(Foto: Cristiano Estrela / Agencia RBS)

— Antes ninguém falava comigo, agora todo mundo está me chamando na rua, na escola, dizendo que me viu na TV. Hoje no mercadinho, me chamaram de amigo do Messi e do Neymar — conta, todo tímido, o pequeno Arthur Felipp, de 9 anos, selecionado para uma bolsa integral no Barcelona Camp, que acontece entre 18 e 23 de julho no Costão do Santinho Resort, em Florianópolis.

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O evento é uma ‘clínica de futebol’ que apresenta técnicas, táticas e valores aplicados pelo clube catalão. O custo, no entanto, é bem alto: R$ 1.100 fora hospedagem e alimentação. Só que a equipe da Escola Oficial do Barcelona (FCBEscola) decidiu oferecer uma das vagas para um menino que não tivesse condições de arcar com esse valor. Usou como critérios de seleção boas notas no boletim, frequência escolar e nos treinos. E claro, ser bom de bola.

O empresário do ramo esportivo Tiago Gaspar ficou sabendo da bolsa pelo Barcelona Camp, avisou o árbitro de futebol amador Ezequiel Machado, o Babão, que coordena o projeto Chute Certo no bairro Saco dos Limões.

— Já trabalhei com o Babão há algum tempo e pensei que o projeto merecedor dessa bolsa era o Chute Certo. Ele trabalha com moleques muito carentes —explica Gaspar.

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E o Arthur se encaixava em todos os requisitos. A Família Felipp mora na parte de baixo de uma casa humilde no morro da Caiera do Saco dos Limões. O pai, o seu Anísio, já foi jogador de futebol amador e hoje trabalha como vidraceiro. A mãe, dona Cleide Mere, é auxiliar de cozinha. Moram com mais três irmãos; o Lázaro, de 5 anos, o Messias, de 12, e o Gabriel, já com 18. Na parte de cima da casa moram dois irmãos de Cleide.

— A gente espera que dê tudo certo com o Barcelona, mas eu sempre digo pra ele nunca esquecer da nossa origem humilde — projeta, orgulhosa, a mãe do Arthur. Ela conta que o menino é chamado de filho do Anísio, já que o garoto joga como o pai, e acredita que o futebol vai enfim lhe dar um nome.

Segundo tempo é na escola

Arthur estuda à tarde na terceira série da Escola Getúlio Vargas. Nas manhãs de terça e quinta, treina com a molecada do Chute Certo no campinho da Via Expressa Sul, ao lado do terminal desativado Tisac. O projeto hoje já rendeu diversos títulos sub-17 para o time, como o campeonato municipal do norte da Ilha e a Copa Floripa Brasil. Mas, assim como Arthur, o nascimento do projeto também tem uma história difícil, conforme lembra Ezequiel.

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— Comecei em 2013 com dez alunos. A Liff (Liga Florianopolitana deFutebol) queria nos cobrar R$ 880 de aluguel pelo campo. Eu disse que era um projeto social e que não poderiam cobrar por isso. Questionei a falta de pagamento de aluguel pela própria entidade para com o Conselho Comunitário do Saco dos Limões e acabei expulso da Liga — lembra.

O assunto já foi notícia no Hora. Na época, o presidente da Liff, Manoel de Paula Machado, disse que Ezequiel fora excluído porque tentou interferir na administração da Liga. O árbitro hoje apita pela liga de Biguaçu, mas conseguiu fazer a iniciativa seguir em frente. Conseguiu apoio do conselho, fez rifas e pediu patrocínio dos comerciantes locais para comprar os uniformes. Em 2015 veio o apoio da Fundação Municipal de Esportes para pagar professores, alimentação, material esportivo e transporte para os campeonatos. O Chute Certo começou com 10 alunos e hoje já são 96 jovens atletas ativos.

Arthur com a mãe e os irmãos, orgulhoso com o fardamento do Barça
Arthur com a mãe e os irmãos, orgulhoso com o fardamento do Barça (Foto: Marcus Bruno / Agência RBS)

As crianças do projeto, incluindo o próprio Arthur, não tinham a menor ideia que poderiam ganhar uma bolsa integral pra treinar durante seis dias com os técnicos catalães no Barcelona Camp. O Ezequiel fez tudo às escondidas. Quando os técnicos do clube mais badalado do mundo foram ao campo, o menino não acreditou. Até que ganhou um fardamento do time: duas camisas, calção e meias. Aí a ficha caiu.

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O menino diz que já está se preparando para quando estiver frente a frente com os treinadores do Barça.

— Eu treino no Chute Certo e também em outra escolinha. E em casa eu jogo com meus irmãos — reforça.

Artur e Lázaro fazem uma bola com papel, amarram numa sacola e jogam na sala mesmo. A mãe conta que ficam até de madrugada fazendo barulho. Mesmo assim, às 9h o garoto está lá no campo da Via Expressa. Porque nem dormindo ele desliga do futebol.

— Se eu passar, vou ajudar quem não tem casa pra morar, e os meus pais eu vou levar pra Espanha — sonha.

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