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Violência sexual

Vítimas de médico reclamam de estrutura da Delegacia da Mulher, em Florianópolis

Principal queixa é relacionada à predominância de homens para registrar boletins de ocorrência e colher os depoimentos

18/02/2016 - 19h38 - Atualizada em: 19/02/2016 - 06h04

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Por Redação NSC
Além da falta de estrutura, vítimas se queixam do despreparo dos profissionais que atendem os casos
Além da falta de estrutura, vítimas se queixam do despreparo dos profissionais que atendem os casos
(Foto: )

Já são 35 boletins de ocorrência contra o nutrólogo Omar César Ferreira de Castro registrados na 6ª Delegacia de Polícia Civil em Florianópolis. Os últimos cinco foram anexados nesta quinta-feira, 18. Apesar de encorajadas após a prisão temporária do médico, vítimas relatam despreparo de profissionais e falta de estrutura da Delegacia de Proteção à Mulher, Criança e ao Idoso (DPCami).

Joana* é uma das ex-pacientes que procurou a unidade de Polícia Civil na Agronômica. A designer conta que chegou à 6ª DP acompanhada da irmã — quem a estimulou na denúncia do fato acontecido há dez anos —, mas que teve de ir sozinha à sala onde são registrados os BOs.

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— A sala onde registrei deveria ter dois por dois metros. Ficava logo atrás da recepção. E, como a porta ficou aberta, quem estava fora me ouvia. Apesar de que, nesse caso, eu não gostaria de ficar sozinha em uma sala fechada com um homem — reconhece.

A predominância de servidores masculinos e a falta de sensibilidade também incomodaram a vítima.

— Ele não estava com a atenção totalmente em mim. Eu preferiria ser atendida por mulher. Homem não entende. Não percebe a gravidade de quando alguém te passa mão na bunda ou tenta te beijar a força, como aconteceu comigo. O único momento que apareceu uma mulher na delegacia foi quando uma interrompeu para perguntar ao escrivão se ele estava colocando meu caso como estupro — conta Joana* — Quando ele disse que não queria saber o que eu senti na hora, mudei meu depoimento e não disse tudo que queria.

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O agente da 6ª DP, Leandro Coelho, lamenta a percepção da ex-paciente do doutor Omar. Ele insiste que as mulheres denunciem.

— Sabemos que existe esse desconforto. Mas precisamos desses casos de mais tempo, principalmente para aumentar o lapso de tempo de atuação do médico. Se elas fizerem questão, podemos providenciar uma mulher para ouvi-las — promete o policial, que pretende tomar o depoimento de todas as novas vítimas em dois dias da semana que vem.

Antelmo Ricardo da Silva é outro agente da mesma delegacia. Ele, que tem 31 anos de Polícia Civil, acrescenta que já viu muitas servidores mulheres desistirem dos cargos nas unidades especializadas em violência de gênero devido à alta carga de stress.

— É uma pena, mas elas não aguentam. Correm todas. Eu costumo falar para as vítimas me verem como um profissional, não como um homem.

A Delegacia da Mulher de Florianópolis conta com somente uma escrivã mulher e três agentes, mas elas costumam atuar somente em regime de plantão. Na tarde de quinta-feira, a reportagem só encontrou uma mulher na 6ª DP: a recepcionista.

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Espaço precisa evitar novo constrangimento

Uma delegacia especializada no atendimento de mulheres vítimas de violências precisa ser diferenciada, ou seja, ter profissionais capacitados para que elas não sofram novo constrangimento na hora de fazer a denúncia. Por isso, a necessidade de que os governos invistam na formação dos agentes públicos que recebem essa clientela que muitas vezes chega emocionalmente fragilizada. A avaliação é de Dalva Maria Kaiser, coordenadora municipal de políticas públicas para as mulheres, em Florianópolis.

Dalva conta que a Coordenadoria das Mulheres acompanha com o desenrolar do caso envolvendo o médico Omar César Ferreira de Castro com atenção:

— A gente fica indignada em saber que isso (crimes contra a dignidade sexual) vinha ocorrendo há tanto tempo. Então, já que deixaram transcorrer esses anos sem que nada fosse feito, que agora se ouça essas pessoas com respeito — sugere.

O caso do médico não se encaixa na Lei Maria da Penha (violência doméstica). Mesmo assim, o relato das vítimas que foram fazer denúncias na 6ª DP se encaixa em uma Pesquisa DataSenado de 2013: 20,7% das mulheres que admitiram ter sofrido violência doméstica (caso Maria da Penha) nunca procuraram a polícia.

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