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Um ano após enxurrada, reconstrução continua em cidades do Oeste de SC 

Famílias atingidas lembram das dificuldades e da superação para retomar a rotina

14/07/2016 - 05h04

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Por Redação NSC
Família foi resgatada por helicóptero em Saudades
Família foi resgatada por helicóptero em Saudades
(Foto: )

Há exatamente um ano, quando avistou o helicóptero do Serviço Aeropolicial da Fronteira (Saer/Fron) que foi resgatar cinco pessoas da família Lauxen, ilhadas em cima de pés de cinamomo, no meio da água do rio Saudades, Oeste de SC, o menino Bruno Lauxen falou para o pai, Clairton:

— Pai, eu ainda vou jogar bola contigo naquele campo.

VÍDEO: Família é resgatada do topo de árvore em Saudades, no Oeste de SC

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O menino realizou o sonho. O campo está recuperado, a sede do camping da família foi reconstruída com um empréstimo a juro zero de uma cooperativa de crédito, a família recebeu uma casa da Defesa Civil do Estado e a mudança para a nova moradia só não foi feita porque Clairton está construindo quartos para acomodar os filhos.

— Hoje estou mais forte — disse Bruno, que não é uma criança de muitas palavras. Após o susto, ele ganhou duas camisas da Chapecoense e virou amigo do jogador Rafael Lima.

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Saudades, no Oeste, teve 30% da área urbana inundada por causa das chuvas

A casa foi construída num local mais alto que a antiga, que foi levada embora pelo rio, que transbordou. O tio Alexandre lembra que a correnteza formava ondas que pareciam o mar e o maior medo foi ser atingido por troncos e galhos.

No dia 14 de julho do ano passado, quando a água começou a subir, Clairton pediu ajuda aos irmãos Alexandre e Vanderlei e a cunhada, Janice. De repente, se viram ilhados e a salvação foram as árvores.

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O bote dos bombeiros não conseguiu se aproximar para resgatá-los e, somente duas horas depois, o Saer chegou.

— O esqui do helicóptero enroscou num galho. É algo que vai ficar marcado para sempre — lembrou Clairton, que chega a se emocionar ao lembrar do episódio.

Saudades, no Oeste, teve 30% da área urbana inundada por causa das chuvas
Saudades, no Oeste, teve 30% da área urbana inundada por causa das chuvas
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Clairton reclamou que o auxílio governamental não foi tanto, estimando que os gastos em viagens das autoridades foi maior dos que os recursos vindos para o município. Mesmo assim, ganhou a casa da Defesa Civil e também ajuda. Os tijolos para a ampliação do imóvel, por exemplo, vieram de um empresário de Chapecó. Além disso, móveis, roupas e eletrodomésticos chegaram à família por meio de doações. Alguns pertences foram resgatados, como geladeira, freezer e roupas, que estavam a 10 metros de altura, nas árvores.

O irmão, Vanderlei, e a cunhada, Janice, não gostam nem de comentar sobre o que viveram naquele dia 14 de julho. Mas Alexandre, o outro irmão de Clairton, encara a situação como uma nova oportunidade.

— A gente dá valor a tudo que reconstruiu — disse.

A família Lauxen estima ter perdido cerca de R$ 700 mil com a enxurrada. Mas Alexandre lembra que isso não valeria nada se tivessem perdido a vida, agora reconstruída, segundo ele, muito mais bonita.

Em Coronel Freitas, famílias ainda aguardam casas

O temporal de julho do ano passado atingiu 28,7 mil pessoas, em 68 municípios, sendo que desses, 32 tiveram situação de emergência reconhecida e dois, Saudades e Coronel Freitas, decreto de Estado de Calamidade Pública. Em Saudades, 20 casas foram destruídas e 11 delas já entregues, entre elas a da família Lauxen.

Em Coronel Freitas 27 casas foram levadas pela enxurrada e uma pessoa morreu. Seis famílias ainda aguardam as moradias da Defesa Civil.

A prefeitura comprou os terrenos e está fazendo a terraplenagem. De acordo com o coordenador regional da Defesa Civil, Clair Bazzi, a empresa responsável pela instalação das casas só está aguardando a liberação dos terrenos para instalar a estrutura, que tem cerca de 40 metros quadrados e custa R$ 48 mil cada.

A secretária de Administração e Finanças do município, Clarice Zucco, disse que houve uma demora porque o município aguardava recursos federais para a reconstrução das moradias e, como isso não ocorreu, a Defesa Civil do Estado assumiu a despesa.

Algumas famílias também não aceitaram o novo imóvel, por ser menor do que o destruído, e mais longe do Centro. O problema é que muitas delas moravam em áreas de preservação permanente, próximo a rios, onde a reconstrução não é permitida.

De acordo com o promotor de Justiça de Coronel Freitas, João Paulo de Andrade, muitas construções irregulares até contribuíram para reduzir o escoamento da água.

— As pessoas construíram em áreas de preservação que também são áreas de perigo — avaliou.

Por isso o Ministério Público solicitou ao município um estudo sócio-ambiental. A partir desse estudo será analisada a possibilidade de autorizar construções numa área de 15 a 30 metros dos rios, em área urbana, com baixo impacto ambiental. Esse estudo será encaminhado para o Conselho Superior do Ministério Público em Florianópolis na próxima semana.

A maioria das famílias aguarda essa análise para reconstruir dentro dessa faixa. No entanto, as construções terão que ser feitas com pilares e num nível acima do nível da enchente do ano passado.

O município de Coronel Freitas já adotou o desassoreamento dos rios Xaxim e Taquaruçu, que cortam a cidade, como medida de prevenção. A prefeitura também aguarda R$ 1,2 milhão para reconstrução de nove pontes. Segundo a secretária, o município gastou R$ 5 milhões na recuperação de ruas, estradas e prédios públicos.

A Defesa Civil do Estado informou que liberou R$ 82 mil para compra de combustível e R$ 181 mil para reconstrução de bueiros e galeria pluviais. Para Saudades, foram destinados R$ 92 mil em combustível e R$ 189 mil para recuperação de vias públicas.

O Ministério da Integração Nacional, por meio da Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (Sedec), liberou R$ 537.284,01 para a reconstrução de pontes nos municípios de Coronel Freitas e Saudades, em Santa Catarina.

A Defesa Civil informou que até maio do ano que vem serão construídos Centros Regionais de Monitoramento e o Centro Integrado de Gestão de Riscos e Desastres, em Florianópolis, permitindo uma resposta mais rápida. Até lá também deve estar concluído o radar meteorológico do Oeste e os planos de contingência dos municípios.

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