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Santa Catarina lidera diferença salarial entre homens e mulheres no país

A remuneração média delas no mercado formal foi 30% inferior em 2010, e o desnível tende a crescer

28/05/2011 - 16h41

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Por Redação NSC

Juliana Rezende Torres, 36 anos, tem um currículo de respeito: bacharelado e licenciatura em Ciências Biológicas, mestrado em Educação e doutorado em Educação Científica e Tecnológica. Todos diplomas obtidos na UFSC. O investimento em formação rende a ela o salário mensal de R$ 1,9 mil como professora de escola pública da Capital.

Thiago de Oliveira, 26 anos, está no primeiro emprego. Formado em Engenharia de Telecomunicações, não diz quanto ganha, mas revela que dispensou proposta da operadora Vivo cuja remuneração era de R$ 4,7 mil. Ele preferiu ficar numa empresa de tecnologia de Florianópolis.

Não é nenhuma novidade que, no Brasil, as mulheres recebam menos. O que salta à vista é que Santa Catarina lidere este ranking desagradável: aqui no Estado há a maior diferença salarial entre sexos do país. O contracheque dos homens é, em média, 30,3% superior, e quanto maior a instrução, maior a diferença salarial (veja gráficos). Os dados constam da Relação Anual de Informações Sociais (Rais) 2010, um retrato ampliado do emprego com carteira assinada divulgado pelo Ministério Trabalho.

O técnico do Sistema Nacional de Empregos de SC, Osnildo Vieira Filho, fez um estudo sobre o assunto. Descobriu que a diferença salarial por gênero ocorre em todas regiões do Estado, faixas etárias e níveis de instrução.

A explicação não está na jornada semanal. As mulheres trabalham 42 horas; os homens, apenas uma hora a mais. Além disso, a população feminina estuda, em média, 10 anos, contra nove anos e três meses dos homens - 53% deles completaram o ensino médio, diante de 64% delas.

O principal motivo, então, da diferença salarial seria mesmo as profissões escolhidas e os cargos ocupados, como revelam as trajetórias profissionais de Juliana e Thiago.

Os homens optam por carreiras no campo das exatas, como engenharia. A média dos salários de contratação é de R$ 2,8 mil. As mulheres preferem as áreas de humanas e saúde. Trabalham como enfermeiras, professoras e assistentes sociais. No ensino, por exemplo, a carteira é assinada com remuneração média de R$ 1,3 mil.

Resumindo: as mulheres estão em maior número nas profissões que pagam menos, enquanto os homens são predominantes nas ocupações com melhores salários.

Osnildo ressalta que há mais homens ocupando cargos de gerência e direção, que pagam 54% a mais. Ao todo, 15,7% dos homens com nível superior têm postos de chefia, enquanto 11,9% das mulheres com a mesma formação chegam a este patamar na carreira.

O professor da UFSC Lauro Mattei, pós-doutor em Economia, diz que a evolução dos homens nas empresas aumenta ainda mais diferença salarial entre os gêneros. Isso fica evidente na média de reajuste apontada pela Rais em 2010. Enquanto os homens obtiveram 4,63%, as mulheres, só 3,72%.

Mattei remonta às décadas de 1980 e 1990 para explicar este abismo entre os salários. Neste período, muitas empresas chegaram ao limite do modelo fordista de produção, onde cada funcionário tinha uma única função na linha de montagem. Ele foi substituído pelo toyotismo, em que era necessário entender o processo e fazer mais de uma função. Os programas de qualificação de empregados atenderam muito mais homens, o que consolidou a diferença.

Acima de tudo, a barreira é cultural: ao menos 200 anos de história em que o homem é mais valorizado.

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