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Rodolfo, ex-Raimundos, fala sobre a época da banda, sua saída e a vida cristã

Durante a sua passagem por Florianópolis para uma apresentação num culto evangélico na cidade, o ex-Raimundos concedeu uma longa entrevista

02/10/2008 - 15h06

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Por Redação NSC

Rodolfo Abrantes, 36 anos, deixou a vida roqueira há sete anos, no auge da fama e no ápice da degradação moral e física. Líder e vocalista dos Raimundos, emblemática banda de punk rock que transformou o cenário brasileiro na década de 90, e depois com a breve Rodox, ele largou tudo em 2001 para buscar a "paz que não tinha".

Atormentado pelas drogas, foi ao encontro do Evangelho, ou como o próprio define, "foi escolhido por Jesus". Desde então, vive à margem da "bajulação do showbiz" e do mundo do rock secular, mas sem abandonar o estilo ao qual segue fiel, assim como à sua causa evangélica.

Como missionário da igreja Bola de Neve, percorre o Brasil com seus testemunhos e shows ao lado de um grupo de amigos. Durante a sua passagem por Florianópolis, na semana passada, para uma apresentação num culto evangélico na cidade, o ex-Raimundos concedeu uma longa entrevista, onde fala sobre a saída da banda, o dilema das drogas, preconceito quanto aos artistas "que pregam a palavra", a atual carreira e sobre o universo do rock, ao qual ainda mantém-se atento.

Balneário Camboriú

"Quando eu casei (com a catarinense Alexandra Abrantes), morava em São Paulo, e a família da minha mulher morava aqui. Ela é de Balneário Camboriú, conheci ela quando a gente veio fazer um show aqui com os Ramones e o Sepultura. Ela era intérprete dos Ramones. A gente conversou, trocou telefones. Daí, em 2000, a gente se reencontrou e não se desgrudou mais. A gente sempre vinha pra cá visitar os pais dela, e eu sempre gostei muito de Camboriú. Aliás, é difícil não gostar de Camboriú. Gosto do estilo de vida da cidade, do fato de ser tudo perto, poder ir a qualquer lugar a pé. A qualidade de vida excelente, um Estado muito bonito, uma cultura diferente. E também eu sempre tive o sonho de morar na praia. Então, em 2001, o ano em que eu saí dos Raimundos, no ano em que me casei, fiquei morando em São Paulo até que pensei: o que eu estou fazendo aqui ainda? Eu morava em São Paulo por causa da banda, e como eu não estava mais na banda, não precisava mais morar lá. Aí decidi vir morar em Camboriú, comecei a procurar apartamento e, em uma semana, eu já estava morando aqui."

Conversão

"Quando eu aceitei Jesus, isso foi em janeiro de 2001, eu estava com a vida bagunçada, nem sabia que precisava de socorro. Mas como a Bíblia mesmo fala, foi Ele que escolheu a gente, não é a gente que escolhe. Lendo a Bíblia, você percebe que todo mundo que encontrou Jesus foi meio que pego de surpresa, cruzou com ele em determinado momento. Eu encontrei uma paz que eu não tinha. Se eu for falar de experiências que eu tive, dos milagres que eu vi e presenciei, vai ficar uma coisa muito subjetiva. Mas o que eu posso falar em um veículo de massa como o jornal de vocês é que eu encontrei uma paz que eu não tinha, encontrei uma alegria que eu não tinha, valores que eu tinha esquecido que existiam. Quando a Ale foi morar comigo, ainda não éramos casados. Nós éramos bem loucos, os dois. Muita droga, muita balada, muito exagero de tudo. Aquilo que você imagina na vida de um roqueiro. Chega a um ponto que a gente sabe o quanto tudo isso estraga, e nós estávamos com a vida destruída e se maltratando muito. Nossa relação estava indo por água abaixo .E isso era muito triste, porque a gente se amava pra caramba. Eu conhecia ela desde 1994, quando ela tinha 15 anos. Eu fui o amor da adolescência dela, e ela foi a garota mais especial de toda a minha vida. Finalmente, quando estávamos juntos, a coisa ficou uma droga. Ela já tinha uma formação evangélica. Os pais dela tinham sido da igreja, então ela conhecia o caminho. Na necessidade, ela buscou ajuda na Bíblia, na palavra de Deus. E ela começou a se encher de vida, disse que era isso que queria pra ela, independente do que fosse acontecer com a gente. Então, numa reunião de oração que estava tendo lá em casa, eu fiquei para ouvir, e foi nesse dia que eu aceitei Jesus. Cada vez que eu ouvia a palavra de Deus, aquilo se aplicava diretamente à minha vida, e, ao colocar em prática aquilo, a minha vida foi dando uma reviravolta e eu fui me sentindo feliz como eu nunca tinha sido antes. Entendi, então, que a minha vida é de Deus e que eu devo fazer o que Ele quer que eu faça."

Ruptura

"Eu já estava insatisfeito com tudo ao meu redor. A fama já não me dava mais alegria, a banda não me dava mais alegria. Tomei coragem e saí crendo que eu tinha uma vida pela frente, um futuro para construir baseado nos valores que eu tinha aprendido. Isso faz sete anos, e os frutos que eu colho hoje me mostram que foi a decisão mais acertada da minha vida. Hoje, minha mãe me liga pedindo conselho, eu que fui um filho problema por muito tempo dentro de casa. Meu irmão me tem como referencial. Nossa casa é super organizada, nossas contas estão todas em dia. Existe equilíbrio. Se você ouvir o som que a gente faz agora, vai ver que é bem barulhento. O estilo musical é o mesmo. Mas a atitude é outra. A atitude do rock é nociva. E eu vivia essa cultura, eu vivia isso na prática. Aquela doideira que eu cantava, eu vivia aquilo tudo. E aquilo começou a me destruir. Eu me tornei infeliz. É aquele negócio, se você está infeliz porque está desempregado ou porque as coisas não estão dando certo, é fácil encontrar a raiz da tua tristeza. Mas, quando está tudo bem, e você não consegue ser feliz com nada, é um problema muito maior, porque você não consegue atingir o mal. O meu sonho era virar pescador e morar numa praia deserta. O meu ideal de felicidade, de alegria, era o contrário do que eu vivia. mesmo no auge dos Raimundos. Eu não agüentava essa bajulação que o artista sofre. Sair na rua, gritaria, autógrafo, gente querendo um pedaço da tua roupa, não poder ir a qualquer lugar sossegado. Tudo isso me consumia. Fui ficando mal-educado, arrogante, não conseguia tratar ninguém bem, porque aquilo representava tudo o que eu não queria. E quando eu vi eu tinha me tornado uma coisa que eu detestava. Eu comecei a tocar punk rock, era underground e, de repente, a banda ficou super pop. Aquilo era uma agressão, porque eu tinha me tornado uma coisa que eu odiei por muito tempo. Era muita confusão. Eu não estava confortável com aquilo ali não. Cantava uma coisa que eu não vivia mais. Eu estava de aliança no dedo falando de sacanagem para a molecada. Me sinto feliz de não ter mais que fumar um baseado para acordar e ter que falar sobre maconha para a molecada. O real motivo para a minha saída dos Raimundos foi que eu me tornei uma coisa que não cabia mais nos Raimundos. Eu cometi um erro que foi não ter anunciado oficialmente: "estou saindo por este e por aquele motivo". Eu simplesmente saí, e aí começou a pipocar um monte de história nada a ver. Um monte de picuinha, estimulada até pela gravadora."

A cena

"O Raimundos fez parte de uma cena da época. Parece que cada década tem a sua cena. Os anos 1990 começaram com aquela parada de grunge, algo que você não consegue rotular, só porque aquelas bandas vieram do mesmo lugar, Seattle. Mas Alice in Chains não tinha nada a ver com Nirvana que não tinha nada a ver com Stone Temple Pilots que não tinha nada a ver com nada. Mas era uma cena e deram um nome pra essa cena. E no Brasil estava acontecendo uma coisa, diferente deles, mas similar nesse negócio de cena. Era algo voltado para o regionalismo. Por exemplo, Planet Hemp era uma banda supercarioca, era aquele hip hop com rock e psicodelia, mas supercarioca, tinha a cara do Rio de Janeiro. Chico Science era a cara do Recife. Raimundos era a cara do Nordeste, apesar de sermos todos de Brasília. Tinham bandas gaúchas, como Ultramen, Graforréia Xilarmônica, que eram bandas supergaúchas. Pato Fu e Skank, supermineiros. Parecia que era um movimento gringo com cara de Brasil. Hoje em dia é diferente, são bandas brasileiras com cara de gringo, a roupa, o estilo, os cabelos, esse negócio emo, é uma parada completamente gringa, eles só cantam em português. Um monte de menininho bonitinho. Se a gente tivesse continuado juntos, aquele bando de caras feios, não sei se sobreviveríamos hoje como um produto."

Raimundos

"O Raimundos despontou demais porque era muito escrachado. Destacava aquele monte de palavrão, aquela gritaria. Era tudo ao contrário do que o sistema queria. A gente não tinha medo de inventar e sofríamos muita crítica, em todos os discos, por causa disso. A gente vinha com umas paradas novas, o pessoal da gravadora se surpreendia e, quando começavam a se acostumar, a gente já vinha com outra coisa diferente. Não tínhamos uma fórmula, sempre vínhamos com algo diferente. No primeiro CD, gravamos tudo aquilo que a gente vinha escrevendo e tocando desde o colégio. O primeiro CD é interessante porque nele você grava o trabalho de sua vida inteira até aquele momento. No segundo CD, você grava o trabalho de um ano. O primeiro é mais original porque você nunca pensou em fazer todo aquele sucesso, você coloca aquelas músicas mais loucas tudo num CD. No segundo, você já precisa compor tudo novo. Vem cobrança da gravadora, aquela coisa chata, mas a gente se colocava ali livre para fazer o Lavô Tá Novo super esculachado. Aí apareceram os Mamonas (Assassinas), super engraçados, e eles explodiram. Os Mamonas eram os Raimundos sem os palavrões para poder tocar na rádio. Então, a gente quis fugir do bagulho engraçado. O Lapadas do Povo não tinha nada de engraçado e era pesado pra caramba, a afinação dos instrumentos tudo em Ré e em Lá. A gente não tinha medo de se reinventar. Mas o disco não foi muito bem recebido porque, no primeiro show, em Santos, morreram oito pessoas num acidente sinistro no final, quando caiu uma escada na saída de emergência. Aquele CD ficou marcado por essa tragédia. Não tínhamos nenhuma música na rádio, mas os shows estavam cada vez mais lotados. Depois veio o Só no Forevis, aquele que tem Mulher de fases, que explodiu também com tudo. O último que gravei com a banda foi o Ao Vivo, depois saí."

Música cristã

"Você ouve aquilo que lhe atrai, aquilo com que você se identifica. Eu segui outros valores, e nessa cultura na qual eu estou hoje , a da palavra de Cristo, eu ouço aquilo com que eu me identifico, então acabo ouvindo música cristã. Se você quiser ouvir death metal cristão você escuta. No rock tem bandas fantásticas, como o Apocalipse 16, que também é superconceituada no meio secular. De rock gringo tem uma banda melhor que a outra, você ouve o estilo que você quiser. Mas o novo, pra mim, hoje, o que eu mais gosto, é tocar violão. Antes era coisa que eu não gostava de jeito nenhum. Mas, hoje, a gente vai tocar em alguns lugares em que eu apresento um setzinho mais acústico, só eu e o violão, é uma delícia. Você não sua. Hoje eu me considero um músico melhor, mas não toco mais na MTV. "

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