Futebol é bola na rede, diz um dos jargões mais antigos do esporte. Itália e França disputam às 15h (de Brasília) deste domingo uma final de Copa do Mundo que, de certa forma, inverte esse preceito básico. As duas seleções que garantiram presença no palco do Estádio Olímpico de Berlim estão entre as menos vazadas do torneio e marcaram poucos gols ao longo da competição.

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A Azzurra só levou um gol no duelo contra os Estados Unidos e marcou 11, assim como a Argentina. Os Bleus, por sua vez, sofreram dois, contra Coréia do Sul e Espanha, e só marcaram oito. Se essas estatísticas prevalecerem, não será nenhuma surpresa se o título da 18ª edição da Copa do Mundo for decidido nos pênaltis neste domingo, após igualdade no tempo normal e na prorrogação.

O encontro inédito na decisão de Mundial de dois rivais históricos também tem outros significados. Tricampeã (1934, 1938 e 1982), a Itália pode abrir vantagem sobre a Alemanha (1954, 1974 e 1990) e encostar no Brasil (1958, 1962, 1970, 1994 e 2002). Campeã em 1998, a França pode se juntar aos bicampeões Uruguai (1930 e 1950) e Argentina (1978 e 1986) e deixar para trás a Inglaterra (1966).

Há também bons motivos para os dois finalistas comemorarem. Ambos desembarcaram na Alemanha com ambiente conturbado e cercados por incertezas. A Itália iniciou a fase final de preparação no meio de uma crise que ainda não terminou e que atingirá clubes, dirigentes, empresários e até jogadores. Enquanto o time jogava na Alemanha, o Ministério Público de diversas cidades do país investigava os podres do futebol italiano.

O processo está em andamento e ainda neste domingo devem surgir decisões importantes. A principal delas indica o rebaixamento da Juventus, o que nunca aconteceu dentro de campo em mais de 100 anos de Campeonato Italiano. O clube de Turim chama a atenção, porque dois de seus ex-dirigentes (Luciano Moggi e Antonio Giraudo) aparecem como cabeças de escândalo de corrupção e influência sobre árbitros.

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Até o técnico Marcello Lippi está envolvido, porque teria sido pressionado por Moggi e Giraudo, seus ex-patrões na Juventus. O goleiro Buffon e o zagueiro Cannavaro também foram incluídos entre suspeitos de irregularidades – o primeiro por apostar em sites esportivos, e o segundo por supostas irregularidades na documentação de transferência do Parma para a Juventus.

O mar de lama não atingiu a França. No caso dos Azuis, pesou muito a desconfiança dos torcedores, incentivados por uma crítica severa da imprensa. Os especialistas não apostavam no sucesso do técnico Raymond Domenech, dono de um retrospecto apenas razoável, e torciam o nariz para um grupo de atletas em final de carreira. Barthez, Thuram, Vieira, Makelele e até Zidane não inspiravam muita empolgação.

Mas os “velhinhos” franceses reagiram e, sem alarde, deixaram para trás rivais de peso. Primeiro, foi a Espanha, nas oitavas-de-final (3 a 1), depois o Brasil (1 a 0) e em seguida Portugal (1 a 0). Um dos segredos, além de marcação eficiente, foi Zidane. O meia de 34 anos, que promete se aposentar após a partida deste domingo, ressurgiu no máximo do esplendor e categoria. Conduziu o time até a final e há quem já dê como certo que será escolhido o craque da Copa mais uma vez, como em 1998.

Uma Copa em que os grandes craques não se destacaram. Ronaldinho, o melhor do mundo nos últimos dois anos, negou fogo. Ronaldo, mesmo marcando três gols, esteve muito abaixo do que mostrou no Mundial de 2002. Os argentinos Riquelme, Messi, Saviola ensaiaram roubar a cena, mas saíram antes do tempo, ao topar com a Alemanha nas oitavas. Beckham e Rooney foram muito bem – de marketing. Por isso, há um movimento entre os franceses para que Zidane reconsidere sua decisão de aposentar-se: ele é garantia de bom futebol seja qual for a competição.

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No momento em que o argentino Horacio Elizondo apitar o fim do jogo, fecha-se um dos Mundiais menos empolgantes e mais previsíveis dos últimos tempos. O que não tira o brilho da organização, excelente em quase tudo, e também não diminui o valor da vitória pessoal e política de Franz Beckenbauer, presidente do comitê organizador e maior divulgador do evento.

Após a volta olímpica dos campeões, o mundo do futebol se voltará para a África do Sul, o ponto de encontro de 32 seleções daqui a quatro anos. O continente africano entrará enfim no mapa da competição e não quer correr riscos, pois já tem gente que duvide de sua organização. Mas a África pretende mostrar que não é mais colônia de europeus e organizar um Mundial ainda melhor que o quase perfeito proporcionado pela Alemanha.Que assim seja.