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    Vírus interrompe redes de abastecimento globais 

    A disseminação do coronavírus interrompeu as redes de distribuição de todo o planeta, levando à falta de produtos e ao aumento de preços, que afetam fábricas, portos, lojas e consumidores

    22/04/2020 - 14h12

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    Por The New York Times
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    *Por Ana Swanson

    Washington, D.C. – As fábricas estão paradas; os trabalhadores, em isolamento. Os produtos estão se acumulando em alguns portos, enquanto navios cargueiros viajam vazios. Produtores de laticínios estão jogando fora todo o leite e, nos supermercados, não há mais rolos de papel higiênico.

    A disseminação do coronavírus interrompeu as redes de distribuição de todo o planeta, levando à falta de produtos e ao aumento de preços, que afetam fábricas, portos, lojas e consumidores. Enquanto as fábricas chinesas retomam lentamente as atividades, após a epidemia perder força no país, muitas empresas na Índia, nos EUA e na Europa se veem obrigadas a desligar as máquinas ou a funcionar com capacidade reduzida.

    O impacto sobre o comércio global se tornará mais perceptível nos próximos meses, à medida que os consumidores estocam produtos e os países interrompem as exportações de suprimentos médicos e até mesmo de alimentos. Os consumidores vão se deparar com a falta inesperada de uma série de produtos, incluindo laptops, papel higiênico e remédios. Algumas empresas não terão mais as matérias-primas e os componentes necessários para a produção, o que nos coloca diante de problemas financeiros ainda maiores.

    Na Casa Branca, o presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou que alocaria US$ 16 bilhões para os produtores rurais americanos, com o objetivo de estabilizar a produção de alimentos nos Estados Unidos.

    "Neste momento de crise, devemos manter nossas redes de abastecimento em movimento, do começo ao fim", afirmou.

    Os EUA impuseram suas próprias restrições à exportação de suprimentos médicos necessários para o combate ao vírus, levando a proibições similares na Europa, na Índia, na Turquia e em outros países. Os críticos dizem que essas medidas podem deixar outras partes do mundo mais expostas ao vírus.

    Durante uma live, Roberto Azevedo, diretor-geral da Organização Mundial do Comércio, declarou que a contração comercial deste ano no mundo todo será "feia" e representará a maior queda no comércio internacional em uma geração. A OMC prevê que o volume de trocas comerciais caia de 13 a 32 por cento em relação ao ano passado, se as coisas não piorarem.

    "Projetamos que o comércio em 2020 sofrerá uma queda drástica em todas as regiões do planeta e basicamente em todos os setores", disse Azevedo.

    O crescimento do comércio global já havia diminuído no ano passado para os níveis mais baixos desde a crise financeira, devido a uma guerra comercial entre os EUA e a China, e à desaceleração econômica na Europa e na Ásia.

    Entretanto, a pandemia puxou o freio de diversos segmentos do comércio global. O volume de contêineres em Xangai, o porto mais movimentado do mundo, caiu 20 por cento em fevereiro, enquanto o volume de carga caiu 23 por cento no porto de Los Angeles no mesmo período.

    No começo deste ano, boa parte do colapso teve origem na interrupção do envio de produtos vindos da China, onde muitas fábricas estão de portas fechadas. Isso afetou sobretudo setores como o de produtos eletrônicos e o de maquinário industrial, que dependem das fábricas chinesas para manter a rede de abastecimento global. As exportações de laptops da China para os EUA despencaram, por exemplo, no exato momento em que as empresas começam a adotar o trabalho remoto e os estudantes se veem forçados a participar de cursos a distância.

    Mas, a exemplo do vírus, que se espalhou da China para o resto do mundo, assim também será a crise econômica, que provavelmente se tornará mais intensa nos próximos meses. Para empresas e consumidores habituados a enviar produtos rapidamente para o mundo todo, essas perturbações podem ser um choque.

    "A China já nos mostrou como a queda da atividade industrial pode ser extrema", afirmou Chris Rogers, analista de comércio internacional e logística na Panjiva. Segundo ele, o volume de carregamentos marítimos da China para os EUA caiu 45 por cento nas primeiras duas semanas de março, em comparação com o mesmo período do ano passado.

    Nos últimos meses, as fábricas chinesas estão começando a reabrir as portas, ainda que muitas estejam operando com capacidade reduzida e possam ser fechadas caso o vírus volte a circular. Porém, enquanto as fábricas chinesas se recuperam, a demanda por muitos produtos despenca em outros lugares.

    Entre esses lugares estão os EUA e a Europa, onde a demanda por bens e serviços despenca à medida que os trabalhadores perdem o emprego e diminuem os gastos, o que obriga as empresas a cancelar os pedidos feitos na China.

    Em todo o planeta, fábricas fecham as portas por diversas razões. Os trabalhadores estão em quarentena, ou precisam ficar em casa para cuidar dos filhos que estão sem aulas, enquanto algumas fábricas não funcionam por falta de componentes e matérias-primas. Outras simplesmente não precisam fabricar seus produtos, pois ninguém quer comprá-los.

    As montadoras de automóveis, incluindo Volkswagen, Peugeot, Ford e GM, interromperam a produção nos EUA e na Europa em março, o que diminuiu a demanda por aço, produtos eletrônicos e outros componentes.

    Essas tendências geraram caos e confusão no transporte internacional. Os produtos se acumulam nos terminais de contêineres da China, enquanto alguns navios que partem dos EUA viajam vazios, na expectativa de buscar produtos em outros portos.

    No longo prazo, especialistas em redes de abastecimento afirmam que a crise pode levar a uma reestruturação – na qual fabricantes de roupas e de produtos eletrônicos e farmacêuticos repensam suas redes de abastecimento para garantir que sejam mais diversificadas e menos dependentes de um único local, como a China.

    A crise, porém, está se espalhando tão rapidamente que as empresas são incapazes de se preparar.

    "Neste momento, as empresas querem descobrir se vão falir nos próximos dois meses. Elas estão reavaliando como as redes de abastecimento vão funcionar, se os consumidores vão ter confiança nas empresas e o que vão comprar", disse Jon Gold, vice-presidente de abastecimento e políticas de importação da Federação Nacional do Comércio Varejista dos EUA.

    Até o momento, a carência de muitos produtos nos EUA e na Europa não tem origem na falta de bens, mas no aumento da demanda por parte de consumidores nervosos, que acumulam produtos de limpeza, papel higiênico, fraldas e sacos de feijão. Em outros casos, a escassez se deve ao fato de que os fabricantes de papel higiênico, alimentos e outros produtos tentam descobrir como reconfigurar as redes de abastecimento que enviam grandes quantidades de produtos para restaurantes e escolas, a fim de atender às demandas domésticas.

    "Não faltam calorias; o problema é o tamanho da embalagem", afirmou Rogers.

    As empresas que vendem barris de chope para restaurantes e rolos grandes de papel higiênico para aeroportos e escolas não podem reembalar e redistribuir seus produtos do dia para a noite. Para setores com produtos perecíveis, esse é um problema enorme. Produtores de laticínios têm sido forçados a jogar fora o leite que não conseguem levar aos consumidores e já consideram abater parte do rebanho.

    Matt Herrick, vice-presidente sênior da Associação Internacional de Derivados do Leite, declarou que o setor não enfrenta problemas de produção. Diferentemente de outros setores da economia, os produtores de leite não podem parar de trabalhar, pois as vacas não param de produzir leite. Mas, ao contrário da carne e dos grãos, o leite não pode ser congelado nem estocado por longos períodos.

    Gold, da Federação Nacional do Comércio Varejista dos EUA, que inclui empresas como Walmart, Target e outros grandes varejistas do setor de alimentação, afirmou que é cedo demais para dizer se os consumidores enfrentarão a falta de alimentos nos próximos meses, mas que os estados não podem parar de coordenar esforços para garantir que todos os elos da rede de abastecimento de alimentos continuem funcionando. "Não se trata apenas das fábricas, mas das fazendas, das transportadoras e dos centros de distribuição", disse Gold.

    Em todo o planeta, outros lockdowns podem levar à falta de metais e medicamentos. Na África do Sul, um lockdown interrompeu as atividades nas maiores minas de platina e paládio do mundo. Na Índia, que fornece 40 por cento dos medicamentos genéricos dos EUA, assim como muitos dos ingredientes ativos necessários para produzir outros medicamentos, especialistas em saúde afirmam que a quarentena nacional pode interromper o envio de suprimentos farmacêuticos para os EUA.

    A Índia proibiu a exportação de alguns medicamentos importantes no mês passado, mas mudou de ideia depois de sofrer enormes pressões dos EUA. O lockdown nacional ainda pode complicar o processo de fabricação e distribuição de medicamentos essenciais, afirmou Yanzhong Huang, parceiro sênior de saúde global no Conselho de Relações Internacionais.

    Até o momento, 75 governos estabeleceram limites para a exportação de suprimentos médicos, de acordo com dados coletados por Simon Evenett, professor de comércio internacional na Universidade de St. Gallen, na Suíça.

    Entre esses governos está o dos EUA, que impôs oficialmente a proibição da exportação de respiradores, luvas e máscaras cirúrgicas, unindo-se à União Europeia, à Índia, à China e à Turquia. Esses itens não podem mais sair dos Estados Unidos sem a aprovação da Agência Federal de Gestão de Emergências.

    Alguns países também começam a limitar a exportação de alimentos. O Vietnã impediu a exportação de arroz, a Tailândia proibiu que os ovos saíssem do país, a Rússia restringiu a venda internacional de grãos e o Cazaquistão está bloqueando a saída do trigo, da batata e de outros produtos.

    Organizações como o Banco Mundial e a Organização Mundial do Comércio pediram aos países que evitem a imposição de novas restrições comerciais, especialmente de produtos médicos, e que mapeiem e coordenem as empresas para aumentar a produção.

    "Nenhum país é autossuficiente, por mais poderoso e avançado que seja. Manter os mercados abertos e os investimentos circulando é fundamental para que as prateleiras continuem cheias e os preços, acessíveis", disse Azevedo em um vídeo postado no site da OMC em março.

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