nsc
    hora_de_sc

    Melhor amigo do homem

    VÍDEO: cachorros ajudam no tratamento assistido de pessoas com deficiência em Palhoça

    Atividade auxilia no desenvolvimento dos usuários e ocorre às quartas-feiras à tarde em Palhoça, na Grande Florianópolis

    03/10/2019 - 17h04 - Atualizada em: 04/10/2019 - 05h40

    Compartilhe

    Por Priscila Araújo
    Edriely se encontra com o cão Tchack todas as quarta-feiras à tarde
    Edriely se encontra com o cão Tchack todas as quarta-feiras à tarde
    (Foto: )

    A pequena Edriely Vitoria de Freitas Melim, cinco anos, tem um compromisso todas as quartas-feiras à tarde. É nesse dia da semana que ela sai da cidade de São João Batista, no Vale Europeu, para encontrar um amigo de quatro patas em Palhoça, na Grande Florianópolis. É por meio de uma série de brincadeiras que o cachorro ajuda a menina no desenvolvimento motor e também no aprendizado da Língua Brasileira de Sinais (Libras).

    Adote um Amor: cão do Corpo de Bombeiros de SC ajuda no desempenho de alunos do IFSC

    As atividades fazem parte do projeto de pesquisa de extensão do Laboratório de Tecnologia Assistiva (Labta), em Palhoça, que no fim de agosto começou a oferecer para a comunidade em geral atividades de tratamento entre cães e seres humanos. A interação entre bicho e atendido tem diferentes resultados conforme cada diagnóstico.

    Confira um vídeo com as atividades com os cães em Palhoça:

    Edriely tem diagnóstico ainda em investigação, mas que é apontado como parte da Síndrome de Moebius, distúrbio neurológico que, geralmente, causa a perda total ou parcial dos movimentos dos músculos do rosto. A parte de mobilidade em cada atividade é executada com o Tchak (se pronuncia “Chuck”), ou com o Marlei, dois cães de busca do Corpo de Bombeiros Militar de Santa Catarina.

    Conforme a disponibilidade, um deles, acompanhado do parceiro — capitão Alan Delei faz dupla com Thack e o soldado Willian Valdeley Marques com Marlei —, vai até o campus bilíngue do Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC), em Palhoça, para realização do projeto do Labta.

    A vivencia na língua de sinais é proporcionada pelo contato com a estagiária do Labta, Gabriela da Costa Viana, 22 anos, também surda e que cursa pedagogia no instituto. Ela auxilia a professora de Educação Especial, Ivani Cristina Voos, nas práticas da atividade. Segundo a educadora, a intenção é entender e melhorar a relação entre uma pessoa com deficiência e um cão.

    — É muito interessante você ver o significado da língua (Libras) ser entendido por ela (Edriely). O comando, por exemplo de atira a bola. Ela já entende que esse é o sinal para que o cachorro busque objeto. Ela precisa jogar a bolinha para ele buscar. Apesar dela ainda ter a relutância no toque, que é comum nesses quadros, ela tem procurado o cão. Permitiu que ele deitasse pela primeira vez no colo dela — afirma Ivani.

    No caso de Edriely, essa aquisição linguística faz com que a Gabriela se torne um modelo para ela.

    — Quando eles (crianças surdas) têm acesso a um surdo adulto que se torna uma referência, isso tem demonstrado através de pesquisas que as experiências se igualam. Exatamente o que acontece na vida de uma criança ouvinte acontece na vida de uma criança surda, quando elas têm esse acesso a essa língua (Libras) — explica a professora.

    Segundo a mãe de Edriely, a dona de casa Eliatriz Elizangela de Freitas, 36 anos, a garota tem evoluído desde que começou a frequentar o projeto em agosto.

    — Ela já teve um ganho muito satisfatório. Como a aceitação do sensorial, que é parte do toque. Ela ama os cachorros, mas tem um bloqueio para encostar neles, e no primeiro dia que a gente veio, chegou no fim da atividade e quis por vontade própria passar a mão no Tchak — conta Eliatriz.

    Além disso, a menina também já associou que, se ela jogar a bolinha, o cão irá buscar. E isso faz com que a compreensão de Edriely também tenha melhoras, já que tudo serve como estímulo.

    — Eu já havia pesquisado sobre essa interatividade com os cachorros e sabia que seria muito bom quando eu vim falar com a Ivani, mas está sendo ainda melhor do que eu esperava. E estou vendo que será melhor ainda. Ela está começando a notar muito mais o mundo na volta dela — diz Eliatriz.

    Edriely
    A menina está cada vez mais atenta nas atividades que faz com o Tchack
    (Foto: )

    O motorista da prefeitura de São João Bastista, Olimpio Roque Lara Junior, um dos servidores que faz o transporte da garota e da mãe até o IFSC, concorda:

    — Eu já notei bastante diferença na Edriely desde a primeira vez que ela veio. Ela era mais quietinha, mais tímida, e agora parece estar mais “aberta”.

    A mãe conta que a criança agora está mais atenta e na espera que os familiares indiquem a vez dela de fazer alguma coisa em casa. É como se Edriely prestasse mais atenção nas expressões e nos sinais que Eliatriz e as duas irmãs mais velhas, de 11 e 17 anos, fazem para a pequena.

    — Com o nosso cachorro eu também percebi que ela está tendo mais cuidado na hora de lidar com ele. Assim como ela joga a bolinha para o Tchack aqui, em casa ela quer repetir isso com o nosso cachorrinho. Antes, ela ficava agitada quando ele sentava perto dela e agora fica mais tranquila perto dele — relata a mãe.

    Outros atendidos

    Além de Edriely, a atividade atende mais duas crianças e um adulto. O grupo é formado por Vinicius Leonardo Soares, que tem sete anos e é diagnosticado com paralisia cerebral do tipo quadriplégica (que afeta todo o corpo); Luiz Gustavo Garcia Antunes, de cinco anos, que é descrito com hipotonia muscular, autismo e atraso no desenvolvimento psicomotor; e por Mateus Souza Xavier da Silva, 20 anos, que não teve o diagnóstico especificado. Ele e Edriely são surdos, já Vinicius e Luiz são ouvintes, porém, não falam.

    — A gente percebe que, quando nasce uma criança surda na família, as pessoas acabam passando por um processo de “luto”, de desespero. E aqui a gente mostra que não é necessário isso. Quanto mais pesquisas nós tivermos apontado para o caminho certo e mostrando qual é a solução, mais a gente ajuda. A solução é abrir mais projetos de extensão para que a comunidade possa trazer os filhos até o instituto — afirma Ivani.

    Parceria com o Corpo de Bombeiros Militar

    A parceria entre o IFSC Bilíngue e o Corpo de Bombeiros Militar do Estado foi assinada em julho. E, desde agosto, os cães Tchack e Marlei começaram a participar do projeto. Ambos são cachorros de busca e da raça labrador. Tchack tem 10 anos e se aposentou há dois. Atualmente a única atividade em que ele atua é no tratamento assistido.

    Já Marlei é mais novo, tem quase dois anos e faz as buscas em paralelo com a participação no projeto. Cada um dos animais tem um parceiro humano. A dupla formada entre cão homem é chamada de binômio. Tchack é o fiel escudeiro o capitão Alan Delei. Juntos eles atuaram nas buscas da cidade Mariana (MG), quando houve rompimento da barragem. E Marlei forma time com o soldado Willian Valdeley Marques.

    Busca por mais estrutura

    A professora diz ainda que a equipe está tentando a instalação de um balanço como os que existem em salas sensoriais (ambiente terapêutico de integração que é composto por diferentes objetos que proporcionam atividades físicas, aliadas a luzes, sons, cores, texturas e movimentos que produzem sensações):

    — O balanço, por exemplo, serve para que a pessoa possa experimentar outras posições corporais e explorar a relação com o cachorro de outras formas. Por exemplo, nenhuma das crianças atendidas aqui se sustenta sozinha em pé. E dois deles (atendidos) precisam de apoio para sentar ou ficarem deitados.

    Segundo ela, com esse balanço os indivíduos com Transtorno do Espectro Autista (TEA) ou com comportamentos do autismo, ao se embalarem muitas vezes conseguem readequar as situações de desconforto e retornar a atividade. Porém, o órgão está passando por dificuldades financeiras, já que o governo federal fez cortes orçamentários nas áreas de Educação e pesquisa.

    Novas vagas

    A seleção desse ano foi feita por meio de divulgação nas redes sociais. Os quatro atendidos seguem em tratamento até dezembro. Para o primeiro semestre do próximo ano, Ivani teme não conseguir abrir novas vagas por causa das dificuldades financeiras enfrentadas pelos IFSC.

    — Os pais nos procuraram ao verem reportagens e postagens que fizemos no Facebook do campus. Mas estamos vivendo cortes orçamentários muito fortes e essa pesquisa não tem financiamento nenhum, estou bancando algumas coisas com dinheiro próprio. Então, as famílias têm pré-requisitos — esclarece a educadora.

    Por conta disso, ainda não está definido se a atividade poderá abrir novas oportunidades em 2020. Ivani conta ainda, que o fato da família ter a responsabilidade tanto de ter um acompanhante para o assistido(a) durante a ação, como de providenciar a forma de transporte de ida e volta até o IFSC de Palhoça, faz com que muitos interessados desistam. Pois geralmente eles não tem como cumprir ambas ou alguma das duas determinações.

    Deixe seu comentário:

    Últimas notícias

    Loading... Todas de Saúde

    Colunistas