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O novo Papa

Bispo emérito da Diocese de Blumenau acredita em renovação com o novo Papa

Dom Angélico Sandalo Bernardino analisa o futuro da Igreja e fala das expectativas em relação ao papa Francisco

15/03/2013 - 17h12

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Por Redação NSC
Dom Angélico na casa paroquial onde mora, na Freguesia do Ó, em São Paulo
Dom Angélico na casa paroquial onde mora, na Freguesia do Ó, em São Paulo
(Foto: )

A escolha de um novo líder para a Igreja Católica marca o início de uma nova era no Vaticano. Nos primeiros dias de papado, simplicidade e honestidade retratam os primeiros passos de Francisco. Por essas características e pelo fato de ser jesuíta e latino-americano, membros da Igreja acreditam no início de uma renovação. Dom Angélico Sândalo Bernardino, bispo emérito da Diocese de Blumenau, radicado atualmente em São Paulo, ressalta que é com este perfil que Jorge Mario Bergoglio vai estimular a fé dos cristãos.

Assim como Bento XVI, Dom Angélico também renunciou à vida eclesiástica e acredita que a idade e a falta de forças foram o motivo da renúncia de Joseph Ratzinger. Nascido em Saltinho (SP) dia 19 de janeiro de 1933, Dom Angélico foi nomeado pelo Papa João Paulo II, em 19 de abril de 2000 para ser o primeiro bispo da Diocese de Blumenau. Renunciou dia 18 de fevereiro de 2009, aos 76 anos.

Mesmo com a batina pendurada, participa de entrevistas, prega em retiros e analisa a atual conjuntura da Igreja. Em uma conversa por telefone com o Santa, Dom Angélico fala sobre as expectativas em relação ao novo Papa, o futuro da Igreja e a rotina de vida em São Paulo. Ao falar de Blumenau, é saudosista e diz que ama muito a cidade:

- Por favor, sobe em uma árvore aí e veja Blumenau por mim. Tenho muita saudade.

Jornal de Santa Catarina - O que o senhor achou da eleição do Papa Francisco?

Bispo emérito de Blumenau Dom Angélico Bernardino - A eleição enche a todos de alegria. A América Latina realmente dá graças a Deus, depois de tantos séculos, por um cardeal fora da Europa ser escolhido papa.

Santa - O que isso representa na prática?

Dom Angélico - Nós estamos em um mundo diferente, globalizado, em uma nova época. Isso demonstra, por parte dos cardeais, um alargamento de visão. Novos horizontes. Eu acredito em uma renovação. Há problemas sérios na humanidade e o papa Francisco tem um coração aberto para a questão da miséria e da fome no mundo. Um outro grande problema que ocupa o coração deste Papa é a problemática da paz. Nós vivemos em um mundo armado, há bombas atômicas e instabilidade bélica no mundo. Outro grande problema é o ecológico. A Igreja está entrando nessas preocupações do ecossistema e da ecologia. Por isso, a eleição dele me enche de alegria. É o primeiro jesuíta a ser papa e escolheu o nome de Francisco. Ele homenageia três franciscos: o de Assis, o de Bórgia e o Xavier.

Santa - O senhor conhece o novo papa?

Dom Angélico - Eu estive na 5ª Conferência dos Bispos da América Latina e do Caribe, em Aparecida (SP). Parece-me que ele estava lá. Nós, nas estradas da vida, já nos cruzamos de alguma forma.

Santa - O senhor acompanhou pela televisão o momento em que ele apareceu para todo o Vaticano?

Dom Angélico - Gostei demais. Simples, simpático, alegre e, inclusive, inclinando e pedindo ao povo que ore e reze por ele.

Santa - A fé do povo será renovada com o novo papa?

Dom Angélico - Olha, todos nós na Igreja temos os olhos fixos em Jesus. Mas, quando nós contemplamos um irmão nosso com gestos de bondade, de humildade e de grandeza de alma, cresce em nós este amor para com a Igreja, esta adesão para com Jesus e o compromisso de, unidos, darmos o melhor de nós na construção do Reino de Deus. Que é feito de justiça, amor e paz. Afinal de contas, o papa tem grande responsabilidade.

Santa - Humildade e simplicidade são características fundamentais para levar o cristianismo adiante?

Dom Angélico - O segmento de Jesus requer de todos nós despojamento, humildade, esperança, fé e, sobretudo, muito amor. Então, o gesto de simplicidade e humildade do Papa são estímulo para todos nós. Que também sejamos bondosos, esperançosos e repletos de amor.

Santa - A simplicidade do papa Francisco gera um conflito com o espaço sofisticado do Vaticano, não?

Dom Angélico - Não. Acho que ele vai, com a personalidade dele, marcando o seu estilo bonito de vida. Eu gosto muito. Quanto mais simples, melhor. Simplicidade em nós, no Vaticano, em São Paulo, em Blumenau, em Xangai, em Pequim e em Washington também.

Santa - O novo papa é conservador nas questões morais?

Dom Angélico - Há certos princípios que realmente estão de pé. Por exemplo, falam que ele é contra a eutanásia. Eu também sou. E não me julgo conservador, nem progressista. Há certos princípios que devem ser seguidos, afinal de contas, a união sexual de homem com homem constitui uma família? Eu digo que não. O que não quer dizer que não devamos respeitar e amar cada pessoa. Agora no Carnaval distribuíram um caminhão de camisinhas. Isso vai "encamisar" as genitais? Pode ser que consigam. Mas vai "encamisar" a sexualidade, a afetividade e o amor que existe entre duas pessoas? Há certas questões que, em sociedade, devem ser mais aprofundadas. Não vamos estereotipar a ação deste Papa simplesmente em questões que precisam ser aprofundadas na família, sociedade, escola e Igreja com muita seriedade, e não com leviandade. Há relevantes problemas na humanidade que ocupam a Igreja: a corrida armamentista, a fome, a miséria, as guerras, as questões ecologias. São problemas seríssimos. Estão querendo resumir tudo a sexo. É um polemizar muito superficial.

Santa - Que mensagem o senhor daria ao novo papa?

Dom Angélico - Nós o recebemos com imensa ternura, esperança e muito amor. Bendito seja aquele que vem em nome do Senhor.

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