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Pulp e Cult

Vinte anos depois, "Pulp Fiction" se mantém como fenômeno pop do cinema

Longa-metragem de Quentin Tarantino iniciou sua trajetória de sucesso em 1994, quando levou o prêmio máximo do Festival de Cannes

11/05/2014 - 18h12 - Atualizada em: 12/05/2014 - 07h36

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Por Redação NSC
Tarantino escreveu o roteiro de Pulp Fiction em parceria com o amigo Roger Avary
Tarantino escreveu o roteiro de Pulp Fiction em parceria com o amigo Roger Avary
(Foto: )

Ainda rodavam os créditos finais de Pulp Fiction em sua primeira sessão pública, no dia 12 de maio de 1994, e o burburinho no Festival de Cannes indicava que ali estava não apenas um favorito para ganhar a Palma de Ouro, mas um filme impactante e inventivo o bastante para cravar um marco na história do cinema. Dias depois, as previsões se confirmaram. O diretor e roteirista Quentin Tarantino, aos 31 anos, era o grande vencedor do mais prestigiado certame do cinema autoral no mundo, e Pulp Fiction iniciava a sua carreira como o longa-metragem mais discutido, analisado, influente e imitado nos últimos 20 anos.

Dois anos antes, Tarantino tinha exibido em Cannes, fora de competição, Cães de Aluguel, seu longa de estreia. De jovem promessa, o ex-funcionário de locadora de vídeo passou a ser celebrado como reinventor da roda no cinema. Mestre na arte da colagem de gêneros e referências decalcadas de filmes alheios, ao ponto de seus trabalhos resultarem em obras originais, Tarantino escreveu o roteiro de Pulp Fiction a partir de histórias criadas em parceria com o amigo Roger Avary.

A engenhosa narrativa circular faz três tramas principais costurarem sete segmentos cronologicamente embaralhados. Os protagonistas são dois matadores (John Travolta e Samuel L. Jackson) atrás de um boxeador (Bruce Willis) que passou a perna no chefe deles (Ving Rhames). Há ainda a namorada (Uma Thurman) do gângster, a quem um dos capangas (Travolta) precisa entreter em uma noitada de drogas e rock'n'roll.

Com orçamento de US$ 8 milhões, Pulp Fiction faturou US$ 213 milhões apenas nos cinemas. O filme chegou ao Brasil em fevereiro de 1995 com o subtítulo Tempo de Violência, já consolidado como ícone da cultura pop e tema de uma generosa fortuna crítica, ensaios e teses acadêmicas.

O crítico francês Jean Tulard destacou que poucos diretores alcançaram a consagração de Tarantino em seus dois primeiros filmes. Já o norte-americano Roger Ebert disse que Pulp Fiction era um raro filme, bom também para ser ouvido: "É conduzido por um diálogo digno de ser comparado à prosa enxuta e rude de Raymond Chandler e Elmore Leonard". Situações como os assassinos discutirem banalidades antes de cumprirem uma missão de rotina foram vistas como subversão às normas narrativas, observou o crítico britânico Mark Cousins, afirmando que Pulp Fiction deu nova vida ao pasteurizado cinema de gênero americano.

Vincent e Jules, os dois matadores, fazem, antes de uma chacina, digressões sobre a liberalidade com as drogas em Amsterdã, o nome do sanduíche quarterão com queijo em francês e o componente erótico de uma massagem nos pés. "Os atores parecem sair dos personagens para retomá-los em seguida. O impacto verbal é tão forte e violento quanto o impacto físico da ação", escreveu Cousins, que também fez uma ponderação curiosa no seu livro História do Cinema, de 2004. Para o ensaísta de publicações como Sight & Sound e The Times, antes do conceito de meme ser conhecido na internet, Pulp Fiction foi um meme cinematográfico: sua influência viral fez com que muitos filmes produzidos nos anos 1990 se parecessem com versões opacas da obra-prima de Tarantino.

Bastidores de um clássico

--> A dança de Vince e Mia (John Travolta e Uma Thurman) no Jack Rabbit Slim's faz citação à sequência com Mario Pisu e Barbara Steele em 8 1/2 (1963), de Federico Fellini.

--> Uma Thurman inicialmente recusou o papel, o que fez atrizes como Isabella Rossellini, Meg Ryan, Daryl Hannah e Michelle Pfeiffer serem entrevistadas. Tarantino convenceu Uma lendo o roteiro para ela ao telefone.

--> Em seu livro de memórias, Cidadão Cannes, Gilles Jacob, presidente do Festival de Cannes, revela os bastidores da votação que deu a Palma de Ouro a Pulp Fiction. Segundo ele, o filme era o "protegido" do presidente do júri, Clint Eastwood. Na primeira rodada de votos, Pulp Fiction saiu atrás do chinês Tempo de Viver, de Zhang Yimou, e empatou com o russo O Sol Enganador, de Nikita Mikhalkov. Mas virou o jogo depois.

--> Pulp Fiction foi indicado a sete Oscar em 1994: melhor filme, diretor, ator (John Travolta), ator coadjuvante (Samuel L. Jackson), atriz coadjuvante (Uma Thurman), montagem e roteiro original, única categoria na qual saiu vencedor.

Por que "Pulp Fiction" fez história

--> Reciclagem estética

Dono de uma cultura fílmica ímpar, Tarantino recicla estilos e faz garimpagens improváveis para formatar seus projetos, como se, em um único longa, reinventasse fórmulas já utilizadas anteriormente. Pulp Fiction foi idealizado, inicialmente, como três longas policiais B de baixíssimo custo que o diretor rodaria com a mesma equipe e o mesmo elenco. O método era usado por dois cineastas que ele idolatra: Monte Hellman e Roger Corman. Com o sucesso de Cães de Aluguel (1992), vislumbrou a possibilidade de reunir as três histórias em um filme só. O roteiro circular definitivo começou a tomar forma durante uma temporada que ele passou em Amsterdã - daí as referências à Holanda no início da trama.

--> Trilha memorável

A trilha sonora de Pulp Fiction foi onipresente nas festas bacanas dos anos 1990. Misirlou, surf music instrumental que abre o filme, gravada por Dick Dale em 1962, é uma versão de uma canção folclórica com provável origem no Império Otomano. Tarantino também "descobriu" e usou no filme pérolas como o funk Jungle Boogie, gravado em 1973 pelo Kool & The Gang, You Never Can Tell, hit de 1964 de Chuk Berry dançado antologicamente pelos personagens de Uma Thurmann e John Travolta, Son of a Preacher Man, gravada em 1968 por Dusty Springfield, a versão do Urge Overkill para Girl, You'll Be a Woman Soon, canção de Neil Diamond de 1967, e Let's Stay Together, na voz de All Green, em registro de 1971.

--> Os atores ideais

No projeto original de Tarantino, Vincent Vega seria vivido por Michael Madsen, que optou por outro trabalho. O papel ficou com John Travolta, nome que o diretor fez prevalecer sobre o desejo do produtor Harvey Weinstein de chamar Daniel Day-Lewis - que queria o papel. O cachê de Travolta foi de cerca de US$ 150 mil - depois de Pulp Fiction, subiu para US$ 20 milhões. Já Bruce Willis cobrava US$ 8 milhões à época, mas topou um salário simbólico em troca de participação nos lucros. Com a carreira em momento crítico, foi um grande negócio, sobretudo em prestígio - algo que se repetiu com todo o elenco do filme. Pior para nomes como Mickey Rourke, Matt Dillon e Sylvester Stallone, que foram cotados mas ficaram de fora do longa.

Detalhe ZH

Na edição impressa do Segundo Caderno, você confere um trabalho do mais famoso artista visual de rua do mundo, o britânico Banksy. Ele se apropriou de uma cena célebre de Pulp Fiction, com os personagens de John Travolta e Samuel L. Jackson. Só que, no lugar das pistolas, colocou duas bananas. O trabalho foi feito em 2002, mas, cinco anos depois, acabou coberto de tinta por funcionários da estação Old Street do metrô de Londres, em uma ação de limpeza contra pichações.

Versão Daft Punk

Versão Star Wars

Versão Simpsons

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