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    Venezuela usa a força para controlar o coronavírus

    A dura abordagem do governo pode estar mantendo mais pessoas em casa e retardando a propagação do vírus, mas também está desencorajando aqueles que podem estar doentes a procurar ajuda

    02/09/2020 - 14h07

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    Por The New York Times
    venezuela
    Médicos e jornalistas que questionaram estatísticas oficiais afirmam que foram ameaçados.
    (Foto: )

    *Por Anatoly Kurmanaev, Isayen Herrera e Sheyla Urdaneta

    Caracas, Venezuela – Autoridades venezuelanas começaram a considerar pessoas que podem ter entrado em contato com o coronavírus como "bioterroristas", e estão pedindo a seus vizinhos que as denunciem. O governo está detendo e intimidando médicos e especialistas que questionam as políticas do presidente sobre o vírus.

    E está detendo também milhares de venezuelanos que voltam para casa depois de perder o emprego no exterior, mantendo-os em centros de contenção improvisados, por medo de que possam estar infectados.

    O presidente Nicolás Maduro enfrenta o coronavírus do mesmo modo que tratou qualquer outra ameaça interna ao seu governo: lançando mão de seu aparato de segurança repressivo.

    Em hotéis confiscados, escolas desativadas e estações de ônibus isoladas, os venezuelanos que voltam para casa de outros países da América Latina estão sendo forçados a permanecer em áreas lotadas, com comida, água e máscaras limitadas. E estão sendo vigiados pela guarda militar durante semanas ou meses para ser testados ou tratados com medicamentos não comprovados, de acordo com entrevistas feitas com os detentos, vídeos gravados em seu celular e documentos do governo.

    "Eles nos disseram que estamos contaminados, que somos culpados de infectar o país", disse Javier Aristizabal, enfermeiro da capital, Caracas, que contou ter passado 70 dias em centros depois que voltou da Colômbia em março.

    Em uma grande cidade, San Cristóbal, ativistas do partido governista estão marcando as casas de famílias suspeitas de ter o vírus com placas e ameaçando-as de detenção, revelaram os moradores. Em outra cidade, Maracaibo, a polícia patrulha as ruas em busca de venezuelanos que voltaram ao país sem aprovação oficial. Políticos locais da oposição cujos círculos eleitorais registram um surto afirmam que recebem ameaças de ser processados.

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    "Este é o único país do mundo onde ter Covid é um crime", observou Sergio Hidalgo, ativista da oposição venezuelana que disse ter apresentado sintomas da doença, acrescentando que policiais e autoridades do governo vieram à sua casa acusando-o de infectar a comunidade.

    À medida que a pandemia ia se espalhando por países vizinhos, sobrecarregando as redes de saúde muito mais preparadas do que o sistema em colapso da Venezuela, Maduro adotou uma abordagem linha-dura, tratando o coronavírus como uma ameaça à segurança nacional que poderia desestabilizar sua nação falida e comprometer seu controle do poder.

    "A pandemia representa claramente uma ameaça ao governo porque mostra a precariedade de seus recursos. A prioridade não é lidar com a pandemia. É a sobrevivência política de curto prazo", analisou John Magdaleno, cientista político venezuelano de Caracas.

    Em seus sete anos no poder, Maduro supervisionou o colapso do sistema de saúde da Venezuela, a destruição da economia nacional e o aumento acentuado do isolamento internacional do país.

    Analistas políticos declararam que, com recursos cada vez menores para preparar os hospitais do país ou para ajudar sua população já empobrecida a sobreviver à crise, Maduro recorreu a precárias instalações de detenção, repressão e coerção para tentar impedir o vírus de dominar o país.

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    A dura abordagem do governo pode estar mantendo mais pessoas em casa e retardando a propagação do vírus, mas também está desencorajando aqueles que podem estar doentes a procurar ajuda. Isso, por sua vez, torna a pandemia ainda mais difícil de combater, disseram médicos na Venezuela.

    "Quando as pessoas se sentem doentes, acreditam ter um problema legal ou policial, como se fossem delinquentes. Então, preferem se esconder", comentou Julio Castro, médico venezuelano que presta assessoria sobre cuidados de saúde ao Congresso controlado pela oposição.

    O verdadeiro alcance da pandemia na Venezuela, um país que há anos parou de divulgar estatísticas de saúde tão básicas quanto a mortalidade infantil, é quase impossível de determinar.

    Médicos e jornalistas que questionaram estatísticas oficiais afirmam que foram ameaçados. Pelo menos 12 médicos e enfermeiros venezuelanos foram detidos por fazer comentários públicos sobre o coronavírus, de acordo com sindicatos médicos.

    Os migrantes venezuelanos que voltam para casa depois de perder o emprego no exterior depois do início da pandemia são particularmente visados.

    De acordo com o governo colombiano, cerca de 95 mil venezuelanos voltaram ao seu país natal desde março, e 42 mil esperam na fronteira.

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    Apenas 1.200 podem retornar por semana através da principal travessia fronteiriça, sob as diretrizes do governo venezuelano, forçando outros a esperar meses em campos improvisados. Aqueles que usam trilhas ilegais para atravessar o poroso limite terrestre entre as nações são publicamente rotulados como ameaças.

    No Twitter, as forças armadas da Venezuela pediram à população que denunciasse os chamados bioterroristas, referindo-se aos venezuelanos que haviam escapado dos controles de fronteira do governo e retornado para casa.

    O "The New York Times" entrevistou sete venezuelanos que foram nantidos em centros de contenção. Vários relataram que foram amontoados em quartos sem camas, sem comida quente, sem janelas e com pouca água potável.

    "Você não podia pedir ajuda a ninguém, porque seria agredido", disse Aristizabal, o enfermeiro, que foi transferido para vários centros depois que voltou de uma visita à sua mãe na Colômbia.

    Aristizabal contou que, durante sua detenção, dormiu no chão às vezes – no asfalto de uma rodoviária ou no chão de um quarto de hotel sem janelas que dividia com outras cinco pessoas.

    Alguns contaram que foram detidos com bebês de apenas um ano de idade, sem provisões especiais para as crianças. Outros afirmaram ter sido obrigados a tomar os medicamentos descritos no protocolo oficial da Venezuela para tratar qualquer pessoa que tenha o coronavírus ou que seja suspeita de tê-lo, mesmo sem apresentar sintomas.

    Os medicamentos listados nas diretrizes do governo não são comprovadamente eficientes contra o coronavírus e podem ter consequências perigosas. Os tratamentos incluem a hidroxicloroquina, que a FDA (a agência americana responsável pela regulamentação de alimentos e remédios) alertou que pode causar anormalidades perigosas no ritmo cardíaco em pacientes de coronavírus, e uma droga antiparasita chamada ivermectina, que a Organização Mundial da Saúde declarou que não deve ser usada para tratar a doença.

    Vídeos feitos por venezuelanos em centros de confinamento mostraram condições insalubres.

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    Em um vídeo, cinco homens e mulheres mais velhos envoltos em cobertores sujos são mostrados amontoados em um pequeno quarto sem janelas com cadeiras quebradas e um beliche sem colchões.

    "Por favor, me tire daqui. Estou morrendo. Eu me sinto pior a cada dia", disse um homem visivelmente perturbado.

    A repressão de Maduro ao retorno dos migrantes venezuelanos contrasta com a liberdade desfrutada pela elite governista do país, que passa a quarentena em ilhas particulares do Caribe, com mansões nas encostas e restaurantes luxuosos somente para convidados.

    Maduro afirma que sua resposta rápida – ele bloqueou o país em 17 de março, logo depois da confirmação dos dois primeiros casos de coronavírus – impediu a devastação sofrida pelos países vizinhos.

    Oficialmente, a Venezuela possui uma das menores taxas de infecção da região. Cinco meses depois da detecção do vírus, os óbitos diários, segundo o governo, nunca passaram de 12.

    "Você recebe um cuidado único no mundo, cuidado humano, amoroso, cristão", disse Maduro em um discurso nacional em 14 de agosto.

    Mas especialistas em saúde observam que os baixos números oficiais são resultado de poucos testes feitos. Os testes precisos de coronavírus são escassos e levam semanas para ser processados em um dos dois laboratórios aprovados pelo governo, de acordo com oito médicos em três estados venezuelanos entrevistados para este artigo. Eles não quiseram revelar seu nome por medo da perseguição do governo.

    A maioria dos pacientes com sintomas de Covid-19 nunca é testada ou morre antes de receber o resultado, por isso nunca é incluída nas estatísticas oficiais, revelaram os médicos.

    No estado ocidental de Zulia, o governo disse que 70 pessoas haviam morrido de Covid-19 até a segunda semana de agosto. Mas um grupo de médicos que acompanha a mortalidade no estado informou que, em um único hospital, 294 pacientes tinham morrido com sintomas de coronavírus até então.

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