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Covid-19

Surtos da América Latina se equiparam agora com os da Europa

A pandemia está atingindo a região após uma longa estagnação econômica, que levou vários países, incluindo o Equador e o Brasil, a cortar o orçamento da saúde

26/05/2020 - 18h01

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Por The New York Times
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*Por Anatoly Kurmanaev, Manuela Andreoni, Letícia Casado e Mitra Taj

As mortes dobraram em Lima, rivalizando com o pior mês da pandemia em Paris. Triplicaram em Manaus, metrópole escondida na Amazônia brasileira – números semelhantes aos de Londres e Madri.

Em Guayaquil, cidade portuária do Equador, o aumento repentino das mortes em abril foi comparável ao que a cidade de Nova York experimentou durante seu pior mês: mais de cinco vezes o número de pessoas mortas em comparação a anos anteriores.

À medida que o número de contaminações diminuiu em Nova York e nas capitais europeias, uma onda devastadora atingiu cidades da América Latina, equiparando-se com os piores surtos do mundo, segundo uma análise dos dados de mortalidade feita pelo "The New York Times".

As cidades brasileiras estão recorrendo a valas comuns para enterrar fileiras de caixões. Centenas de equatorianos ainda estão procurando os corpos de familiares que foram para os hospitais e nunca mais voltaram.

E, enquanto as catástrofes na Europa e nos Estados Unidos foram acompanhadas de perto, ocorrendo sob intenso escrutínio da mídia internacional, grande parte da dor da América Latina está se desenrolando longe da visão global, sob governos que não podem – ou não querem – oferecer uma contagem completa dos mortos.

"Não estávamos preparados para esse vírus. Quando essa doença nos atingiu, nos trancamos, trancamos nossas casas, nos isolamos, mas ninguém tinha recursos para comprar máscaras, remédios. Faltou comida", disse Aguinilson Tikuna, líder indígena de Manaus que perdeu amigos na pandemia.

O "The Times" mediu o impacto da pandemia nas principais cidades do mundo, comparando o número total de pessoas que morreram nos últimos meses com a média em cada lugar nos últimos anos.

Os totais incluem óbitos por Covid-19, bem como por outras causas, incluindo pessoas que não puderam ser tratadas, pois os hospitais estavam sobrecarregados de pacientes. E, embora nenhuma medida seja perfeita, o aumento das mortes mostra as consequências da pandemia, dizem os demógrafos.

Na América Latina, a crise foi agravada por hospitais subfinanciados, poucos sistemas de tratamento intensivo e economias em dificuldades, com muito menos recursos do que na Europa ou nos Estados Unidos.

As rodovias peruanas foram tomadas pela maior onda de migração interna em anos, à medida que as pessoas fugiam para o campo quando os empregos foram desaparecendo. Dezenas de milhares de refugiados venezuelanos foram forçados a voltar caminhando para sua terra natal, porque o trabalho nos países vizinhos se tornou escasso.

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A pandemia está atingindo a região após uma longa estagnação econômica, que levou vários países, incluindo o Equador e o Brasil, a cortar o orçamento da saúde. Essas duas nações apresentam agora as piores taxas de mortalidade na região.

"Não podemos ter sistemas de saúde que só sirvam às pessoas que podem pagar. Enquanto a pessoa com menor renda não puder acessar os serviços de saúde mais básicos e essenciais, todos estarão em risco", afirmou Carina Vance, ex-ministra da Saúde do Equador.

Enfrentar a pandemia após a China, a Europa e os Estados Unidos trouxe um conjunto adicional de desafios. Autoridades no Equador, no Peru e no Brasil apontaram a escassez global de testes e explicaram que esses países estavam sendo superados por nações mais ricas na busca por suprimentos médicos escassos.

A decisão do presidente Donald Trump de congelar o financiamento para a Organização Mundial da Saúde pode dificultar seus esforços de ajuda, que se estendem a países particularmente vulneráveis, como a Venezuela e o Haiti. E a China, que concedeu empréstimos multibilionários para a América Latina durante a crise financeira global em 2008, se limitou a enviar alguns carregamentos de equipamentos de proteção e kits de teste.

Complicando ainda mais a resposta, a doença tem se espalhado por toda a região, desafiando explicações. O Chile, que está relativamente bem, foi poupado até agora, assim como o Paraguai, mais pobre.

O governo peruano respondeu rapidamente com um bloqueio rigoroso, mas as mortes aumentaram lá, assim como no Brasil e no México, onde os líderes subestimaram a ameaça do vírus. O governo mexicano não informou centenas, possivelmente milhares, de mortes causadas pelo coronavírus na Cidade do México, de acordo com autoridades e dados confidenciais.

O Brasil, país mais populoso da região, tem, no momento em que este artigo é escrito, mais de 11.519 mortos pelo vírus, segundo o registro oficial. Essa é uma das maiores taxas de mortes do mundo, mas o presidente, Jair Bolsonaro, continua a ignorar sua responsabilidade e a negar a necessidade de distanciamento social. Os números reais no Brasil são provavelmente muito maiores por causa de testagem limitada.

Quando perguntado sobre as mortes, Bolsonaro respondeu: "E daí? Sinto muito. O que você quer que eu faça?"

O vírus tem sido particularmente duro em Manaus, uma metrópole quente, úmida e remota de dois milhões de habitantes na floresta amazônica. A cidade registrou cerca de 2.800 mortes em abril, cerca de três vezes mais do que sua média histórica para o mês. O aumento é comparável ao que Madrid experimentou no auge de sua epidemia, de meados de março a meados de abril, de acordo com a análise do "The Times".

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O surto em Manaus expôs as consequências da profunda desigualdade econômica do Brasil e da política polarizada. Manaus tem lutado para obter os equipamentos médicos de que precisa, declarou seu prefeito, Arthur Virgílio Neto.

"Sofremos com a ausência do governo federal", disse Virgílio, sufocando as lágrimas. Ele acredita que a pouca adesão da população ao distanciamento social se deva ao desdém público de Bolsonaro.

O recebimento de insumos tem sido ainda mais complicado pela logística, uma vez que a região tem poucas estradas de acesso e precisa contar com o transporte fluvial ou aéreo para atender às suas necessidades, explicou ele.

Em abril, nos cemitérios superlotados da cidade, coveiros empilhavam três camadas de caixões em grandes valas comuns para atender à demanda por enterros. Enquanto os hospitais colapsavam com o dilúvio de pacientes, os corpos enchiam seus corredores. Pela cidade, as ambulâncias lutavam para recolher aqueles que nunca chegaram ao hospital e morreram em casa.

A crise de Manaus também está preocupando as centenas de grupos indígenas que vivem na floresta circundante. Eles geralmente têm pouco ou nenhum acesso a cuidados de saúde, e podem ser expostos ao vírus quando se reúnem nas cidades para ter acesso ao dinheiro de emergência oferecido pelo governo, ou quando se deparam com garimpeiros e madeireiros ilegais que entram em suas terras.

A resposta caótica do Brasil à pandemia contrasta com as medidas rápidas e eficientes implementadas no vizinho Peru.

O presidente do Peru, Martín Vizcarra, ordenou um dos primeiros bloqueios nacionais no continente e enviou policiais e militares às ruas para coibir os infratores. Anos de administração econômica prudente permitiram que o país implementasse o pacote de ajuda econômica mais abrangente da região, incluindo transferências de dinheiro e empréstimos acessíveis destinados a ajudar os cidadãos a ficar em casa.

Mas a tranquilidade que muitos peruanos sentiram se transformou em resignação à medida que o vírus ia tomando o país.

Recentemente, o aumento das mortes forçou um hospital peruano a empilhar corpos do lado de fora. Outros hospitais tiveram de tratar os pacientes ao ar livre porque não tinham leitos suficientes. Na região amazônica de Loreto, os médicos disseram que os pacientes de Covid-19 estavam morrendo a uma taxa de um por hora em meio a uma grave escassez de tanques de oxigênio.

No total, Lima teve cerca de 6.200 mortes em abril, ou mais que o dobro de sua média histórica para esse período, quase igualando a taxa de mortalidade de Paris em seu pior mês na pandemia.

"Não parece justo. Nós nos sacrificamos tanto", lamentou Jimena Villavicencio, contadora de 28 anos em sua saída semanal para comprar mantimentos em Lima.

No Equador, os soldados continuam patrulhando as ruas de Guayaquil semanas após um surto de coronavírus ter provocado um aumento de mortes que foi mais de cinco vezes a média dos últimos anos. Isso é semelhante ao aumento que Nova York vivenciou durante seu pico.

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Durante duas semanas, Guayaquil entrou em colapso, forçando os moradores a deixar corpos nas ruas por dias ou enterrá-los em caixas de papelão. Com as mortes agora em declínio, o governo do Equador está tentando reiniciar a economia devastada, tendo anunciado na semana passada uma liberação gradual do bloqueio. Mas, quase uma semana depois, por medo de um novo surto, apenas duas das 221 cidades do país começaram a relaxar a quarentena.

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