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JEC busca recuperação para ano sem divisão nacional e dívida de quase R$ 50 milhões

Joinville planeja se reerguer depois de eliminações na Série D e na Copa SC

11/12/2021 - 05h00

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Marcelo
Por Marcelo Henrique
família
Família Mazotto representa o espírito de esperança dos torcedores do JEC
(Foto: )

Um clube que desceu ladeira abaixo: assim é possível descrever os últimos anos do JEC. Em um intervalo de sete anos, o time conquistou o acesso à Série A do Campeonato Brasileiro, sofreu três rebaixamentos e ficou de fora de todas as competições nacionais. A história recente aponta falhas que precisam ser discutidas para entender como se chegou à atual situação.

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Quem sofre diretamente com essa fase ruim é o torcedor. Atualmente, o time de futebol recebe o apoio de aproximadamente 2,4 mil sócios, um deles é o aposentado Almir Mazzoto, que acompanha o time desde a fundação em 1976. A paixão começou após a família receber o acolhimento de Joinville quando vieram de São João Batista. Na época, eles assistiam aos jogos dos times da região da Grande Florianópolis, onde desenvolveram o amor pelo futebol.

Apesar do momento crítico, Almir compreende que a turbulência é normal para qualquer clube, e que mesmo assim, não vai abandonar o Tricolor.

- Muitos torcedores tiveram o sentimento de revolta, o nosso sentimento é de angústia, porque a gente ama esse clube e não queria vê-lo nessa situação. Mas a gente até entende, porque todo clube passa por situações boas e momentos ruins.

O JEC pode estar sem série nenhuma que a gente vai estar sempre aí. Sempre acompanhando e sempre juntos - declara.

Para sair dessa situação dramática, Almir acredita que uma parceria com empresas privadas seria o melhor caminho para o time voltar aos dias de glória.

- Buscar parceiros, conversar com os ex-presidentes, buscar uma melhor solução, tentar entrar em sintonia e unir um pouco essa classe empresarial. Mesmo os pequenos empresários ajudando um pouquinho. Acho que a única saída do clube seria essa - opina.

JEC pode vender até 90% das ações

No caminho para tentar sair do buraco, a mudança na gestão do clube é vista atualmente como uma das esperanças. No dia 30 de novembro, uma comissão formada por conselheiros do JEC apresentou um cronograma de ações para implementar a Sociedade Anônima do Futebol (SAF). A SAF é uma lei que permite que os times se enquadrem como clube-empresa e possam, por exemplo, pedir recuperação judicial e negociar suas dívidas por meio da Justiça.

Ficou definido que o JEC SAF poderá ter até 90% de suas ações vendidas para investidores, enquanto 10% ficam com o clube associativo, como forma de segurança do JEC para proteger sua marca, cores, símbolos e história. Agora com a decisão tomada, o que falta para a implementação do SAF é ir ao mercado em busca de pessoas que queiram investir no futebol de Joinville.

As ações do futebol poderão ser compradas por grandes grupos empresariais e também por investidores menores. De acordo com a comissão que analisou o assunto por quatro meses, o clube classificou como "investidores qualificados" aqueles que têm experiência no futebol e já investem em ligas europeias de ponta ou em franquias esportivas nos Estados Unidos. Além dos qualificados, investidores minoritários também poderão aportar recursos no clube. Isso abre espaço para que a comunidade joinvilense, com empresários e torcedores, também possam ser acionistas e fazer parte da administração do time.

O diretor-financeiro do clube, Genivaldo Karpanno acredita que essa transformação vai demorar para acontecer.

- É uma coisa que precisa ser feita em conjunto, não dá pra fazer isso da noite pro dia. Não acredito que vai ser a nossa gestão que vai implantar isso - declara.

Já o conselheiro do Joinville e especializado em Gestão do Esporte, Geraldo Campestrini, tem uma visão mais otimista. Em entrevista para a CBN Joinville, disse que a implementação da SAF e da profissionalização dos processos pode ser realizada em 2022:

- A gente tem um desenho que até abril ou maio o JEC já está apto, possivelmente, a se converter em sociedade empresarial no modelo da SAF.

Quase 50 milhões em dívida; SAF não é garantia de melhora

Apesar do SAF permitir a participação de investidores na gestão, Karpanno alega que a parceria com empresários dificilmente vai resolver todas as pendências financeiras do tricolor.

- Muita gente acha que é só trocar o CNPJ e vai morrer as dívidas, não é assim que funciona. Isso é uma coisa que precisa ser muito bem estudada. Claro que é um paliativo, uma saída, mas não vai resolver os problemas, a dívida continua - explica.

De acordo com o diretor-financeiro, o clube enfrenta um fluxo de -60% no caixa e uma dívida que gira em torno de R$ 47 milhões, sendo formada por R$ 16 milhões em ações trabalhistas, R$ 25 milhões em impostos e R$ 6 milhões em fornecedores.

Atualmente, as fontes de renda são patrocínios, sócios e bilheteria. Em 2021, o faturamento mensal foi de R$ 400 mil, mas em 2022 a receita deve ser de R$ 350 mil. Karpanno explica que o valor é menor pois o Tricolor perdeu dois patrocinadores.

Entretanto, esses valores não serão suficientes para abater a dívida milionária. Além da implementação do SAF, o caminho mais lógico para quitar esse déficit seria o sucesso dentro das quatro linhas.

- Para o clube pagar e sanar essa dívida precisava subir de divisão. O erro não foi não subir esse ano, porque fizemos uma excelente Série D, o grande erro foi não se classificar no Estadual [para a disputa da série D de 2022] - declara.

O dirigente revela que o mal desempenho da equipe reflete diretamente no tratamento da sociedade com a diretoria.

- Quando cai fora [das competições], fica complicado até pra ir no mercado ou numa padaria. Eu e o Charles Fischer [presidente do clube] somos metralhados em todas as esquinas da cidade - conta.

A última vez que o Coelho ficou sem calendário nacional foi em 2009, quando jogou apenas o Campeonato Catarinense e a Copa Santa Catarina, torneios que serão o foco em 2022. Será necessário fazer uma boa campanha no Catarinense, pois a vaga da Série D de 2023 é conquistada pela classificação no estadual.

Aposta no comando técnico e retorno de um velho conhecido

Para conquistar esses objetivos, um novo treinador comandará o time: Paulo Massaro. Um ex-jogador de 39 anos que antes do Coelho, só teve duas experiências como técnico em seu currículo.

Paulo Massaro confirma acerto verbal com o JEC: “estou muito satisfeito e feliz”

Com apenas a disputa do estadual e da Copa SC, o Coelho vai precisar de uma reformulação. Massaro disse que a montagem do elenco terá que ser feita com o objetivo de ser mais precisa possível.

– Vamos procurar atletas, primeiro, pelo número de jogos feito no ano porque o campeonato é um tiro curto. Se for pra fazer aposta, a gente faz na base. Se tem base, tem que usar. Se não, não precisa ter. A gente não vai fechar os olhos para o que é formado na nossa própria casa. Quem a gente trouxer, vai ser relacionado a solução dos problemas – explica.

O discurso do técnico vai de encontro com as intenções do presidente. Em entrevista à CBN Joinville, Charles Fischer revelou que o orçamento mensal previsto para o ano que vem é de - no máximo - R$ 120 mil mensais.

— Nós vamos ter que trabalhar nessa realidade aí [...]. Vamos ter que usar muito a nossa criatividade, o aprendizado que tivemos em 2021 foi muito importante. Vamos ter que ser criativos, inteligentes e muito assertivos — aponta.

'Ser criativos, inteligentes e assertivos', diz presidente do JEC sobre 2022

Além de Massaro, o JEC também contratou o uruguaio Sérgio Ramirez, um velho conhecido que assumiu os cargos de gerente de futebol e coordenador técnico. Ramirez já foi treinador do Joinville em duas oportunidades entre 2006 e 2010, já em 2015 foi coordenador técnico. Agora, o uruguaio vai ter o papel de estreitar os laços entre vestiário e diretoria.

Ramirez fez parte do time que esteve na Série A, quando conquistou o acesso depois de uma conquista inédita, o título da Série B de 2014. Daquele momento em diante, o JEC caiu em uma profunda decadência.

Da elite para o deserto de competições nacionais

2015

A volta para a elite do futebol brasileiro estava sacramentada após 28 anos, quando participou do campeonato de 1986. Porém, a disputa da elite durou até a 36ª rodada. O clube foi rebaixado após sete vitórias, 10 empates e 21 derrotas, o que resultou na lanterna da competição. Desse ano em diante, o Coelho desceu ladeira a baixo.

No mesmo ano, se encerrou o mandato do presidente Nereu Martinelli, que estava no clube desde 2012 e atuou ativamente nas outras campanhas de acesso do Joinville.

2016

A equipe voltou para a segunda divisão com Jony Stassun na presidência, um mandatário que iria enfrentar problemas políticos no futuro.

Na Série B, havia a expectativa de lutar pelo acesso novamente, mas foi rebaixado mais uma vez. O Tricolor caiu para a Série C e terminou a Segundona com 9 vitórias, 13 empates e 16 derrotas.

2017

O ano era de disputa de um torneio com novo formato, mas mesmo assim a equipe não teve sucesso. O Joinville não se classificou nem para a fase de mata-mata da Série C e viu o calendário acabar mais cedo. Foram seis vitórias, sete empates e cinco derrotas.

Aquela temporada foi conturbada não só dentro de campo, mas também na política. Em novembro daquele ano, 17 conselheiros pediram o impeachment do presidente Jony Stassun. A principal alegação é que Jony aumentou demais a dívida do clube.

Entretanto, depois de alguns conflitos, tanto parte do Conselho Deliberativo quanto a diretoria esfriaram os ânimos e resolveram atuar juntos para entender a situação do Coelho.

2018

Vilfred Schapitz passou a presidir o JEC em mais um ano de fracasso. Dessa vez, pior do que anterior, quando permaneceu na divisão. Em 2018, o JEC desceu mais um degrau e foi rebaixado para a Série D. O Tricolor teve três vitórias, um empate e 12 derrotas.

2019

Na nova competição nacional, o Joinville foi eliminado de forma precoce na primeira fase e terminou a competição com duas vitórias, um empate e três derrotas. Entretanto, ele não ficou de fora da divisão em 2020, pois garantiu vaga para a Série D através do bom desempenho no Campeonato Catarinense.

2020

Em um ano atípico em virtude da pandemia, o Coelho não pode contar com a presença da torcida. Não foi possível saber se a presença do joinvilense nas arquibancadas poderia mudar a disputa de mais uma Série D, mas o fato é que o JEC fez mais um campeonato abaixo das expectativas. Foram cinco vitórias, cinco empates e quatro derrotas, e assim como no ano anterior, caiu fora na primeira fase. Mais uma vez pelo rendimento regular no estadual, a equipe confirmou vaga na quarta divisão nacional em 2021.

Além de ser eliminado, a política do clube ganhou um fato novo. Em dezembro, Charles Fischer assumiu a presidência, onde irá permanecer até 2022, quando acaba o mandato.

2021

A temporada em que o tricolor voltou à estaca zero no cenário nacional. Apesar da campanha promissora na Série D, o Joinville foi eliminado nas oitavas de final e deu adeus à chance de subir para a terceira divisão. Foram oito vitórias, oito empates e duas derrotas. Não bastasse o fracasso da eliminação, o time também ficou de fora da mesma divisão nacional em 2022, pois não se classificou pelo Campeonato Catarinense.

infográfico
Infográfico detalha a transição da glória para a derrocada do Tricolor
(Foto: )

*Sob supervisão de Lucas Paraizo

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