executivo-chefe da HomeServe North America, que vende planos de seguro para reparos domésticos. O aborrecimento também influi: lave as mãos 20 vezes por dia na pia do banheiro com o ralo meio entupido e fica difícil ignorar o problema.

    Para Egan, o plano de "use, não lave" não durou muito. Então, ela e o marido, Mark Egan, que trabalha com finanças, desceram ao porão e levantaram a tampa de uma máquina de lavar Maytag, de 50 anos, deixada pelos antigos proprietários, que não estava sendo usada. (A quebrada estava na lavanderia do segundo andar.) O interior da Maytag estava completamente sujo, e centopeias rastejavam pelo distribuidor de sabão, como uma cena de filme de terror. "Foi horrível, cheguei a dar um grito. Parecia que a máquina tinha desenvolvido um ecossistema pessoal próprio", disse Rachael Egan.

    Mark Egan limpou a máquina e a ligou. Surpreendentemente, funcionou, embora as roupas saíssem com um odor de mofo. Mas, em meados de abril, a máquina de cima começou a vazar água pela parte de trás, mesmo sem ser usada, e a casa começou a cheirar a mofo. Rachael Egan decidiu que já não dava mais.

    No início de maio, ela ligou para uma loja local de eletrodomésticos e pediu uma nova máquina de lavar. Os entregadores chegaram usando máscara e luvas. Egan pediu a eles que pulverizassem seus sapatos com desinfetante. Carregar uma máquina de lavar pesada por um lance de escadas é um trabalho duro, e Egan ficou preocupada. "Eu me senti mal por eles também. Não sei se deveríamos colocar outras pessoas em risco", disse ela sobre os trabalhadores.

    Mas, uma vez que a lavadora foi instalada, e ninguém adoeceu, Egan ficou aliviada por ter sua lavanderia funcionando novamente.

    Muitos técnicos estabeleceram protocolos para entrar em uma casa com segurança. Ron Potesky, dono de uma franquia do Mr. Handyman em Springfield, Nova Jersey, junto com sua esposa, Christina Langdon, envia seus funcionários com luvas, máscara e protetores descartáveis para os sapatos. Eles também higienizam a van, as ferramentas e a área de trabalho.

    No dia do serviço, Potesky pergunta ao proprietário se alguém na casa ficou doente recentemente. E seus funcionários não vêm trabalhar se estiverem se sentindo mal. Ele sugere que os membros da família fiquem em uma sala separada e deixem um caminho livre com portas abertas para os trabalhadores. Os proprietários também devem abrir as janelas nas salas onde o trabalho será feito para aumentar a ventilação e, após o serviço, limpar as superfícies que foram tocadas.

    "Temos de pensar no cliente, mas também temos carpinteiros com mais de 50 anos. Eles estão tão preocupados com sua entrada nas casas quanto os clientes estão com o fato de precisarem receber alguém", afirmou Potesky. Apesar da ansiedade persistente, o volume de chamadas de potenciais clientes está agora de volta a cerca de 80 por cento do normal, segundo ele, depois de ter despencado em março.

    Às vezes, os proprietários só precisam de conselhos. A goteira pode esperar ou causará danos duradouros? Ou: o que é esse barulho estranho nas paredes? Alguma coisa pode ser feita para pará-lo? Assim como um telefonema substitui a ida ao consultório médico, alguns reparos domésticos também se tornaram virtuais.

    A HomeServe e a Hippo criaram chamadas virtuais gratuitas disponíveis para qualquer pessoa, não apenas para seus clientes atuais. Em março, dois estudantes da Escola de Administração de Harvard iniciaram o Dwelling, um site no qual os proprietários podem obter um diagnóstico gratuito de seu problema mediante o envio de fotos e descrições, que serão revisadas por um técnico. E a Streem, uma plataforma virtual que conecta remotamente técnicos com proprietários, experimentou um "crescimento exponencial" desde que a quarentena foi decretada, de acordo com Ryan Fink, presidente da empresa, que pertence ao provedor de planos de seguro domiciliar Front Door.

    "Quando a Covid chegou, trabalhamos intensamente. Para que esses técnicos permaneçam no negócio, eles precisam de uma solução como a nossa para fazer uma visita doméstica virtual", disse Fink.

    Durante uma chamada de vídeo, um técnico pode ver os mostradores de um aquecedor de água ou o interior de uma máquina de lavar louça e provavelmente diagnosticar um problema, talvez até mesmo fornecendo ao proprietário informações suficientes para corrigi-lo sem precisar de uma visita.

    Algumas semanas depois do início da quarentena em Nova York, Jeff Lai começou a prestar mais atenção a um pequeno vazamento na varanda da casa que divide com sua esposa, Emily Wood, de 39 anos, e seus dois filhos. No ano passado, uma goteira surgia sempre que chovia. Mas Lai não prestou muita atenção a isso até estar em casa todos os dias durante uma primavera particularmente úmida. "É um daqueles problemas fáceis de ignorar ou de adiar", comentou ele.

    Lai, de 41 anos, designer gráfico, mandou uma mensagem e ligou para alguns técnicos que já haviam feito trabalhos em sua casa, construída em 1865. "Estamos implorando às pessoas que nos ajudem, que aceitem nosso dinheiro", disse ele. Mas ninguém respondeu às suas mensagens. Um colega de trabalho sugeriu que ele ligasse para a linha direta da Hippo.

    Durante uma chamada de vídeo, o representante encaminhou Lai para trabalhadores locais que poderiam reparar o telhado da varanda. Mas, como o problema não é urgente, Lai ainda não ligou para nenhum deles, pois está preocupado com a maneira de deixar os trabalhadores entrarem em sua propriedade com segurança. "Estamos motivados a corrigir o problema, mas, com tanta incerteza, é difícil saber quando ou como dar o próximo passo. Não é um planejamento fácil", observou ele.

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