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34º Festival de Dança

Mais de 400 participam de audição do Bolshoi durante o 34º Festival de Dança de Joinville

Conheça a história de Adriano Amancio Vieira, que trouxe seus dois filhos de Recife para participar da seleção

25/07/2016 - 10h57 - Atualizada em: 25/07/2016 - 10h59

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Por Redação NSC
Adrielly Vieira, 13 anos, junto com as demais candidatas na sala da audição.
Adrielly Vieira, 13 anos, junto com as demais candidatas na sala da audição.
(Foto: )

Nesta segunda-feira, a Escola do Teatro Bolshoi no Brasil realizou sua tradicional audição durante o 34º Festival de Dança de Joinville. Foram realizadas 465 inscrições. É uma oportunidade para bailarinos daqui ou para quem vem de fora participar do festival. Há também quem venha exclusivamente para a seleção. É o caso dos irmãos Adriel e Adrielly, que vieram com o pai, Adriano Amancio Vieira, de Recife, Pernambuco. Não foi fácil para eles chegarem até aqui.

Adriano, de 41 anos, está desempregado e cuida dos seus quatro filhos sozinho. Os outros dois, que ficaram com a comadre de Adriano, também são bailarinos, mas não têm idade suficiente para participar da seleção. Para criá-los, o pai, que está desempregado, vende água nas ruas de Recife. E era apenas esse o recurso que ele tinha para trazer Adriel e Adrielly para Joinville tentar uma vaga no Bolshoi. Os dois não passaram na audição, mas a história dessa família vale a pena ser contada.

Para muitos, a passagem da tocha olímpica pelas cidades brasileiras não deveria nem

ser realizada. Aqui mesmo, em Joinville, um homem tentou apagar a chama, mas foi rapidamente contido pelos policiais. Em Recife, a passagem da tocha no dia 31 de maio significou muito para Adriano e seus filhos. Os pequenos queriam ver a tocha e o pai prometeu que eles iriam acompanhar o trajeto. E Adriano fez isso de bicicleta, com os filhos trajados de bailarinos, pois haviam acabado de sair da aula de balé. Eles são alunos da Aria Social, uma associação sem fins lucrativos que atende crianças e jovens de baixa renda e risco social.

Evandreia Buosi, jornalista que trabalha no revezamento da tocha, avistou Adriano e seus filhos e se aproximou. Ela ficou sabendo que o pai não tinha condições para trazer os filhos para a audição e decidiu abraçar a causa. Evandreia organizou uma "vaquinha" para arrecadar o dinheiro necessário para a viagem. E não de outra. Ela e seus amigos, que também trabalham no revezamento da tocha, arrecadaram R$4.500 e tornaram possível o sonho de Adriano e seus filhos.

- Ela gostou da minha atitude. Foi um anjo na nossa vida -, disse.

Evandreia, que tem percorrido o país acompanhando a tocha, recebeu a notícia da não aprovação com tristeza.

- Vi o Adriano no revezamento. Conversei com ele, ele me falou que teria esse teste, mas que não teria dinheiro para levar as crianças. E aí a gente (da equipe do revezamento) fez uma vaquinha para poder levar ele e as crianças para Joinville. E foi assim. A gente fez a vaquinha e conseguiu levar. E agora, pô, fiquei triste de saber que eles não passaram -, disse a jornalista.

Viajando pela primeira vez de avião, os três desembarcaram em Joinville neste domingo. Às 8 horas desta segunda-feira eles já estavam na sede da Escola do Teatro Bolshoi, pois os dois pequenos eram da primeira turma da audição, que iniciou às 8h30. Foram três turmas, com 409 meninas inscritas e 56 meninos, entre 11 e 18 anos.

Adriano conta que Adriel, de apenas 12 anos, é fã de Billy Elliot, um filme inglês que conta a história de um menino que foi enviado para a academia para aprender boxe, mas acaba iniciando na aula de balé. Quando o pai descobre, o proíbe de continuar, mas Billy continua ensaiando em segredo. No fim, ao perceber o talento do filho, o pai decide fazer o que for preciso para ajudar Billy alcançar seu sonho de ser bailarino. A história do filme foi contada por Adriano enquanto esperava o resultado da audição do filho.

Diferente do pai do personagem Billy, Adriano conta que sempre aceitou a escolha de seus filhos. O pai revela que uma vez o filho chegou em casa contando que um amigo disse que balé era coisa de menina. Adriano não pensou duas vezes:

- Disse para ele que era pra entrar num ouvido e sair no outro, para só gravar coisa boa. Eles são muito inteligentes. Tenho orgulho. Isso quebra a barreira do preconceito. Sou contra isso -, disse Adriano, que admite que é um pai que se envolve muito com as atividades dos filhos que também são escoteiros. Foi dele a ideia de trazer os filhos para a seleção. Ele conta que passa o tempo procurando novidades e exercícios na internet.

Cinco auditores acompanhavam os passos dos candidatos, que participaram da primeira etapa, uma aula de balé clássico, com exercícios de barra e centro. Tanto Adriel como Adrielly não passaram para a próxima fase, que é uma avaliação fisioterápica, quando são analisadas as musculaturas, articulações, desvios posturais e habilidades específicas como abertura de quadril e flexibilidade.

O nordestino não sabe ao certo o que motivou seus quatro filhos a entrarem no mundo da dança, mas ele arrisca que pode ter alguma ligação com o fato de ele já ter trabalhado em dois circos. Adriano estava disposto a se mudar para Joinville caso um dos dois fossem aprovados. Adrielly foi a primeira que recebeu a resposta negativa. A tristeza era evidente, mas a menina de 13 anos, que começou na dança fazendo piruetas em casa, não demorou muito para responder que não iria desistir.

- Vou tentar ano que vem de novo -, disse Arielly, que já dança há nove anos, a primeira dos quatro bailarinos da casa.

A demora para o retorno de Adriel fez com que o pai e a menina tivessem um pouco mais de esperança. Eles aguardavam na recepção da Escola, ponto de encontro dos pais, que abraçavam os filhos emocionados quando eles voltavam da audição. Logo, o filho voltou com a notícia.

- Desistir nunca -, disse o pai para Adriel quando ele retornou da audição. Eles vão ficar em Joinville até terça-feira e aproveitar a visita para passear e apreciar o Festival.

Silvana Albuquerque, coordenadora das audições, fala que o grande objetivo é "oportunizar talentos" para aprender o método da Escola. Ela explica que os aprovados nas audições integrarão turmas já existentes, não formarão uma nova turma. Não há um número de vagas, depende da idade e do nível de conhecimento.

- A gente precisa acalmá-los. Isso é muito importante. Para muitos, é a primeira audição da vida. Tem que ser algo positivo. São muitos nãos para conseguir um sim -, disse Silvana. Entre os candidatos, estão bailarinos de 20 estados brasileiros e da Argentina, Chile e Paraguai.

A lista oficial dos aprovados deve sair na manhã desta terça-feira. Os aprovados poderão ingressar na Escola já no segundo semestre deste ano ou no início de 2017. O resultado será divulgado no site do Bolshoi e em edital na Feira da Sapatilha e na Escola.

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