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    Seis vezes Formiga: seleção feminina estreia em busca do ouro inédito com veterana em campo

    Brasil encara a China, nesta quarta-feira às 16h, no primeiro dia de competições da Olimpíada do Rio

    03/08/2016 - 02h07 - Atualizada em: 03/08/2016 - 07h12

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    Por Redação NSC
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    Em 1995, quando Andressa Cavalari Machry nascia em Roque Gonzales, no interior do Rio Grande do Sul, a baiana Miraildes Maciel Mota, a Formiga, estreava como jogadora da seleção brasileira de futebol feminino.

    Andressinha cresceu, virou atleta e também conquistou espaço no time nacional, que estreia hoje nos Jogos Olímpicos, em partida contra a China. Só uma coisa não mudou nesses 21 anos. Ela vai atuar ao lado de Formiga, que segue na equipe, inabalável, aos 38 anos de idade. Em vez de promessa, a baiana agora é uma das maiores lendas do esporte nacional. Vai disputar sua sexta olímpiada, caso único na modalidade e feito inédito para qualquer atleta brasileira.

    Apesar da trajetória impressionante, a número 8 da seleção não é um nome familiar para todos, talvez porque grande parte de sua carreira tenha transcorrido à sombra de Marta, a atacante eleita cinco vezes como melhor do mundo. Mas profissionais enfronhados no esporte afirmam que Formiga merecia muito mais reconhecimento. Treinador das duas atletas nos Jogos Olímpicos de Pequim (2008) e de Londres (2012), Jorge Barcellos é taxativo:

    – Se dependesse de mim, teria indicado a Formiga como melhor do mundo. Acho que não foi eleita porque a função dela, de armadora, não aparece tanto. Mas vocês vão ver nesta Olimpíada. Ela é um espetáculo jogando. Tem leitura de jogo, consegue fatiar o campo, consegue ajustar a equipe durante os jogos. E ainda tem muito fôlego.

    Com duas medalhas olímpicas de prata no currículo (em 2004 e 2008), um vice nas seis Copas do Mundo que disputou, ouro em três edições dos Jogos Pan-Americanos, um título sul-americano, três Libertadores e o campeonato mundial de clubes de 2014, a meio-campista precisou lutar contra o preconceito e a pobreza para virar jogadora de futebol, um sonho de infância. Em entrevista recente, contou que a primeira coisa que fez ao ganhar uma boneca de presente, quando tinha sete anos, foi arrancar a cabeça fora, para fazer de bola.

    Formiga perdeu o pai aos oito meses, vítima do Mal de Chagas, e durante a infância sua mãe passava o dia fora, trabalhando. À noite, ao retornar, encontrava a garota com as canelas encardidas de lama, porque passara o dia a jogar futebol entre os meninos, na periferia de Salvador. Era uma opção incompreendida e reprimida, inclusive pelos irmãos, que lhe batiam – fosse por machismo, por desejo de protegê-la ou para evitar a fama de pernas-de-pau, que começaram a ganhar em consequência da habilidade superior da mana.

    – Tive dificuldade com dois irmãos, porque eles não queriam me ver jogando bola. Chegou ao ponto de eu apanhar algumas vezes. Os vizinhos me chamavam de mulher-macho, diziam que eu não ia prestar. Desde que nasci, foi sempre muita luta. Se eu fosse parar de jogar bola por tantas coisas que ouvi, não estaria aqui hoje. Mas o futebol é a minha vida. Por isso eu falo para as meninas engolirem o choro e não desistirem. Tem de enfrentar. Porque é caindo que a gente aprende a se levantar e a conquistar o que sonhou – relatou Formiga.

    Em 2008, Formiga ajudou a seleção a conquistar a prata em Pequim
    Em 2008, Formiga ajudou a seleção a conquistar a prata em Pequim
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    Um dos irmãos da jogadora, o cabeleireiro Manassés Maciel Mota, 42 anos, confirma que a ela sofria preconceito e apanhava por jogar futebol – mas afirma que quando os manos batiam era porque a queriam no próprio time, onde poderiam protegê-la da maldade dos adversários.

    – Ela jogava no meio dos meninos, porque não havia time feminino, e se destacava. Batiam nela durante os jogos, mas mesmo apanhando ela continuava a jogar. Todos sonhavam ser jogadores, mas ela que conseguiu. Lutou mesmo pelo sonho dela e teve o reconhecimento.

    Formiga se saía tão bem entre os garotos que acabou por ser descoberta e convidada para atuar numa equipe feminina local. Faltava recurso para comprar chuteiras, e o dinheiro do ônibus dependia de recolher contribuições entre familiares, mas nada podia mais segurá-la. Aos 13 anos, saiu de casa para viver em um centro de atletas. Aos 15 anos, foi jogar pelo São Paulo e converteu-se em revelação do campeonato nacional. Aos 17, disputou a primeira Copa do Mundo, na Suécia. Aos 18, fez sua estreia em uma Olimpíada, a de Atlanta (1996).

    – Naquele momento, não sabia o que era participar de uma Olímpiada. Para mim, era como se fosse jogar um campeonato de bairro. Eu levava dessa maneira. Não carregava peso nas minhas costas. Só depois da segunda Olimpíada, quando comecei a ser titular e era reconhecida pelas pessoas, começou o frio na barriga. Ali eu comecei a sentir o peso das coisas – relatou no ano passado.

    Estreia de Formiga nas Olimpíadas foi em 1996, em Atlanta
    Estreia de Formiga nas Olimpíadas foi em 1996, em Atlanta
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    A partir de então, Formiga é uma líder incontestável e reconhece que, por causa da experiência, tem responsabilidades acrescidas e precisa carregar o fardo pelas colegas mais novas. Apesar de o apelido ser uma referência à baixa estatura (1m62cm), ele serve também para descrever a dedicação de formiguinha que a baiana, famosa por correr pelo time todo, demonstra. Barcellos conta que essas características fizeram dela uma peça fundamental na prata conquistada em Pequim.

    – Na semifinal, contra a Alemanha, o Brasil saiu perdendo. Foi ela quem chamou a responsabilidade e puxou o grupo. Viramos o jogo. Sou até suspeito para falar, porque ela me ajudou demais como treinador. Ela cativa o grupo, sem nunca usar a trajetória para se impor – relata.

    Na final de Pequim, contra os Estados Unidos, o Brasil perdeu na prorrogação. Formiga pressentiu a derrota quando a Seleção acertou uma bola na trave adversária.

    – Olhei para cima e falei: "Meu Deus, não é nossa, né? Mas não vou me abalar, não." E quando acabou, vi as meninas jogadas no chão, chorando. Por incrível que pareça, caiu uma lágrima apenas dos meus olhos. Olhei para o céu e disse: "Obrigado, obrigado porque eu sei que se não aconteceu agora, vai acontecer lá na frente". Abracei cada uma delas: "Levanta a cabeça. Tem muita coisa lá na frente".

    Não foi em Londres, em 2012, que essa expectativa se realizou. Depois de uma preparação precária, de menos de dois meses, o Brasil até começou bem, vencendo as duas primeiras partidas e se classificando por antecipação para a segunda fase. Como Formiga havia tomado um cartão amarelo e o segundo significaria ficar fora de um jogo decisivo, Barcellos decidiu poupá-la no último confronto da fase de grupos, contra a Inglaterra. Sobreveio a derrota.

    – A equipe ficou desguarnecida. Ali ficou claro como ela fazia falta – conta o técnico.

    Por ter perdido, a seleção teve de enfrentar o Japão, que obteria a medalha de prata, e acabou eliminada. Formiga, então com 34 anos, voltou ao país dizendo que havia encerrado sua participação na Seleção, desapontada com a falta de apoio à modalidade. Acabou revertendo a decisão.

    Desde o ano passado, faz parte da seleção permanente, um grupo de jogadoras que recebem R$ 9 mil ao mês para dedicar-se com exclusividade à equipe nacional. Para isso, recusou proposta de ganhar bem mais no Rosengard, da Suécia, uma das equipes de ponta do futebol feminino. Na fase preparatória, recusou-se a ter carga de treino inferior à das colegas e descobriu-se a pensar, com frequência, nas várias gerações de meninas com quem já jogou, procurando entender onde o Brasil errou no passado, de forma a ajudar o novo grupo, recheado de atletas muito mais jovens, como Andressinha, a evitar as mesmas falhas no Rio.

    Duas décadas depois de estrear em uma Olímpiada, Formiga garante estar 100% e acredita que a hora do Brasil chegou. Está convencida de que, com a torcida a favor, a Seleção só não ganha "se Deus não quiser".

    – Tivemos condição de conseguir a medalha lá atrás, mas deixamos escapar duas vezes. Já falei para as meninas: é a minha última Olimpíada e quero fechar com ouro. Fico pensando nisso, imaginando chegar à final, imaginando que o jogo acaba e somos campeãs. Eu sonho com isso acordada – revelou dias atrás.

    TORNEIO OLÍMPICO DE FUTEBOL FEMININO

    BRASIL x CHINA - 1ª RODADA - GRUPO E - 3/8/2016 - 16h

    BRASIL

    Bárbara; Poliana, Mônica, Érika e Tamires; Andressinha, Formiga e Marta (C); Debinha, Cristiane e Beatriz.

    Técnico: Oswaldo Alvarez

    CHINA

    Zhao Lina; Wu Haiyan, Zhao Rong, Li Dongna (C) e Liu Shanshan; Tan Ruyin, Pang Fengyue, Wang Shanshan, Zhang Rui e Wang Shuang; Yang Li.

    Técnico: Bruno Bini

    LOCAL: Engenhão, Rio de Janeiro

    INÍCIO: 16h

    O JOGO NO AR: a Rádio Gaúcha abre a jornada esportiva às 15h30min. RBS TV, Band, SporTV, Fox Sports e ESPN Brasil transmitem o jogo vivo.

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