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Além da maçã

Santa Catarina tem potencial para investir em novas variedades da agricultura de clima temperado

A feijoa, o mirtilo, a azeitona e o lúpulo são apenas quatro exemplos de culturas que poderiam aumentar renda de agricultores catarinenses

27/06/2015 - 13h31

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Por Redação NSC
Shu Otani planta a feijoa desde 1991 e deu as primeiras mudas para a pesquisa da Epagri
Shu Otani planta a feijoa desde 1991 e deu as primeiras mudas para a pesquisa da Epagri
(Foto: )

A feijoa, o mirtilo, a azeitona e o lúpulo. Respectivamente, um fruto que é nativo da Serra catarinense, mas produzido e exportado pela Colômbia e pela Nova Zelândia - países onde nunca existiu de forma natural -, uma frutinha que chega a custar mais de R$ 10 em uma bandeja de 100g no supermercado, um produto quase onipresente em nossa gastronomia, inteiro, em rodelas ou como óleo, e uma flor que é um dos produtos mais utilizados pela indústria de bebidas do país e do mundo.

São quatro culturas que dependem de um clima temperado, que altere dias relativamente quentes com outros frios, o mesmo encontrado nas regiões da Serra e do Meio Oeste de Santa Catarina. Ao mesmo tempo, são oportunidades que o Estado ainda não aproveita e, em alguns casos, nem existem esforços oficiais para conseguir desenvolver. Existem, no entanto, alguns pioneiros que mostram a viabilidade desses produtos por aqui.

- Estamos pensando em criar um programa de novas atividades, para que o poder público participe do risco, em que hoje nós participamos apenas na pesquisa. A ideia é trazer novas culturas, como nós já trouxemos o mirtilo. Às vezes falta o fomento para estruturar a produção e o mercado - conta o secretário-adjunto da secretaria estadual de agricultura, Airton Spies.

Pioneiro estrangeiro em uma cultura nativa

"Seu" Shu Otani leva a mão à nuca toda vez que busca na memória alguma informação do passado, mas guarda viva a recordação da primeira vez que sentiu o aroma da goiaba serrana. Imigrante japonês, o agricultor de São Joaquim, na Serra, ganhou o fruto de presente de um vizinho em 1987 e se apaixonou pelo cheiro e gosto do alimento.

- Levei para casa e esqueci na cozinha. Uns dias depois cheguei e senti um aroma maravilhoso. Falei com meu amigo e busquei umas mudas para testar no jardim.

Quase trinta anos depois, é um dos poucos que o cultiva em todo o país. A fruta não é o principal sustento do nipo-brasileiro, que vive da plantação de maças, mas ganha um carinho especial. Ele mostra o meio hectare de área que cultiva sozinho na sua propriedade relembrando cada detalhe da sua história com o alimento. A área aumentou e diminuiu diversas vezes neste período, só o que não minguou foi o encantamento de 'Seu' Otani com fruto:

- Japonês não gosta de coisa muito doce, a goiaba tem o sabor perfeito, agrada muito. Quando tem colheita, a gente separa umas e leva para casa.

A feijoa, também chamada de goiaba serrana, é uma planta típica de locais frios e precisa de oscilações bruscas de temperatura para melhorar o sabor e o aroma. Como se trata de uma planta perene, dispensa o replantio e atinge sua capacidade de produção total a partir do quarto ou quinto ano.

E pesquisas lá pela Nova Zelândia, onde o fruto brasileiro se popularizou, mostraram que é na verdade uma "superfruta", denominação dada a alimentos que possuem vários efeitos benéficos à saúde. Além de rica em vitamina C e de ter propriedades anti-inflamatórias, ela tem também antioxidantes, substância que ajuda a retardar o envelhecimento.

- É uma alternativa para plantios em áreas menores ou como um plantio complementar. É uma oportunidade e a gente vê como ela está sendo reconhecida fora daqui no mundo - conta a engenheira agrônoma da Epagri de São Joaquim, Marlise Nara Ciotta.

Talvez seja uma oportunidade para um de seus principais incentivadores. Hoje, a manutenção dos pés de goiaba não dá lucro ao agricultor, que aos poucos transfere o trabalho no campo ao filho. O custo, em torno de R$ 25 mil, e o retorno financeiro quase se igualam. Ele reclama na falta de incentivo à pesquisa, mas não perde o senso de humor:

- Faço, como se diz, por hobby, e por teimosia (risos). Hoje me divirto com meu jardim, deixo meu filho trabalhar, mas não sei se ele vai continuar com isso (a plantação de goiabas).

Foi Otani quem forneceu as primeiras mudas para as pesquisas da Epagri com a Feijoa, no início das pesquisas há mais de uma década. Agora, pela primeira vez, o órgão estadual vai fazer 2000 mudas da planta para vender e tentar disseminar a cultura na região.

Complemento ao plantio da maçã

Com a cor azulada que lembra, de longe, um cacho de uvas, o mirtilo ressurgiu aos agricultores de São Joaquim em 2004 como opção para manter os funcionários das plantações de maça fora dos períodos de raleio, a seleção da fruta no pé, e colheita. Meses em que, normalmente, as áreas não precisam de cuidados.

O agricultor Marco Massayuki Yamaguchi, 44 anos, conta que a sugestão para o cultivo do fruto partiu da Epagri:

- Na época em que não precisamos lidar com as maças, fica difícil de manter o pessoal. Com o mirtilo, conseguimos pagá-los e segurá-los conosco.

Filho de imigrantes japoneses, ele faz questão de esclarecer que os benefícios param por aí. A dificuldade de armazenamento e manutenção impedem o aumento da área em Santa Catarina.

- Não há uma forma de mantê-los comestíveis depois de uma semana de plantio. Diferente da maça, não foi desenvolvido um processo que nos permita isso - reafirma Yamaguchi.

Assim, o alimento tem que ser vendido logo depois da colheita como fruta para consumo ou suco para produção de bebidas. O preço varia de acordo com cada tipo de comercialização, cerca de R$ 3,00 o suco, R$ 7,00 o fruto, mas ficam longe de tornarem o cultivo rentável diante das dificuldades de transporte e de acesso aos maiores mercados.

Foto: Marco Favero

Segundo o pesquisador da Embrapa Luís Eduardo Antunes, o Brasil tem uma área muito pequena de mirtilo. O Rio Grande do Sul ainda é referência, principalmente no município de Vacaria. O Brasil e Santa Catarina vivem um momento contrário ao de dois vizinhos do país. Chile e Argentina já desenvolveram esse cultivo de forma comercial, inclusive com exportação do fruto.

No Brasil, há, sim, potencial, mas o país depende muito de mão-de-obra, o que é um problema atualmente. Em Santa Catarina, ele avalia que o cultivo é disperso e ainda não tem importância econômica.

Nas lojas de produtos naturais, ele está presente em quase todas - normalmente desidratado. Quem compra está em busca de suas características antioxidantes, do potencial que o fruto tem em reduzir a glicemia e da ação de prevenção ao câncer, pela presença as substâncias ácido elágico e polifenóis.

Azeite de qualidade extravirgem, mas ainda sem produção comercial

A área plantada de oliveiras no Estado ainda é insignificante quando comparada com outras duas culturas mais tradicionais da agricultura, como a soja e o milho, explica o engenheiro agrônomo Eduardo Brugnara. Mas a produção local tem vantagens que podem contribuir com seu desenvolvimento. Azeitonas produzidas aqui em Santa Catarina renderam, em testes feitos pela Epagri, azeite que se adequa a padrões internacionais dentro da qualidade "extravirgem", a melhor de todas.

- Tem a vantagem de uma área pequena conseguir uma receita alta de produção. Mas quem quiser produzir azeite vai precisar se unir em cooperativas ou encontrar uma agroindústria que compre a produção - destaca Brugnara, pelo custo dos equipamentos necessários para espremer o óleo do fruto.

E a o plantio, que se deu bem nas regiões Meio-oeste e Oeste do Estado em testes preliminares, pode ser realizado em áreas de inclinação média - onde não é adequado plantar grãos. Há oito plantios comerciais mapeados pela Epagri nas duas regiões. E o órgão está com nove áreas em teste para verificar volume de produção e qualidade em áreas espalhadas pelo território catarinense.

Foto: Dorli Mario Da Croce / Arquivo pessoal

Por enquanto, a melhor adaptação parece ser no município de Caçador. Os resultados vem da propriedade do senhor Tranquilo Scolaro, na Linha São Francisco. Ele planta como principal produto da fazenda a uva, mas mantém uma área com oliveiras.

No país como um todo, são cultivados apenas cerca de 500 hectares de oliveiras, parte no Rio Grande do Sul e o restante em São Paulo e Minas Gerais. Mas já há produção comercial em escalas nesses locais.

Um dos maiores mercado do mundo sem nenhuma produção própria

O Brasil é o terceiro maior produtor de cerveja do mundo. E, na fabricação desta bebida tão consumida no país, entra o lúpulo. Apesar de ser um grande consumidor, o país não produziu praticamente nada das 110 mil toneladas produzidas anualmente no mundo, metade disso apenas na Alemanha e nos Estados Unidos.

As regiões no mundo que produzem essa flor - sim, ele é a floração da planta e não um fruto - também produzem maçã, uva e mirtilo. Ou seja, Santa Catarina tem as condições adequadas para isso, mas ainda não ocorreram testes para tentar a introdução da cultura no Estado.

Nem a Epagri, que faz pesquisas agrícolas para o Estado, e nem a Embrapa, que faz esses estudos para o país, tem iniciativas para adaptar a cultura ao Brasil. Há apenas tentativas isoladas por produtores do Rio Grande do Sul e de São Paulo.

Foto: Rodrigo Veraldi / Arquivo pessoal

É o caso do agrônomo Rodrigo Veraldi Ismael, que começou fazer testes em seu sítio em São Bento do Sapucaí, São Paulo. Há 10 anos, ele separou um lote de sementes e avaliou um lote de plantas em estufa. Dois anos depois, separou duas variedades e descartou o resto em um local da propriedade onde deposita os resíduos de jardinagem e dos viveiros.

- Ao avaliar as plantas que havia selecionado em campo percebi que não estavam indo bem por conta de doenças ocasionadas pelas chuvas do verão. Já desanimado, concluindo que o lúpulo não sobreviveria em condições de campo, encontrei ao caminhar por perto do "bota fora" uma planta sobrevivente daquele lote descartado. Estava em excelente estado, sem doenças e produzindo em abundância debaixo de uma chuva de 15 dias _ conta Veraldi.

Agora ele está com dois mil pés plantados, em mudas daquela mesmo exemplar, e um contrato de exclusividade para produzir amostras para a cervejaria Baden Baden, do município próximo de Campos do Jordão.

Houve um tentativa, por parte de uma empresa privada, de plantar lúpulo na Serra catarinense em 2011. Neste ano, a mesma empresa, chamada Biotec, faz uma nova tentativa para viabilizar a produção em São Joaquim. Guilhermo Zapelini, diretor da companhia, promete que deve existir uma fazenda modelo até o final do ano, apesar de ainda não possuir nenhum terreno para tal.

Além de na fabricação da cerveja, o lúpulo é usado em várias fórmulas farmacêuticas como calmante e anticonvulsivante, e possui propriedades antibacterianas. Mercado há. E as experiências, realizadas sem apoio oficial, provam que impossível não é.

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