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    Uma testemunha ocular da história da comédia americana

    Ser filho da proprietária do Comedy Store o proporcionou vivências desde cedo

    03/02/2020 - 15h30

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    Por The New York Times
    Uma testemunha ocular da história da comédia americana
    Uma testemunha ocular da história da comédia americana
    (Foto: )

    *Por Gavin Edwards

    Ousada, cheia de opiniões e com a voz anasalada, Mitzi Shore assumiu um clube de comédia meia-boca na Sunset Strip, em West Hollywood, na Califórnia, e, durante algum tempo, transformou-o no epicentro da comédia norte-americana. Ela se tornou proprietária do Comedy Store depois de se divorciar, em 1974. Antes que Shore morresse, em 2018, o Comedy Store lançou grandes nomes do stand-up, incluindo David Letterman, Jay Leno, Jimmie Walker, Elayne Boosler e Sandra Bernhard.

    Assistindo da plateia, estava o filho da dona do clube, Pauly Shore. Ele ficou conhecido como "Doninha", um surfista sensual que era figura carimbada na MTV antes de aparecer em filmes dos anos 1990, como "O Homem da Califórnia" e "Malucos por Natureza". Hoje, aos 51 anos, ele continua a trabalhar com stand-up e está em cartaz com um show sobre sua infância, chamado "Stick With the Dancing" (É Melhor Continuar Dançando, em tradução livre). Nos bastidores, após uma apresentação recente em Myrtle Beach, na Carolina do Sul, o ator saiu da personagem e se lembrou da própria infância, como testemunha ocular de algumas das maiores mentes da comédia. Observando a cena dos anos 1970, 80 e 90 em retrospectiva, Shore falou sobre a influência de sua mãe – os avanços e disputas que a cercavam. A seguir, alguns trechos da conversa:

    Mitzi Shore como força da natureza

    Minha mãe era uma pessoa muito amável – mas seu primeiro amor sempre foi o clube e os comediantes. Ela tinha uma limusine superesquisita. Quando andávamos nela, era como se eu fizesse parte da Família Addams. Mas mamãe adorava ser levada para cima e para baixo. Ela sempre colocava os comediantes para dirigir a limusine.

    Escondido na sala de iluminação

    Quando tinha cerca de oito anos, Pauly Shore ficou fascinado com o stand-up e passava o máximo de tempo possível no clube, escondido na sala de iluminação para assistir a estrelas como Redd Foxx e George Carlin, além de talentos menos conhecidos, como Lenny Schultz.

    Lenny Schultz era um professor de educação física com um corpo lindo, mas era completamente louco. Ele levava comida para o palco e dizia: "A dieta Lenny Schultz, o que gosto de fazer é colocar comida nas partes do corpo onde quero perder peso."

    Depois, ele ficava só de sunga e colocava punhados de queijo cottage dentro do calção. Ele jogava leite da cabeça, esfregava toranjas no cotovelo e pudim de chocolate no peito. Eu ficava de boca aberta. Depois de cada apresentação, ele ia ao estacionamento para se limpar. Meu primeiro trabalho na Comedy Store foi lavar Lenny Schultz com uma mangueira.

    Visitas de Robin Williams

    Nenhum dos comediantes do clube fez mais sucesso que Robin Williams, que começou lá, passou para a TV e chegou ao estrelato no cinema.

    Robin Williams era um cara muito gentil, mas ele corria pelo clube como se fosse um diabo-da-tasmânia. Durante algum tempo, o escritório da mamãe ficou em nossa casa. Pouco depois que Robin começou a trabalhar na TV, no programa "Mork & Mindy", ele costumava ir à nossa casa para conversar com a mamãe, ainda vestido como Mork.

    Aos 51 anos, ele continua a trabalhar com stand-up
    (Foto: )

    Os comediantes são pessoas muito sensíveis. Minha mãe sabia disso, de modo que era como uma espécie de madrinha para todos eles. Ela sabia que o Robin era uma pessoa muito frágil, e eles nutriam essa gentileza um pelo outro que era muito especial.

    O gentil Richard Pryor

    Richard Pryor recomeçou sua carreira no Comedy Store nos anos 1970. Minha mãe era muito próxima de Richard Pryor – ela o adotou e sei até que eles transaram uma vez, mas o relacionamento deles não era sexual. Era uma coisa de amor, respeito e intimidade.

    Quando o Richard apareceu no clube, era como se uma onda tivesse passado: "Meu Deus, o Richard está aqui. É o Richard mesmo!" Eu ia até o estacionamento e abria a porta do carro dele. Ele saía e dizia: "E aí, carinha?", e apertava minha mão. Ele não era esquisitão fora do palco, como a maioria dos comediantes. Richard era um cara gentil e suave.

    Dentro do clube, eu pegava uma dose de Courvoisier, ele acendia um cigarro e minha mãe se sentava ao lado dele em uma escadaria. Quando o apresentador anunciava a chegada de Richard, as pessoas reagiam como se Jesus Cristo estivesse subindo ao palco. Todos começavam a rir assim que ele abria a boca, não importava o que dissesse.

    Richard vinha sempre que desenvolvia um novo stand-up; Paul Mooney, que escrevia com ele, e Jennifer Pryor, sua esposa, se sentavam no fundo e faziam anotações. No começo, Richard era terrível – o público era fascinado por ele, mas ele passava cinco minutos sem fazer ninguém rir. Ele continuava trabalhando o texto, que melhorava um pouco, mas continuava bem ruim. Então eu ficava longe por um mês e, quando eu voltava para o clube, ele ficava 40 minutos no palco fazendo as pessoas rir sem parar.

    Às segundas no clube

    Essa era a noite do sorteio. O tempo de cada apresentação era decidido ao tirar nomes de um chapéu. Alguns aspirantes a comediante passavam meses se apresentando às segundas-feiras, ganhando experiência e tentando agradar a Mitzi Shore.

    Garry Shandling fez mais de 20 apresentações para minha mãe antes de receber um espaço no horário nobre. Ela acreditava nele – se não acreditasse, não o deixaria se apresentar –, mas pegava superpesado com ele. Shandling era escritor e minha mãe achava que ele ainda não se apresentava muito bem.

    O mesmo aconteceu com Roseanne – foi minha mãe quem sugeriu que ela usasse uma jardineira. Até hoje, acho que Roseanne aprendeu o ritmo com minha mãe. Roseanne era louca por ela.

    Hollywood sempre teve o sofá do casting, e o Comedy Store tinha o sofá da Mitzi: se você quisesse um lugar no palco, precisava puxar o saco da dona. Mas, quando minha mãe ia com sua cara, ela permitia que você trabalhasse na portaria, estacionasse os carros. "Você é ótimo. Vai lá atender o telefone." Então, você virava funcionário do clube e se acostumava com aquele ambiente maluco.

    Yakov Smirnoff trabalhou fazendo reparos no clube – e em nossa casa. Ele precisava de um emprego e era carpinteiro de formação. Ele lixou as portas de nossa casa e fez um balcão para a cozinha.

    Michelle Groskopf/The New York Times
    (Foto: )

    Altas horas

    Às vezes, depois que o clube fechava, os comediantes iam para a casa de Mitzi Shore. Minha mãe fazia festas na nossa casa, mas eu tinha um sono muito leve.

    Da terceira série até o segundo ano do ensino médio, eu acordava no meio da noite e todo mundo estava na sala de casa: mamãe, Richard Belzer, Robin Williams, Richard Pryor, David Tyree e outras pessoas aleatórias. Ela trazia champanhe do clube e o pessoal ficava lá fumando maconha.

    Eu abria a porta da sala esfumaçada e gritava: "Mãe, mãe, mãe!"

    Então ela percebia que eu estava lá: "O quê? Ah, oi, Pauly."

    "Mãe, por favor. Tenho aula amanhã cedo."

    Todos ficavam em silêncio. Pediam desculpas, mas, assim que eu saía da sala, as risadas começavam outra vez.

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