Presente em ruas, praças e bairros de todo o país, o vira-lata caramelo se tornou um dos símbolos mais populares da cultura brasileira. Agora, uma decisão tomada no México reacendeu o debate sobre a origem e a identidade do animal que conquistou espaço no imaginário nacional.
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Em abril, a Procuradoria Ambiental do Estado do México declarou o chamado “perro caramelo” uma raça mexicana nativa, ao lado de cães tradicionalmente associados ao país, como o chihuahua. A medida repercutiu no Brasil e gerou debates nas redes sociais e na imprensa, com brasileiros questionando a associação do animal ao país vizinho.
Para muitos tutores e defensores da causa animal, o vira-lata caramelo representa características que ajudam a contar a história do Brasil. É o caso de Luciana Valle, de 57 anos, tutora da cadela Madâ, adotada ainda filhote.
— Como podem dizer que o caramelo não é brasileiro? É o rosto do Brasil — afirmou ao The New York Times.
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“História do caramelo é a história do Brasil”
Segundo especialistas ouvidos pelo jornal americano, os cães conhecidos como caramelos não constituem uma raça formalmente reconhecida, mas são resultado de séculos de cruzamentos entre diferentes linhagens. Um estudo genético conduzido pela empresa brasileira DNA Pets apontou que esses animais carregam traços de quase 300 raças originárias da Europa, Ásia e Américas.
De acordo com a geneticista Jaqueline Oliveira Rosa, responsável pela pesquisa, a origem dos vira-latas brasileiros está ligada ao processo de formação da própria sociedade brasileira. Os ancestrais desses cães teriam chegado ao país com colonizadores portugueses e, posteriormente, com ondas de imigração vindas de países como Itália, Alemanha, Espanha e Japão.
Com a industrialização e a migração de trabalhadores do campo para os centros urbanos, cães utilizados para guarda e pastoreio passaram a conviver e cruzar com animais criados nas cidades. Ao longo do tempo, esse processo contribuiu para o surgimento dos cães sem raça definida de pelagem castanha que hoje são comuns em diferentes regiões do país.
— A história do caramelo é a história do Brasil — disse Rosa.
Além da diversidade genética, especialistas apontam que algumas características físicas podem ter favorecido a adaptação desses animais. A pelagem curta e clara ajuda a reduzir a incidência de parasitas, contribui para a regulação térmica em climas quentes e pode oferecer camuflagem em ambientes naturais. A mistura genética também está associada a uma menor incidência de determinadas doenças hereditárias.
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Embora hoje seja frequentemente retratado em memes, campanhas publicitárias e manifestações culturais, o vira-lata nem sempre foi valorizado. Nos últimos anos, porém, passou a ser visto como símbolo da diversidade e da miscigenação presentes na sociedade brasileira.

México diz que medida quer reconhecer o”perro caramelo”
No México, a justificativa para o reconhecimento do “perro caramelo” foi o combate ao estigma historicamente associado aos cães sem raça definida. Em comunicado, a Procuradoria Ambiental do Estado do México afirmou que a medida busca promover a valorização desses animais.
Para organizações de proteção animal mexicanas, a presença de cães de pelagem semelhante também é comum no país, resultado de condições históricas e climáticas parecidas às encontradas em outras regiões da América Latina.
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A diretora do programa mexicano da organização Humane World for Animals, Claudia Edwards, avalia que o reconhecimento foi influenciado pelo movimento de valorização do vira-lata caramelo que ganhou força no Brasil nos últimos anos.
— O Brasil foi o primeiro a colocá-lo no mapa. Os brasileiros devem se orgulhar disso — afirmou.
Ela defende, porém, que o animal não precisa estar vinculado exclusivamente a um único país.
— É latino-americano — disse.
No Brasil, iniciativas para oficializar o status simbólico do vira-lata caramelo já chegaram ao Legislativo. Em 2023, um projeto de lei propôs reconhecer o animal como patrimônio nacional, mas a proposta não avançou. Alguns estados, entre eles São Paulo, aprovaram legislações próprias declarando o caramelo patrimônio cultural.
Apesar da popularidade crescente, entidades de proteção animal alertam que milhares desses cães continuam aguardando adoção. Segundo Juliana Camargo, fundadora do Instituto Ampara Animal, os caramelos ainda enfrentam resistência de parte dos adotantes.
— Eles continuam não sendo os primeiros escolhidos — afirmou ao The New York Times.
Dados de uma coalizão internacional de organizações de bem-estar animal estimam que o Brasil tenha mais de 20 milhões de cães vivendo em situação de rua. Camargo calcula que a maioria deles apresente características associadas aos chamados caramelos.
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Em feiras de adoção, a preferência por filhotes com aparência semelhante à de raças conhecidas ainda é comum. Enquanto alguns animais recebem rapidamente novos lares, muitos vira-latas permanecem meses ou até anos aguardando uma família.
Para protetores, a repercussão em torno do reconhecimento do caramelo, seja no Brasil ou no México, pode contribuir para aumentar a visibilidade dos cães sem raça definida e incentivar a adoção responsável.
— Sentimos que o caramelo é nosso, mas, se isso ajudar mais animais a encontrarem um lar, é uma boa causa — afirmou Camargo.
*Com informações do The New York Times





